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Disfunções Sexuais Femininas e sua conexão

com a saúde  por Prof. Dr. Joel Rennó Jr.

 

 

 

Sigmund Freud

médico neurologista e Pai da Psicanálise, nasceu numa família judaica, em Freiberg no então Império Austríaco a 6 de maio de 1856, e morreu a 23 de setembro de 1939, em Londres. Graduou-se pela Universidade de Viena em 1881.

 

 

 

William Howell Masters e Virginia Eshelman Johnson, médico e psicóloga norte-americanos, nasceram, respectivamente, em 1915, em Cleveland (Ohio), e em 1925, em Springfield (Montana).

Passaram para a história como uma das mais importantes equipes de investigação científica e laboratorial em matéria de sexo.

Masters estudou medicina na Universidade de Rochester, tendo obtido a sua especialização em ginecologia e obstetrícia, enquanto Johnson cursou Psicologia na Universidade do Missouri.

 

  Dali, Minha Esposa Despida

 

do livro "Mentes Femininas"

 

Historicamente, os primeiros dados teóricos para o entendimento da sexualidade humana surgiram na Grécia, há cerca de 500 anos antes de Cristo, quando Platão, Aristóteles e Hipócrates manifestaram seus conceitos sobre o assunto. Posteriormente, nos anos mais recentes, os estudos de Sigmund Freud, Wiliam Masters e Virginia Johnson lançaram os alicerces para uma nova especialidade médica, a sexologia, reconhecida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina a partir de 1980.

 

Sigmund Freud foi o primeiro a buscar teorias para esclarecer os mecanismos psicológicos (conscientes, mas principalmente inconscientes) que norteiam os impulsos sexuais de homens e mulheres. Segundo ele, a libido (energia dos instintos sexuais) existe desde o nascimento, e o desenvolvimento psicossexual de cada indivíduo, até atingir a idade adulta, passa por diversas fases evolutivas (oral, anal, fálica e genital).

 

A manifestação da sexualidade feminina foi reprimida até a metade do século XX. A sociedade vigente da época designava à mulher um papel repleto de submissão e passividade, em uma sociedade patriarcal cheia de preconceitos e dogmas religiosos rígidos - a maternidade vivia oculta nos lares.

Com o aparecimento da pílula anticoncepcional, a mulher deixou de estar sob a ameaça de uma gravidez “fortuita" e pas­sou a ter o controle de sua fertilidade e desejo, o que lhe permi­tiu transpor sua condição de mero objeto do prazer masculino.

 

Cada ser humano traz dentro de si um universo de inte­rações entre corpo e mente, permeado pelos padrões culturais - e tabus - de sua época.

A sexualidade é capaz de influenciar a saúde física e men­tal e pode ser afetada por fatores orgânicos, emocionais e so­ciais. O transtorno de qualquer uma das fases da resposta sexual (desejo, excitação, orgasmo e resolução) pode acarretar o surgi­mento de disfunções sexuais.

 

Na mulher, a disfunção sexual também pode se manifes­tar por vaginismo e dispareunia, resultando em angústias pes­soais e dificultando tanto as relações interpessoais quanto a qualidade de vida.

 

Falta de conhecimento sobre a própria sexualidade, desin­formação sobre a fisiologia da resposta sexual, problemas de ordem pessoal e, sobretudo, conflitos conjugais são capazes de desencadear sérios problemas emocionais na mulher e, consequentemente, alterar sua resposta sexual.

 

Problemas orgânicos (doenças neurológicas, distúrbios hormonais, etc.), traumas psicológicos (educação repressiva, abuso sexual na infância, etc.), dificuldades afetivas com o par­ceiro (falta de diálogo, ressentimentos, conflitos financeiros, des­gaste pela rotina, etc.) e desconhecimento do potencial erótico do próprio corpo são os principais fatores envolvidos - isolada ou associadamente - nas disfunções sexuais femininas.

 

A terapia sexual é um valioso instrumento para auxiliar casais que têm dificuldade nessa área fundamental do relacionamento humano. O primeiro passo - e mais difícil - para o diagnóstico e tratamento das disfunções sexuais é admitir que o problema existe; o segundo é buscar ajuda profissional para resolvê-lo.

