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Transtorno bipolar feminino: aspectos específicos do gênero

 

Por Prof.Dr.Joel Rennó

 
 

Di Cavalcanti, Ivette

 

Os dados sobre as características próprias no curso e na apresentação clínica do TBH nas mulheres ainda não são conclusivos. A frequência do transtorno bipolar tipo I é similar entre os gêneros. As mulheres bipolares apresentariam um início três a cinco anos mais tardio que os homens (Viguera e cols., 2001), porém isso pode ser decorrente de um diagnóstico que levaria mais tempo para ser realizado nas mulheres. Alguns estudos apontam um dado interessante: quando o início da doença ocorre na quinta década de vida (o que não é comum), há nítido predomínio de mulheres.

 

As mulheres podem passar um terço da vida em depressão, com maiores riscos de suicídio e prejuízo funcional. Judd e cols. (2002) referem que a depressão seria mais longa e mais difícil de ser tratada no sexo feminino. Todavia, não parece haver desequilíbrio entre o número de fases de depressão e mania entre os gêneros. Tanto homens quanto mulheres ficam mais tempo em depressão.

E interessante observarmos um dado de um estudo canadense conduzido por Schaffer em 2005: as mulheres procuram mais atendimento médico que os homens (52,2% versus 38,5%). Além disso, o estudo detectou que 66% dos bipolares não haviam recebido nenhuma medicação no último ano, sendo 72% dos homens e 59% das mulheres.

 

Mulheres parecem ser mais cicladoras rápidas (possuem mais que quatro fases de mania por ano) que os homens. A ciclagem rápida ocorre em 15% a 20% de todos os pacientes com TBH. Destes, 71% são mulheres (Leibenluft, 1997), e isso pode estar acontecendo porque elas utilizam mais antidepressivos - porém, este ainda é um assunto controverso. Associa-se ciclagem rápida a estados mistos (pacientes que apresentam, simultaneamente, critérios para mania e depressão, com alto risco de suicídio) e também à bipolaridade do tipo II.

 

Problemas clínicos como os de tireoide, enxaquecas e obesidade são mais comuns em mulheres, assim como abuso de drogas e álcool e transtornos ansiosos e alimentares. Portanto, uma mulher com TBH sempre deve ser avaliada no que diz respeito às doenças clínicas e até mesmo em relação a outros transtornos mentais associados.

 

O papel da terapia hormonal para atenuar os sintomas de mulheres bipolares ainda é um assunto polêmico e inconcluso, apesar da observação da piora dos sintomas depressivos tanto no pré-menstrual quanto na Peri menopausa.

 

Durante a gravidez, alguns estudos, como os de Freeman e cols. (2002), relataram uma piora do transtorno bipolar em cerca de 50% das mulheres. Muitas vezes, o diagnóstico de depressão na gravidez é difícil, porque diversos sintomas podem ser iguais aos da própria gestação (sono, apetite, cansaço e libido). Os sintomas que mais sugeririam depressão seriam perda do prazer ou interesse por atividades habituais, sentimentos de culpa, desesperança e pensamentos suicidas (Cohen e cols.; 2004).

 

No período pós-parto, cerca de V4 das mulheres apresentam o primeiro episódio de mania, com taxas de recorrência variando entre 33% e 67%, nesta fase (Amold, 2003). Quando ocorre o primeiro episódio depressivo coincidente com este período, o médico não pode excluir a possibilidade de que seja o início de TBH. Outro quadro psiquiátrico bem grave e característico do TBH é a psicose puerperal (insônia, agitação, tristeza, irritabilidade, mudanças rápidas de humor, perplexidade, confusões mentais, delírios e alucinações). Embora a psicose puerperal seja rara na população geral (dois casos em cada mil partos) chega a atingir cerca de 20% a 30% de mulheres com TBH.

 

Terapia e família: bons resultados

A terapia com foco na família foi a que apresentou melhor resultado, confirmando o que sempre falo aos meus pacientes: a importância suprema, em qualquer transtorno mental, da participação efetiva, solidária e afetiva de todos os familiares no processo de recuperação e reabilitação psicossocial dos pacientes. Cabe ao médico orientar sobre as maneiras corretas de realizar tal participação. Finalizando, a medicina ainda busca melhor conhecimento da pato fisiologia completa do “HBH”. Ou seja, quais são os mecanismos estruturais e funcionais (genéticos, biomoleculares, celulares, químicos) envolvidos no surgimento da doença. Com isso, sim, haverá novos avanços no tratamento do TBH, muito mais específicos e eficazes que os atuais. É nítido o benefício, no tratamento de longo prazo, da combinação medicamento e psicoterapia.

Jamais podemos nos esquecer, portanto, de que pacientes bi- polares subtratados são vulneráveis a vários riscos, daí a necessidade de avanços científicos rápidos. Os bipolares apresentam mortalidade maior, risco de suicídio significativo, maiores taxas de neoplasia, doenças cardiovasculares (infartos) e cérebro vasculares (“derrames”). As associações com alcoolismo e ansiedade também são importantes e deletérias ao curso da doença. A prevenção de recorrência dos episódios depressivos envolve a descoberta de novos medicamentos, além da importância da detecção precoce dos fatores de risco envolvidos (estresse crônico, não adesão ao tratamento por efeitos colaterais), bem como o incentivo aos excelentes trabalhos psicoeducativos e de psicoterapia.