voltar para a página do doutor
 

Hormônios e Mente Feminina

por Prof.Dr .Joel Rennó Jr.

Edward Hope, Solidão

 

Perto da Menopausa

Mulheres que também se aproximam da menopausa costumam se queixar de sintomas depressivos, mais especificamente no período conhecido como perimenopausa (que se inicia com os primeiros sintomas ou indicações de que se aproxima a menopausa, decorrentes de alterações da função ovariana, que dura até doze meses após a última menstruação – perto dos 50 anos de idade).

A perimenopausa é associada ao surgimento de irregularidades menstruais e queixas vasomotoras, os conhecidos "fogachos", além de sintomas psíquicos como depressão, ansiedade e irritabilidade.

Já menopausa é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a parada permanente da menstruação, em consequência da perda definitiva da atividade folicular ovariana, ocorrendo, na maioria dos países industrializados, em torno dos 50 anos.

Como a expectativa de vida tem aumentado progressivamente, temos muitas mulheres pós-menopausadas convivendo conosco e que esperam, é claro, ter qualidade de vida.

 

Muitas mulheres que atendo lêem em jornais e revistas o poder desastroso da falta de estrogênio (ou estrógeno) no organismo feminino. Algumas, em torno dos 50 anos, imaginam sofrer de depressão por diminuição ou falta desse hormônio feminino; outras, mais jovens, atribuem à queda de hormônio estrogênio os sintomas de TPM e até os riscos de depressão pós-parto.

 

 

 

O Estrogênio e sua ação no Cérebro

 

De forma simples, estrógeno é um hormônio sexual feminino produzido primariamente nos ovários, embora pequenas quantidades dele sejam produzidas no córtex adrenal.

Há três tipos de estrógeno: estradiol, estriol e estrona. Aqui, refiro-me às três formas de estrógeno coletivamente, chamando-as apenas de estrógeno.

O estrógeno é produzido tanto por homens quanto por mulheres, porém a quantidade produzida pelas mulheres é muito maior.

 

Os estrógenos promovem o desenvolvimento das características sexuais secundárias, como o desenvolvimento das mamas. Também estão envolvidos no controle do ciclo menstruai, mas seus efeitos começam antes do nascimento.

 

Muito antes de uma mãe perceber que dará à luz um bebê, o estrógeno já tem impacto no desenvolvimento cerebral. Tais efeitos são conhecidos como operações organizacionais porque organizam a arquitetura do cérebro de forma que criem diferenças cerebrais e comportamentais (Halbreich & Kahn, 2001). Portanto, estruturas cerebrais e funcionamento de circuitos neuronais sofrem influências e ações de hormônios, como o estrógeno, já no intraútero, que diferenciam corpos, cérebros, neurodesenvolvimento, comportamento e humor femininos dos masculinos.

 

Há moléculas em várias regiões do cérebro denominadas receptores cerebrais, responsáveis pelo comportamento e humor.

 

Uma das áreas de alta densidade de receptores de estrógeno é o sistema límbico feminino, responsável pelo processamento das emoções. O sistema límbico é formado por estruturas como hipotálamo, lobo pré-frontal, amígdala e hipocampo, as quais coordenam o sono e a energia (hipotálamo), a atenção e o comportamento dirigido (lobo pré-frontal), o humor e a motivação (amígdala) e a resiliência ao estresse crônico (hipocampo) - todos envolvidos na expressão da depressão.

Ao contrário dos homens, as mulheres possuem alta densidade de receptores estrogênicos em diversas estruturas cerebrais.

Portanto, elas podem ser biologicamente mais vulneráveis a quadros depressivos diante de flutuações significativas do estrógeno como os períodos pré-menstrual, pós-parto e perimenopausa.

O estrógeno exerce ainda um segundo tipo de efeito no cérebro feminino, após o nascimento, que prossegue ao lomgo do ciclo de vida da mulher - as operações ativacionais. Isto é,o estrógeno continua a influenciar a organização do cérebro feminino ao longo dos primeiros anos do seu desenvolvimento. Para simplificar, podemos dizer que tais operações começam na puberdade e prosseguem até a fase adulta. Em geral, essas operações são temporárias e reversíveis, permitindo algum controle das mudanças nas estruturas cerebrais e neurobioquímicas envolvidas no humor, na cognição e no comportamento.

É importante deixar claro que, quando a molécula de estrógeno se liga ao seu receptor, este sofre uma alteração em sua estrutura que pode levar a mudanças da expressão de genes responsáveis pelo humor e comportamento (Wooley, 1999). O mesmo se aplica à proteção que o estrógeno faz no combate aos radicais livres que podem levar à morte neuronal.

Aspectos genéticos, nutrição precária, doença recente ou estressores vitais podem causar aumento dos radicais livres. Portanto, nunca podemos nos esquecer de quão o cérebro feminino é modificável de forma dinâmica, com mudanças estruturais e funcionais diante das oscilações de estrógeno.

 

Memória e Cognição

Há diversos tipos de pesquisas básicas de laboratório que demonstram um efeito positivo do estrogênio no sistema nervoso central (SNC). Além de melhora do humor, outro foco de muito interesse é a cognição.

Uma das queixas mais comuns nas mulheres com mais de 50 anos avaliadas por mim é a perda de memória principalmente daquela de curto prazo - para eventos recentes. O pior é que a depressão tem como sintoma a dificuldade de atenção e concentração, levando também a prejuízos de memória.