A prevalência de DSF (disfunção sexual feminina) aumenta com a idade, com o uso de certos medicamentos e com a ocorrência de doenças como diabetes, hipertensão arterial e dislipidemia, entre outras.

Os fatores psicológicos são mais comuns nas DSF, principalmente nas disfunções do desejo sexual e do orgasmo. A tendência atual é considerar que toda disfunção sexual tem comprometimentos mistos: orgânicos e psicológicos. O essencial, no entanto, continua sendo o reconhecimento do fator mais preponderante.

 

A depressão e o estresse (ansiedade crônica) são causas frequentes de DSF.

 

Os fatores relacionais (hostilidade, indiferença, dificuldade de assertividade, monotonia, infidelidade, competição, entre outros) devem ser considerados tanto no diagnóstico quanto no tratamento da DSF.

 

Em geral, toda DSF realiza alguma espécie de desejo, “um contrato secreto” entre os parceiros. Frustrar ou denegrir o parceiro por relações sexuais fracassadas pode se constituir um bem-sucedido plano de vingança, satisfazendo um impulso instintivo dirigido contra o parceiro atual. Não atingir a satisfação almejada, sentir-se incapaz, indesejável ou infeliz pode resultar em uma vitoriosa intervenção do juízo interno ou na realização :e determinado desejo sexual. Não há como negar que os impulsos (construtivos e destrutivos) se incorporam à estrutura total da pessoa.

 

Assim, as disfunções sexuais, embora acarretem frustrações, sempre representam e possibilitam algum tipo de satisfação, ainda que inconscientemente. É comum a pessoa que inveja o parceiro ou que esteja ressentida com ele, apesar de não perceber, se sentir realizada ao negar-lhe o prazer que ele deseja.

 

Vejamos os exemplos:

•        mulheres que necessitam se sentir protegidas pelo marido e se sentem a salvo à medida que o controle da situação é mantido;

•        a mulher receia destruir o marido por força de sua agressividade e experimenta a mágica sensação de poupá-lo ao não se inebriar com a plena realização dos seus desejos;

•        ao reprimir a raiva, por influência do amor, a mulher reprime também a livre expansão dos impulsos libidinais;

•        se a mulher não se sente no direito de usufruir de sua sexualidade, prevendo a efetivação das ameaças oriundas do superego, sente-se protegida, livre de castigos, no momento em que não concretiza o ato sexual.

 

Muitos casais também se acomodam e se conformam. Para eles, o problema aparente inexiste, pois a disfunção vem ao encontro de um desejo inconscientemente firmado, correspondente à necessidade de ambos os parceiros. Os impulsos sexuais apresentam-se com pouca frequência e intensidade devido ao excessivo mecanismo da repressão. O casal selecionou-se a partir dessa afinidade essencial, sem a qual sua união não seria viável; assim, ela se mantém, apesar do mau funcionamento sexual, bem como graças a ele e à relativa ausência do desejo.

Não havendo desejo, não há nem perigo nem frustrações. A atração, paradoxalmente, se origina da falta de atração e da ausência de riscos, e isso conduz a um elo forte tranquilo. Em resumo, o casal obtém prazer a dois em outras áreas mais livres de conflito. A satisfação sexual é obtida de maneira indireta em atividade de cunho simbólico.

A parceria assexuada, vista por determinados ângulos assim o é apenas na aparência, e o mesmo ocorre com o conformismo adotado pelo casal. Em alguns lugares ou em determinadas maneiras, seus impulsos ou suas fantasias se manifestam e, em geral, os asseguram.

A acomodação dos parceiros a uma vida sexual limitada e funcional, embora a serviço de objetivos paralelos, conscientes e inconscientes, pode dar a impressão de harmonia enquanto encobre ressentimentos profundos. A acomodação visa não desencadear a guerra e tornar ao menos suportável a vida a dois.

