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Problemas do Emagrecer

 

 

Por Prof. Dr. Joel Rennó Jr.

 

 

Caso clínico

 

“Quando tinha 14 anos, cismei que estava gorda. Então, uma tia conseguiu para mim a receita de uma fórmula para emagrecer. Fiquei impressionada com o resultado. Nas duas primeiras semanas, emagreci sete quilos, sem esforço. Mas, quando parei de tomar o remédio, engordei tudo de novo e entrei num círculo vicioso. Sabia que aquelas pílulas só me faziam ficar agitada, sem sono e irritada, mas não conseguia largá-las. Há seis meses, queria emagrecer rápido para uma festa e tomei mais um vidrinho. Não adiantou muita coisa e resolvi que seria a última vez. Sei que continuo acima do peso, mas não quero mais estragar minha saúde. Estou me alimentando melhor, malho todos os dias e decidi que o uso de anfetaminas vai ser o tema da minha monografia.”

 

As Mulheres e as Drogas

 

Os fatos apresentados resumidamente alertam para um sério problema na saúde pública que deve ser enfrentado pelos profissionais e pelos serviços de saúde: o consumo de drogas por mulheres, muito difundidas em ambientes de trabalho, internet e academias. Exige-se dos profissionais envolvidos amplo processo de formação técnica, orientação e ética, além da colaboração na destituição de modelos socialmente impostos e transitórios de beleza corporal. Sem uma abordagem completa e harmônica dos diversos níveis de segmentos sociais, tudo fica impossibilitado de êxito pleno.

Picasso, A Musa

As diferenças sociais nas relações de gênero, com modelos de consumo de drogas tipicamente femininos, ainda são incipientes na construção de políticas específicas de saúde mental da mulher. Perante tais fatos apresentados, recomenda-se a realização de estudos na perspectiva de investigar outros aspectos relacionados à visibilidade do consumo de drogas por mulheres (Oliveira e cols., 2007).

A complexidade e diversidade dos problemas gerados pelo fenômeno das drogas, entendido como produção, comércio e consumo, têm gerado impactos distintos para as sociedades. Em relação à saúde, os vários problemas decorrentes do consumo (uso e abuso) de drogas têm demandado maior envolvimento e atenção dos profissionais, com vistas a implantar e implementar políticas públicas e ações visando resolvê-los e/ou minimizá-los.

Mundialmente, o consumo de substâncias psicoativas - SPA - ainda é maior entre os homens, de acordo com dados apresentados no Relatório Mundial sobre Drogas, de 2005. Entretanto, a diminuição da proporção entre homens e mulheres para as drogas de modo geral e a predominância do uso de medicamentos, mais especificamente benzodiazepínicos, estimulantes e anorexígenos, por mulheres vêm sendo registradas em muitos países. A tendência à “igualdade de gênero” no consumo de drogas é justificada por mudanças ocorridas no estilo de vida das mulheres, sobretudo no último século.

 

No Brasil, dados do I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas, realizado em 2001, confirmam esse panorama. O referido levantamento foi construído com amostra de 41,3% da população total do país, sendo 57% de pessoas do sexo feminino. O álcool e o tabaco foram apontados como os problemas de saúde pública mais proeminentes no país, com maior percentual de uso entre pessoas do sexo masculino. O uso de maconha (6,9%) e solvente (5,8%) foi predominante também entre os homens. O uso de benzodiazepínicos e anfetamínicos mostrou-se, porém, três vezes maior entre as mulheres.

 

Embora informações sobre mulheres usuárias de drogas, entre elas as anfetaminas, sejam escassas, estudos nacionais e internacionais recém-publicados destacam o enfrentamento de barreiras de ordem estrutural, sistêmica, social, cultural e pessoal pelas mulheres na busca e permanência de tratamento no consumo de drogas psicoativas. Preconceito e discriminação, sobretudo por parte de profissionais da saúde, são apontados como as principais barreiras. A pouca visibilidade de usuárias de drogas em serviços especializados constitui preocupação recente na agenda de formadores políticos e de órgãos financiadores.

