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AIDS: até agora, um caminho sem volta
por Dr. Jean Gorinchteyn

Dali, 1981, The Path of Enigma (first version)

 

 

Dali, 1981, The Path of Enigma (second version)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Uma vez diagnosticada a infecção pelo HIV e iniciado o tratamento, com as medicações antirretrovirais, não tem jeito: não se pode interrompe-lo jamais.

 

Isso significa uma completa reviravolta na vida dos pacientes, uma mudança de hábitos que incluirá, para toda a vida, o controle alimentar, a tomada disciplinada de vários medicamentos ao dia, a abstenção da bebida alcoólica, e a adoção de outras medidas que serão a forma de garantir o sucesso do tratamento e impedir suas complicações, sejam elas decorrentes de complicações outras provocadas pelo uso das medicações a longo prazo, ou advenham da resistência, isto é, da falta de resposta do vírus ao tratamento.

Dois fatores devem ser observados para o início do tratamento: as condições clínicas e a condição do sistema imunológico. A condição imunológica é avaliada por exames de sangue feitos periodicamente, a cada três ou quatro meses, sendo dosado os linfócitos CD4 — células importantes na produção de defesas do organismo, os chamados anticorpos. Linfócitos CD4 são as principais células às quais o vírus HIV se liga no organismo, multiplicando-se em seu interior. Dessa forma, ocorre uma grande proliferação de vírus, os pró vírus, dentro dos linfócitos que acabam se rompendo e liberando, assim, mais vírus na corrente sanguínea. Os linfócitos CD4 devem estar acima de 500, e a partir de níveis mais baixos, especialmente abaixo de 200, podem levar às chamadas doenças oportunistas, isto é, doenças infecciosas causadas por agentes como bactérias, fungos e vírus, que se aproveitam da fragilidade do organismo em produzir menor quantidade de anticorpos. Portanto, a presença de doenças oportunistas é considerada como fator para a introdução das medicações antirretrovirais.

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA ou AIDS) é considerada um conjunto de sinais de sintomas que levam ao diagnóstico do comprometimento do sistema imunológico em consequência da infecção pelo vírus HIV. Neste estágio, portanto, inicia-se o tratamento com medicações específicas.

Atualmente, a terapia anti-HIV consiste no uso de medicações específicas contra o vírus, com a finalidade de inibir sua multiplicação dentro do organismo.

 

Pioneira das terapias, o AZT surgiu em 1988, mas atualmente há mais duas dezenas de drogas disponíveis que atuam em fases diversas de replicação do vírus.

Há basicamente cinco categorias de drogas:
1. inibidores de protease, enzima usada pelo vírus no seu primeiro estágio de multiplicação dentro da célula;
2. inibidores de transcriptase reversa, utilizada em fase intermediária de multiplicação;

3. inibidores de integrase (impedem a integração do vírus dentro do núcleo da célula humana);
4. inibidores de fusão, que bloqueiam os receptadores de parede da célula humana, evitando sua entrada.
5. inibidores de receptores TCR5 e TCR4

Em geral, o tratamento se baseia no uso combinado de algumas dessas drogas. É por isso que, em média, o paciente é obrigado a tomar vários comprimidos por dia. Essa ingestão de remédios obedece a horários determinados e, a depender das medicações, exige várias tomadas ao dia ou esquemas mais cômodos com menor número de comprimidos.
A terapia deve ser seguida a vida toda, respeitando-se os horários estabelecidos a fim de se evitar resistência do vírus às medicações. O uso adequado permite que o paciente consiga derrubar a carga virai — a quantidade de vírus presente na circulação sanguínea — em média após três meses de tratamento, ficando cem seu sistema imunológico menos vulnerável às já citadas doenças oportunistas.

Mas, o corpo paga um preço por esse tratamento. Hoje, depois de mais de vinte anos de experiência no combate à doença, já se conhecem com clareza os efeitos colaterais das drogas. Infelizmente, eles são muitos:

- descontrole no nível de concentração de gorduras como o colesterol e os triglicérides. - um fenômeno chamado lipodistrofia, caracterizado pelo acúmulo de gordura em determinados pontos do corpo e sua escassez em outros. É comum, por exemplo, o paciente apresentar rosto, braços e pernas bastante emagrecidos, justamente pela redução de gordura nesses locais.
- Algumas medicações promovem dificuldade de os açúcares entrarem nas células do organismo — é a chamada resistência à insulina, favorecendo o aparecimento de diabetes.
- Outras, porém, podem provocar alterações da deposição de cálcio (mineralização) no osso, tornando-o mais vulnerável a fraturas, ou alterando a função dos rins, diminuindo a filtração de substâncias tóxicas do sangue, como a ureia e a creatinina, o que exige controle rigoroso por meio de exames de sangue periódicos.

Estes efeitos estabelecem-se a partir do primeiro ano de uso das medicações, agravando-se com o passar do tempo.

São mais intensos em pacientes que já apresentem essas alterações, ou seja, que já as tenham antes do início do tratamento e acabam intensificando-as durante o tratamento antirretroviral. Pacientes que apresentem predisposição familiar para desenvolvê-las, como história de diabetes ou alterações de colesterol e triglicérides em parentes próximos, devem ser alertados para esta ocorrência. Tais efeitos não são diferentes em idosos, muito mais quando se sabe que já apresentam várias doenças prévias, as quais tendem a se agravar em vigência do tratamento estabelecido, caso a escolha de drogas e controles laboratoriais
não seja feita de maneira adequada.

Isso é o que se observa na prática clínica, pois a medicina ainda carece de estudos específicos feitos entre essa população, já que, até hoje, todos os trabalhos tiveram como foco o estudo de pacientes adultos jovens e adultos. O grande problema é que, em um organismo mais envelhecido, essas consequências podem ter efeito mais devastador. Exemplo dessa situação é a dificuldade para o controle do colesterol. Por mais que esses idosos tenham cuidado com a alimentação, pratiquem exercícios e tomem os remédios recomendados, há uma imensa dificuldade em manter as taxas nos níveis desejados.

Essa situação é ainda mais acentuada nas mulheres em período de menopausa, pois o colesterol que seria utilizado para a produção de hormônios estrogênicos acumula-se no sangue e, consequentemente, deposita-se nas artérias, tendendo a entupi-las. Isso aumenta enormemente o risco de doenças cardíacas e vasculares como o infarto do miocárdio, a hipertensão arterial e os derrames cerebrais.

A associação de medicações específicas acaba aumentando sobremaneira a quantidade de comprimidos a serem ingeridos, o que, com o passar do tempo, resulta na não regularidade e uso de todos os medicamentos, colocando em risco o sucesso no tratamento contra o HIV e para os controles das doenças associadas.
Por isso, quem se contaminou pelo vírus HIV acaba tendo, se quiser levar a vida com saúde, que adotar novos hábitos de vida, de uma maneira disciplinada e para sempre.

Assim, quando se ouvir algum desavisado repetindo uma das pérolas da ignorância sobre a AIDS como “ah, não tem problema, hoje em dia AIDS não mata” é bom lembrar que o tratamento vai alterar substancialmente a vida do paciente, num caminho que, pelo menos até esse momento, é sem volta.