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  O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE

por Prof. Dr. Joel Rennó Jr

Dali, Três Esfinges

 

Traços de personalidade

 

Para falar de personalidade, antes é preciso entender o que vem a ser traço de personalidade. O traço é um aspecto do comportamento duradouro da pessoa; é sua tendência à sociabilidade ao isolamento, à desconfiança ou à confiança nos outros. Por exemplo: lavar as mãos é um hábito, mas a higiene é um traço, isso implica manter-se limpo regularmente escovando os dentes, tomando banho, trocando as roupas, etc.

 

Pode-se dizer que a higiene é um traço da personalidade de uma pessoa depois que os hábitos de limpeza se arraigaram. O comportamento final de uma pessoa é o resultado de todos os seus traços de personalidade. O que diferencia uma pessoa de outra é amplitude e intensidade com que cada traço é vivido.

 

Por convenção, um  diagnóstico de transtorno de personalidade só deve ser dado a adultos, ou no final da adolescência, tendo em vista que, na maioria das vezes, a personalidade só está completa nessa época. Os diagnósticos de distúrbios de conduta na adolescência e pré-adolescência são outros.

 

 

Aos poucos começou a ficar evidente um grupo de pessoas que apresentavam sintomas neuróticos, mas que numa análise apurada não se encaixavam nesse diagnóstico.

Para entender o que é

Em 1905, Kraepelin já escrevia que existiam diversos estados “limítrofes" entre insanidade e condições normais ou apenas estranhas. Ao mesmo tempo, a psicanálise estava desenvolvimento um conjunto de conceitos e uma prática científica que, mais tarde, iriam possibilitar falar sobre a personalidade borderline. No início, porém, a maioria das pesquisas dentro da abordagem psicanalítica envolvia distúrbios considerados neuróticos em pessoas relativamente bem-adaptadas socialmente (Mack, 1975).

 

Aos poucos começou a ficar evidente um grupo de pessoas que apresentavam sintomas neuróticos, mas que numa análise apurada não se encaixavam nesse diagnóstico. Adolf Stem foi, de acordo com vários autores (Mack, 1975; Pfeiffer, 1974; Millon, 1981), o primeiro a descrever formalmente este grupo residual sob o nome borderline. A partir da década de 1940, apareceram mais esboços conceituais. Deutsch denomina de personalidade as-if (“como se”) aqueles indivíduos que se comportam como se mantivessem uma relação genuína e completa com a realidade. E como se respondessem adequadamente às circunstâncias da vida, mas transmitem uma pseudo afetividade em que apesar de aparentemente tudo estar bem, no íntimo há uma vivência de vazio (Pfeiffer, 1974).

 

A importância do contexto social

De muitos modos a sociedade é um mundo de contradições. Somos levados a acreditar e a defender a paz, embora as ruas, os filmes, os esportes, a televisão etc. sejam marcados por agressão e violência. Fala-se em solidariedade, mas na prática o capitalismo ensina o individualismo. A liberdade de expressão é valorizada no discurso e punida na prática. Ensina-se um mito: a polaridade. As coisas são boas ou ruins, certas ou erradas, brancas ou pretas. Contudo, embora o mundo não seja exatamente assim, as pessoas são levadas a acreditar que é (Kreisman e Straus, 1989; Armony, 1998).

 

O aumento do índice de divórcio, da utilização de babás, da dificuldade em alcançar relacionamentos íntimos mais estáveis, da necessidade de mudanças geográficas devido às pressões econômicas contribuiu para uma sociedade instável, com solidão, sentimento de vazio, ansiedade, depressão e dificuldade em confiar.

O conforto fornecido outrora por familiares e papéis sociais consistentes foram perdidos, piorando os relacionamentos interpessoais e provocando isolamento, já que não se conta com o apoio de um grupo estável e/ou presente (Kreisman e Straus, 1989; Armony, 1998).

