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A Gestação tem um Lado Sombrio.

por Prof.Dr. Joel Rennó Jr.

 

A gravidez é um terreno fértil para o desenvolvimento de transtornos de humor e ansiedade.

Salvador Dali

 

A primeira ideia que se tem da gestação é de um período feliz e carregado de expectativas positivas. Mas essa impressão se deve também ao culto à maternidade que teve início no século XIX quando o lugar da mãe e da criança na sociedade cresceram muito e a mulher, além de procriadora passou também à educadora, o que fez crescer as cobranças e então, especialmente no século XX, sob a influência da psicanálise, a tendência de responsabilizar a mãe pelos problemas e dificuldades dos filhos acabou gerando muita culpa nas mulheres.

 

A gravidez é um período de transição na vida da mulher que pode trazer reestruturações, modificações e reintegrações de personalidade. Mas também pode gerar uma perturbação temporária no estado de equilíbrio, mesmo em mulheres que nunca tiveram episódios de transtornos mentais ou sequer possuem a tendência familiar para tal.

 

Estar grávida significa viver uma série de mudanças complexas, psicológicas e bioquímicas e até sociais. Com a presença da mulher no mercado de trabalho, muitas vezes ocupando cargos de responsabilidade, é possível que surjam angústias e preocupações que vão interferir na capacidade dessas mulheres encontrarem gratificação em sua gravidez.

A gravidez como transição apresenta ainda a possibilidade de atingir novos níveis de amadurecimento e de expansão da personalidade gerando novas posturas, saudáveis ou patológicas. Uma postura saudável seria a de perceber e satisfazer as necessidades do bebê, vendo a criança como indivíduo e não confundido o bebê, simbolicamente, com a mãe. Já uma postura doentia caracteriza-se também pela expectativa de que o bebê preencha certas necessidades do pai ou da mãe, por exemplo: evitar a solidão ou fazer com que o pai ou a mãe sintam-se úteis.

 

Se, por um lado, a gravidez pode fazer com que cresçam os níveis de integração entre o casal, pode também servir para a ilusão de salvar uma relação desequilibrada ou para excluir dessa relação a presença do pai, provocando ciúme.

 

Como se vê a gravidez é um terreno fértil para o desenvolvimento de transtornos de humor e ansiedade, não só em seus aspectos psicológicos, bioquímicos (mudanças hormonais causando efeitos no trânsito dos neurotransmissores cerebrais) com também sócio culturais.

 

Muitos médicos não levam em consideração essa possibilidade, subestimando os quadros depressivos, mais preocupados com a depressão no período pós parto e não em toda a gravidez, com as alterações que esta traz não apenas ao casal mas também à toda a família da grávida.

 

Tanto os médicos quanto os pacientes e seus familiares ainda encaram com desconfiança a prescrição de antidepressivos para a gestante. É comum se ouvir, nos consultórios, a pergunta: -- Doutor estou grávida e tenho depressão. O que faço agora?

 

O uso de antidepressivos durante a gravidez é controverso e o grande temor é que eles possam causar malformação no feto.

 

Antigamente pensava-se na gravidez como fator de proteção contra os transtornos mentais, incluindo a depressão. Mas isso se mostrou falso, já que transtornos de humor, ansiedade e depressão são comuns em muitas grávidas.

 

No entanto, evidências sugerem que um transtorno mental durante a gestação e no pós parto pode afetar negativamente o desenvolvimento da criança.

 

É preciso então que o médico e a paciente percebam e avaliem os riscos dos medicamentos e também os riscos que um quadro depressivo oferece tanto ao bebê quanto à mãe.

 

O maior risco para a ocorrência da depressão pós-parto é a depressão não tratada durante a gravidez.

 

É preciso ter em mente que a probabilidade de uma mulher apresentar depressão é duas vezes maior que a de um homem e que as taxas de incidência dessa doença são praticamente iguais entre grávidas e não grávidas.

 

Os antecedentes pessoais de transtornos afetivos, os conflitos conjugais, a falta de suporte psicossocial do companheiro ou de familiares, a ocorrência de eventos adversos recentes, o baixo nível econômico e a gravidez indesejada são fatores de risco importantes para a depressão na gravidez e no pós parto. E uma depressão não tratada pode ocasionar aumento de complicações obstétricas como abortamento, parto prematuro ou nascimento de bebes com baixo peso.

 

Para o tratamento da depressão na gravidez deve-se considerar que não há contraindicação absoluta no uso de antidepressivos e é preciso avaliar individualmente cada mulher e a sua situação de vida naquele momento.