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Os quadros mentais passam hoje por uma apaixonada e onerosa investigação genética, neuroquímica e “imagenológica”, em busca do tempo a ser recuperado em seus preceitos etiológicos ou terapêuticos.

 

As Questões da Mente e Todo o seu Valor Mítico

por Prof.Dr. Joel Rennó Jr.

 

A doença mental, com todo o seu valor mítico, em qualquer agrupamento social, sempre foi fonte inesgotável na gênese da arte escrita, contada e televisiva.

 

A própria medicina, em suas origens tribais, ou nos experimentos alquímicos, reservava aos quadros psíquicos um lugar distinto das meras doenças.

 

Adoecer mentalmente era, antes de tudo, o adoecer da alma, ou até fruto das manifestações de divindades poderosas. Mesmo a partir da categorização das doenças e das tentativas de sua compreensão fisiopatológica, os quadros mentais ainda eram vistos como consequência de migrações de órgãos internos ou “da ação deletéria dos fluxos menstruais”, que faziam, por exemplo, com que as mulheres enxergassem o mundo de cabeça para baixo.

 

Este fascínio pelo mundo psíquico e suas manifestações nos custou, de certa forma, um longo atraso no reconhecimento do sofrimento mental como algo de domínio médico, e, como tal, possível de seu investimento e interesse.

Edvard Munch, Electro

Se pudéssemos admitir a resistência em enxergar o sofrimento psíquico, algo compatível ao preconceito, talvez tivéssemos maior noção da grande dificuldade em reconhecê-lo quando manifestado em idade tenra.

 

Assim, os transtornos psíquicos infantis foram durante muito tempo algo inexistente, como quadro mórbido, restando- lhes o status de produto meramente social ou familiar, elaborado como tal num planejamento apenas psicoterapêutico.

 

A medicina mudou, e os médicos também, numa menor proporção. Os quadros mentais passam hoje por uma apaixonada e onerosa investigação genética, neuroquímica e “imagenológica”, em busca do tempo a ser recuperado em seus preceitos etiológicos ou terapêuticos.

 

Apesar disso, o homem ainda cultua uma visão diferenciada do transtorno mental, alternando sentimentos de admiração, medo ou de total desconhecimento.

 

Essa atitude, muitas vezes, empresta à literatura ou a teledramartugia um perfil adequado e esclarecedor, mas, em muitos momentos, apresenta uma caricatura repleta de preconceitos e estigmas, razão para que muitas pessoas não assumam suas dores psíquicas e deixem de procurar ajuda científica que melhore sua qualidade de vida.

 

O cinema, a partir da década de 1970, foi o maior divulgador dos “males" da psiquiatria como especialidade médica. O psiquiatra foi comparado ao carcereiro, tendo a enfermeira como torturadora no paradigmático Um estranho no ninho. Personagens de inúmeros filmes “ficam" doentes mentais por culpa da família, do chefe ou do governo. Com muita frequência, assassinos são médicos (Hannibal Lecter), e doentes são os criminosos exatamente por serem doentes.

 

O livro As horas, também retratado no cinema, pode ser considerado uma obra feminina, ou até feminista, relevando o conceito de que a cultura é fundamental para a expressão da doença mental, e assim refutando que a doença mental - no caso, a depressão - seja entendida como fraqueza, fracasso de vida, em vez de patologia. As três personagens principais apresentam depressão, e uma delas é Virginia Woolf, paralisada como escritora em toda a ação do filme durante suas crises depressivas e cuidada intensamente pela família devido ao risco de suicídio. Já para a personagem vivida por Julianne Moore, americana típica dos anos 1950, o cenário é neutro, sem conflitos, afastando qualquer hipótese de motivo externo para a depressão retratada - ela sofre calada, já que na América pós-guerra não havia espaço para a tristeza. A personagem vivida por Meryl Streep é uma mulher nova-iorquina, com companheira compreensiva, filha adorável e um antigo amor - seu melhor amigo - que está à beira da morte. Por sua contemporaneidade, ela pode gritar e dar sentido ao seu sofrimento, chorando e reclamando.

 

 O “louco”, como popularmente é chamado quem sofre de qualquer tipo de transtorno mental, nem sempre é aquele que fala com as paredes, bate, grita, etc. As clínicas ou hospitais psiquiátricos, fundamentais para situações emergenciais que envolvam riscos de suicídio, agressividade, agitação psicomotora, surtos psicóticos severos, abstinência de álcool e drogas, não são, necessariamente, aqueles locais onde as pessoas vestem camisolões brancos e ficam zanzando pelo pátio e corredores, sem trabalhos terapêuticos bem fundamentados, éticos e humanos. Eventuais abusos ou erros cometidos no passado por esses modelos de internação não podem excluir totalmente as clínicas e hospitais especializados das inúmeras possibilidades de tratamento e reabilitação, apesar de todos preferirmos que o tratamento ambulatorial seja o prioritário na atualidade, porém sem distorções ou generalizações de um radicalismo anticientífico inútil. Pacientes e familiares que já sofreram muito com doença mental grave sabem do que estou falando.

 

É importante admitirmos que o sofrimento psíquico existe para todos em algum momento da vida, e não depende de raça, classe socioeconômica, nível de formação, origem ou fase do desenvolvimento - apesar de algumas diferenças poderem representar maior ou menor vulnerabilidade. Todos estão sujeitos a passar por uma situação de pânico, depressão, a ter um filho, amigo ou parente com algum tipo de transtorno mental.

 

Acredito que o primeiro passo para tratar o problema seja desmistificá-lo, e isso só é possível quando se procura ajuda e informação correta, com embasamento científico. Há grande quantidade de informações, porém poucas têm qualidade e embasamento. Nessa área da medicina, infelizmente há muitos pseudoprofetas e charlatões que se nutrem do sofrimento, da desesperança e do desespero de pacientes e familiares. Algumas religiões ou seitas até tratam o doente mental como se ele fosse a própria encarnação do “demônio” ou alguém “que não tem fé, que não acredita em Deus”, submetendo-o a humilhantes sessões de “descarrego”. Isso é ignorar a medicina, que sempre deve estar aliada à parte espiritual, seja ela qual for.