 

Apesar de as disfunções sexuais femininas já estarem bem mais conhecidas, muitas vezes deixam de ser diagnosticadas. Podemos atribuir a falta do diagnóstico a fatores diversos, como inibição da paciente (que não apresenta a queixa) ou do médico, que se constrange em investigar).

O diagnóstico desses quadros possui uma relevância muito grande, pois estes interferem na qualidade de vida e estão associados, em geral, a questões da saúde física e mental.

 

Realizar uma anamnese adequada sobre a vida sexual da mulher pode ajudar e contribuir na identificação da causa de muitos conflitos psíquicos e relacionais e/ou de quadros psiquiátricos.

 

Ao comparar o tratamento terapêutico das disfunções sexuais masculinas ao das femininas, podemos verificar que estas contam com um número bem menor de critérios terapêuticos estabelecidos.

 

Avanços tecnológicos estimulam o sexo, mas não substituem o relacionamento humano. A ciência parece ser uma grande aliada do sexo. Depois de oferecer constantes indicativos de que a prática frequente, com segurança e prazer, traz inúmeros benefícios à saúde, a ciência vem desenvolvendo nos últimos anos uma série de medicamentos, para eles e para elas, que prolongam o período de atividade sexual.

 

Desde Freud, aliás, a ciência tenta explicar as ligações entre o bem-estar físico e mental e, portanto, o fato de que as carências sexuais podem produzir doenças físicas e mentais.

 

Algumas mulheres também sofrem de problemas sexuais decorrentes da depressão, cujo tratamento com certos antidepressivos aumenta a concentração no cérebro de duas substâncias, a dopamina e a noradrenalina, ligadas ao desejo e à excitação sexual.

 

Há quem não sofra de disfunções, mas o estímulo sexual pode se perder, na maioria dos casos, pela rotina, pela monotonia. Percebe-se que muitos relacionamentos melhoram quando a parceira investe nas fantasias do casal e surpreende o companheiro. Muitas vezes os casais entram numa rotina tão grande que até os beijos diminuem e as carícias passam a ser mínimas.

 

O problema não se resolve apenas com tecnologia e “equipamentos”. E necessário ter em mente que de nada adiantam pílulas, comprimidos, aparatos eróticos, locais perfeitos e toda a tecnologia do mundo se não houver cumplicidade entre o casal. Não há nada que resolva problemas de relacionamento. Amor, carinho, respeito e intimidade entre os parceiros continuam sendo os maiores estímulos para uma vida sexual saudável e prazerosa.

A satisfação sexual de mulheres adultas, embora seja considerada de importância no discurso das próprias mulheres e de suas parceiras sexuais e afetivas, pouco aparece no discurso científico e técnico da psicologia, mais especificamente nos estudos da sexualidade no Brasil.

 

Tanto no homem quanto na mulher o desejo é instigado por estímulos no cérebro, que podem ser acionados por dife­rentes gatilhos, desde os mais sutis, como pensamentos e carí­cias, até os mais explícitos, como um filme pornô. Esses estímulos agem em uma região do cérebro chamada diencéfalo, que, ao mesmo tempo em que inicia o processo de interesse e excitação por intermédio do hipotálamo, convoca o sistema límbico para inibir os impulsos sexuais quando não forem con­venientes.

Esses mecanismos são, no entanto, apenas a parcela ani­mal e instintiva da sexualidade humana. Quando os estímulos gerados no circuito neurológico arcaico passam ao córtex cere­bral, são influenciados por emoções, fantasias, desejos, ritos, medos, censuras, tabus, costumes e condutas aprendidas e im­postas ao longo da vida. Os sinais voluptuosos gerados no cé­rebro viajam então pela medula espinhal para orquestrar uma verdadeira sinfonia erótica. Os hormônios sexuais e um con­junto de neurotransmissores libidinosos acompanham os estí­mulos elétricos que estão na origem da atração erótica.

 

Na minha experiência clínica, quando a mulher procura ajuda apenas de forma unilateral os resultados não são suficientes ou satisfatórios. O aumento ou não desta procura por ajuda é multifatorial, sendo uma decisão que envolve, necessariamente, não só a mulher.