Estudos de estruturas cerebrais envolvidas na memória, como o hipocampo, demonstram que o estrógeno facilita o processo de memória, promovendo a melhora da atividade ou o funcionamento neural. O estrógeno, segundo tais pesquisas, aumenta a comunicação entre os neurônios - denominada potencialização de longo prazo e transmissão neuronal. O estrógeno também melhora a eficiência global do cérebro, aumentando o fluxo sanguíneo cerebral e o metabolismo, assim como o funcionamento de neurônios colinérgicos (que produzem o neurotransmissor acetilcolina) ligados aos processos cognitivos.

Todas essas funções citadas são fundamentais para os processos de memorização e estão alteradas em pacientes com síndromes demenciais, sugerindo que o estrógeno poderia ser um protetor do cérebro.

O estrógeno pode ainda ter impacto na saúde global das pessoas, uma vez que modula os processos inflamatório, genético e metabólico da formação da proteína precursora de amilóide, que influenciam o funcionamento cognitivo.

Embora esses trabalhos, em um primeiro momento, sejam altamente empolgantes, quando ensaios clínicos bem conduzidos são realizados, ainda não há confirmação de todas essas “virtudes" do estrógeno.

 

Humor

Assim como na cognição, uma ampla variedade de mecanismos também pode explicar os efeitos do estrógeno no sistema nervoso central em outras funções (Schneider e cols., 1997).

O estrógeno diminui receptores específicos, aumenta hormônios e neurotransmissores igualmente específicos (serotonina e noradrenalina, entre outros), estimula a expressão e a liberação de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) - que influencia o crescimento, a conexão e o reparo dos neurônios envolvidos na serotonina, além de inibir a enzima monoaminooxidase (MAO) -, todos envolvidos tanto no humor quanto na cognição.

Especificamente na pós-menopausa, em idade mais avançada, a depressão pode ser caracterizada por níveis elevados da enzima monoaminooxidase B (MAO-B).

Altos níveis de MAO-B podem resultar em comunicação menos efetiva entre as células cerebrais, assim como em morte celular devido a neurotoxinas.

Com relação aos neurotransmissores, como a serotonina e dopamina, o glutamato, o GABA e a noradrenalina, estes fazem a comunicação entre os neurônios, comunicação esta que o humor e o comportamento.

O humor pode oscilar quando há flutuações dos níveis desses neurotransmissores, que variam individualmente. O humor também depende da formação, degradação ou liberação de neurotransmissores no espaço entre os neurônios, conhecido como fenda sináptica. O estrógeno atua como antidepressivo, porque controla todos esses processos (Payne, 2003).

 

No contexto da depressão, a serotonina é provavelmente o neurotransmissor mais estudado. Sua falta pode ser decorrente de vários fatores:

       - produção e liberação precária de serotonina;

       - hiperatividade de receptores que removem a serotonina da sináptica;

       - aceleração de reações químicas que levam à quebra da molécula de serotonina.

Uma das razões pela qual o estrógeno tem efeito antidepressivo é porque ele, naturalmente, afeta o funcionamento de serotonina. Muitos dos neurônios do cérebro que liberam serotonina contêm receptores estrogênicos, o que significa que deixam o estrógeno determinar a disponibilidade, a concentração e o serotonina.

 

O impacto particular da associação de antidepressivos com terapia estrogênica também gera dúvidas em muitas pacientes que estão próximas do período da menopausa - que apresentam oscilações dos níveis hormonais. Observamos na prática clínica com embasamento científico, a melhora significativa dos sintomas depressivos e da qualidade de vida de muitas mulheres que tomam antidepressivos serotoninérgicos (fluoxetina, sertralina) associados à terapia estrogênica, abrindo a possibilidade de tratamento efetivo da depressão nessas pacientes.

 

Portanto, o estrógeno pode ser a medicação chave que nos auxilia no acesso e na modificação da serotonina de que as mulheres necessitam para elevar o humor (Amin, Canli & Epperson, 2005).

Devemos enfatizar ser mais provável que haja um subgrupo de mulheres geneticamente predispostas às oscilações hormonais fisiológicas que todas elas apresentam em períodos determinados do ciclo reprodutivo. Tais oscilações hormonais funcionam como “gatilhos" para episódios depressivos nessas mulheres suscetíveis.

 

O efeito do estrogênio no humor parece ser decorrente da interação entre diversos sistemas. No caso da paciente Márcia citada, embora ela tenha predisposição familiar à depressão, com antecedentes claros, ela também pode sofrer desse mal durante a perimenopausa por causa das oscilações fisiológicas dos níveis hormonais - que, no seu caso, podem funcionar como gatilhos para a depressão.

 

Outros períodos críticos de oscilações hormonais também podem apresentar maior vulnerabilidade, como o pré menstrual e o pós-parto.

 

O fato de as mulheres poderem ser sensíveis a essas oscilações hormonais não implica jamais adotar uma postura reducionista, ignorando ou menosprezando "gatilhos” psicossociais importantes em episódios depressivos específicos do ciclo reprodutivo feminino.

 

Fatores de risco relevantes da depressão feminina são, entre outros, baixo suporte social e familiar, isolamento, viuvez, antecedentes de negligência, abuso físico ou sexual - inclusive na infância -, conflitos conjugais e matemos, estresse vital (por exemplo, múltiplas funções como profissional e dona de casa, baixos salários em comparação aos homens), além de traços de personalidade como insegurança, baixa autoestima, medo, perfeccionismo, etc.

Por isso, sempre recomendo às minhas pacientes que façam psicoterapia associada, para auxiliá-las na resolução dos conflitos intrapsíquicos relacionados ao ciclo reprodutivo, com resignificação de suas experiências de vida.