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Tristeza e Personalidade

por Prof. Dr. Joel Rennó Jr.

 Oswaldo Guauyasamin, 1983, El Grito

 

 

 

Embora essa pesquisa desafie a noção de personalidade como constituída por traços eminentemente fixos, os resultados, poderiam realmente nos ajudar a aprofundar a análise sobre a trajetória oscilante de longo prazo nas vidas das pessoas.

Todos sempre esperam que determinados traços de personalidade se mantenham estáveis ao longo da vida, excetuando-se, é claro, extremos de doença ou trauma. De fato, o aspecto central da definição de personalidade é que ele descreve tendências difusas no comportamento de uma pessoa e as formas de se relacionar com o mundo. No entanto, um novo estudo publicado na Revista BMC Psychology (2014) destaca uma nova realidade – a sua personalidade é influenciada por seu humor atual, especialmente quando você está se sentindo para baixo.

Traços de personalidade de 98 participantes ( idade media de 22 anos; 67 por cento do sexo feminino), foram medidos em dois momentos com intervalo de um mês. Antes de cada uma das avaliações, o participante ou assistiu a um vídeo de dez minutos projetado para fazê-los se sentir triste, ou para fazê-lo se sentir feliz. O clipe triste envolveu o filme Filadélfia enquanto o feliz envolveu famílias reunidas após a queda do Muro de Berlim. Antes de sua outra avaliação da personalidade, os participantes assistiram a um vídeo neutro sobre as pessoas com habilidades extremas.

Quando os participantes responderam a perguntas sobre sua personalidade em um estado triste, eles marcaram “consideravelmente” mais alto na característica neuroticismo (uma tendência global a apresentar respostas de ansiedade exagerada, de ser neuro-vegetativamente hiperreativo, de mostrar uma maior fatigabilidade física e mental, de ser vulnerável à frustração e resistente a mudar os hábitos desadaptativos) , e “moderadamente” mais baixo na extroversão e afabilidade, em comparação com quando eles completaram o questionário em um estado de humor neutro. O humor triste realmente tem um efeito mais forte sobre os escores de personalidade do que a felicidade. Isso faria sentido do ponto de vista de sobrevivência, segundo os pesquisadores, porque a tristeza é geralmente visto como um estado a ser evitado, enquanto a felicidade é um estado de ser mantido. “A mudança é mais urgente do que a manutenção”, explicaram.

Estes resultados complementam pesquisas anteriores sugerindo que os traços de personalidade de uma pessoa estão associados às experiências mais frequentes de emoções particulares. No entanto, os novos dados destacam a forma como o relacionamento pode funcionar nos dois sentidos – com o estado emocional atual também influenciando a personalidade (ou a medida da personalidade, pelo menos). Estamos familiarizados com isso em nossas vidas diárias – até mesmo os nossos amigos mais animados podem parecer menos amigáveis e sociáveis quando estão para baixo. Com estranhos, porém, é fácil esquecer esses efeitos e assumir que o seu comportamento deriva da personalidade fixa ao invés de humor temporário.

Embora essa pesquisa desafie a noção de personalidade como constituída por traços eminentemente fixos, os resultados, poderiam realmente nos ajudar a aprofundar a análise sobre a trajetória oscilante de longo prazo nas vidas das pessoas. Quando analisamos a personalidade de um indivíduo poderemos ser até cruéis e inflexíveis em nossas conclusões se não levarmos em conta que o estado de tristeza pode levar a mudanças momentâneas de traços de personalidade, ou seja, de como a pessoa se relaciona consigo e com o universo ao redor.  O ser humano não é estático ou imutável como muitos pressupõem e esse tipo de julgamento pode levar a atos de intolerância na sociedade.