 

Porque mais frequente em mulheres

 Não é de causar estranheza o fato de que o TPB seja mais frequente em mulheres. No passado, elas tinham essencialmente um curso de vida: casar, ter filhos, cuidar deles e do lar. Hoje, necessitam conciliar todos esses papéis com o trabalho fora de casa ou, às vezes, tomar decisões sobre o que priorizar, o que pode torná-las confusas e estressadas sobre quem são ou o que querem.

Já os homens tiveram que fazer poucos ajustes na vida. Não precisam desempenhar tantos papéis e não sofrem tantas press„ sociais quanto as mulheres. Concomitantemente ao aumento da liberdade feminina, as responsabilidades também foram maximizadas (Kreisman e Straus, 1989; Armony, 1998). Outro importante é a prevalência de inúmeras formas de violência contra a mulher. Portanto, todos os fatores sociais ressaltados aqui devem ser considerados como possíveis “gatilhos” em pessoas biologicamente predispostas, uma vez que contribuem com as contingências familiares e interpessoais relacionadas ao desenvolvimento do TPB.

 

O dia-a-dia da mulher borderline

Enquanto uma pessoa com depressão ou transtorno bipolar apresenta tipicamente o mesmo estado afetivo durante semanas, uma pessoa com TPB pode ter episódios intensos de raiva, depressão e ansiedade que podem durar apenas algumas horas ou, no máximo, um dia. Tais sensações podem se associar a episódios de agressividade impulsiva, autoagressão e abuso de drogas ou álcool. Distorções da cognição e da consciência do eu podem ocasionar mudanças frequentes de objetivos a longo prazo, planos de carreira, empregos, amizades, identidade sexual e valores. Mulheres com TPB podem se considerar injustamente incompreendidas ou maltratadas, enfadadas, vazias e terem pouca noção de quem são. Esses sintomas são mais agudos quando os indivíduos portadores do TPB se sentem isolados e carentes de apoio social e podem demandar esforços frenéticos para evitar ficar sozinhos.

Os borderlines apresentam com frequência padrões de relacionamentos muito instáveis. Podem vir a ter ligações intensas, porém tempestuosas. Sua atitude em relação a familiares, amigos e entes queridos pode passar subitamente da idealização (grande admiração e amor) à desvalorização (intensa raiva e desaprovação). Assim, podem formar uma ligação imediata e idealizar a outra pessoa, mas ao ocorrer uma pequena separação ou conflito passa inesperadamente para o outro extremo e acusam com fúria a soa de não ter absolutamente nenhuma afeição por eles. Mesmo com os familiares, os indivíduos com TPB se mostram muito sensíveis à rejeição, reagindo com raiva e angústia até nas separações, como um período de férias, uma viagem de cios ou uma súbita mudança nos planos. Esses temores de abandono parecem estar relacionados a dificuldades em se sentirem emocionalmente ligados a pessoas importantes, quando estas

se encontram fisicamente ausentes, deixando o borderline sentir-se perdido, e o outro, talvez, toma-se indigno de confiança. Podem ocorrer ameaças e tentativas de suicídio, em conjunto com a raiva, nos casos de abandono e desapontamento percebidos por eles.

As pessoas com TPB apresentam outros comportamentos impulsivos, como gastos excessivos, farras alimentares e sexo de risco. O TPB ocorre com frequência em associação a outros problemas psiquiátricos, especialmente transtorno bipolar, depressão, transtornos ansiosos, abuso de drogas e outros transtornos de personalidade.

 

Tratamento

O tratamento de pacientes com TPB requer tempo e paciência tanto dos profissionais quanto dos familiares dos pacientes. Os resultados são muito lentos e graduais, além de limitados em alguns pacientes, infelizmente.

O tratamento envolve, obrigatoriamente, a associação de psicoterapia cognitivo-comportamental ou interpessoal com medicamentos. Utilizamos, de preferência, medicamentos antidepressivos, estabilizadores de humor e antipsicóticos, dependendo da gravidade dos sintomas, dos riscos e dos prejuízos sociofuncionais secundários. Em determinados contextos, a internação psiquiátrica pode ser necessária para a proteção do próprio paciente.