 

Consequências do Uso de Drogas Para Emagrecer

 

Geralmente, depois da interrupção do tratamento com esse tipo de composição mirabolante de fórmulas para emagrecimento, que muitas vezes são prescritas como sendo naturais, é preciso cuidado redobrado. Quem consumiu remédios para emagrecer costuma engordar mais do que antes e apresenta mais dificuldade para perder peso, já que, depois de uso continuado da anfetamina, o metabolismo fica lento e a capacidade de queimar gordura diminui. Inibidores de apetite em conjunto com medidas de reeducação alimentar e atividades físicas podem ter papel importante no tratamento da obesidade, mas seu uso não pode ser vulgarizado de maneira nenhuma. Quem quer emagrecer precisa de acompanha- mento médico sério, com enfoque multiprofissional. Acreditar apenas em formulações contendo as populares "bolinhas” é ineficaz e muito arriscado. A melhor solução para um emagrecimento saudável e definitivo permanece, então, bem distante das promessas das fórmulas e dietas da moda. A adoção de alimentação balanceada e a prática de exercícios físicos regulares continuam a ser a escolha mais adequada. Além da mudança de hábitos e, claro, muita persistência.

 

Não há fórmulas mágicas como alguns marqueteiros apregoam. A farmacologia da obesidade ainda é muito limitada, com poucas opções. Nos próximos anos, provavelmente tal realidade mudará com a nova era da farmacogenômica e o melhor entendimento das vias metabólicas complexas que regulam, por exemplo, a queima de gorduras, o apetite e a saciedade.

O consumo de substâncias psicoativas não é recente. O conhecimento deste hábito tem origem em séculos anteriores, em que sociedades primitivas fizeram delas uso e modo ritualísticos. As décadas de 1960 e 1970, no entanto, experimentaram uma verdadeira explosão do consumo de substâncias psicoativas pelos jovens.

O fato de as primeiras experiências com anfetaminas ocorrerem com maior frequência na adolescência evidencia a importância de estudar este grupo, pois os jovens estão cada vez mais obcecados com a forma física em detrimento da saúde física e mental.

Compreende-se que os medicamentos para emagrecimento - especificamente os que contêm anfetamina - são cada vez mais consumidos por jovens e adultos, e que se tomam fator prejudicial à saúde a partir do momento em que são usados de modo corriqueiro, sem acompanhamento médico.

As anfetaminas são substâncias químicas que causam dependência, com efeitos colaterais graves e sistêmicos, mas que mesmo assim ainda são utilizadas, na maioria das vezes, sem orientação médica, por uma grande quantidade de pessoas que querem perder peso.

Essas pessoas optam pelo mais cômodo e fácil - a utilização pura e simples do medicamento -, esquecendo-se de que o peso corporal é proporcional à ingestão calórica, e de que, para sua perda, se faz necessária uma tríade fundamental: dieta balanceada, atividade física e uso de medicação sob prescrição e acompanhamento médico.

 

Você é Mais que Seu Corpo

 

Nos dias atuais, até mesmo pessoas consideradas esbeltas ou magras preocupam-se em demasia com a forma física, mesmo que isso custe a própria saúde e a qualidade de vida.

Segundo o antropólogo francês David Le Breton, conhecido como o maior especialista do mundo em corporeidade, a análise do corpo no contexto social proclama que este não pode ser visto como unidade do homem, sob pena de insegurança absoluta escondida numa boa ou má aparência.

 

“Corpo e ser são indissociáveis, tanto que não dizemos ‘ali vai aquele corpo’, mas 'ali vai aquela mulher ou aquela pessoa', afirma o mestre de Estrasburgo e membro do Institut Universitaire de France. E implora para que as pessoas cuidem de sua sanidade mental, cultivem a inteligência e o interesse, envolvam-se com as questões mais profundas dos apelos da alma e busquem um sentido espiritual de sua existência, jamais fazendo do corpo o único e absoluto valor, o objeto de consumo, assinado como se fosse um design em nome da aprovação determinada hoje pela mídia - o que não diminui a importância corpórea como um todo, pelo contrário. O corpo não é apenas um suporte; é a raiz identificadora, nossa comunicação com o mundo. Faz parte da individuação plena. A vaidade não só é necessária como também é um importante recurso de autoestima, desde que não ultrapasse o limite saudável do psiquismo: o de estar além de nossos anseios internos, das pequenas vitórias da ética e da dignidade, o que nos garante o auto respeito e a verdadeira autoconfiança (Luiz Alca de Sant'anna).

 

A sagrada interioridade não pode ser escravizada pelo marketing massacrante. Como dizia Saint-Exupéry, “o essencial é invisível aos olhos; só se vê com o coração”.