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AIDS na turma Idosa: o Mito da Invulnerabilidade*
por Jean Gorinchteyn

 

Estranhamente, a maioria dos idosos continua achando que Aids é doença de jovem. Algo como catapora ou sarampo serem somente enfermidades de crianças. Os mais velhos se sentem imunes ao HIV.

Esse pensamento é o calcanhar de Aquiles da Terceira Idade.
 

 

Christophe Veynier, 1683,Aquiles morrendo

 

François Boucher, 1735,  Hercules e Amophile

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* adaptado de "Sexo e AIDS Depois dos 50", livro de Jean Gorinchteyn, Ícone Editora.



Eles até pensam que podem ser vítimas de alguma doença infectocontagiosa. Mas de Aids, ah, esta não!

Camisinha? Quem falou em Camisinha?
Pergunte a qualquer adolescente brasileiro que vive em cidade de porte médio ou pequeno o que é camisinha e como deve ser colocada, e ele com certeza saberá responder. Faça a mesma indagação a uma pessoa com mais de 65 anos. Não se espante se ouvir, em resposta, um sonoro "não sei", ou "não entendo direito o que é", "nunca vi". Alguns até mesmo podem dizer que hoje é tudo tão diferente do tempo deles.... É compreensível que seja assim. Homens e mulheres nesta faixa etária não começaram a vida sexual usando camisinha, em geral, recorriam ao método do coito interrompido, isto é, a ejaculação fora da vagina, e ao preservativo com espessura ampla de látex, fator que alterava a qualidade das relações.

Muitos homens nesta faixa etária não sabem sequer colocar corretamente um preservativo, sem o risco de que estoure, por exemplo.
Além disso, há o entendimento equivocado de que a camisinha prejudique a potência. Embora essa ideia seja uma tremenda bobagem, permeia o inconsciente de muitos homens mais jovens, o que dirá dos mais velhos, em geral já às voltas com dificuldades de ereção. Para estes, explicar que uma coisa nada tem a ver com outra, às vezes, é uma tarefa perdida.
 

Os Riscos para o Homem
As circunstâncias que mais propiciam risco ao homem mais velho são possíveis de fácil indicação. A primeira é comum a ambos os sexos: os bailes e os eventos relacionados à terceira idade. Mas há um outro cenário, muito distante desses encontros de vovós e vovôs: aquele formado por hotéis, motéis e restaurantes, nos quais os homens mais velhos vão procurar mulheres mais jovens. Isso ocorre com muita frequência. É como se ao se relacionar com garotas 30, 40 anos mais jovens, eles quisessem provar a si mesmos que ainda são capazes de atrai-las e de manter uma boa relação sexual. Se esse homem tem dinheiro, é ainda mais fácil encontrar alguém para realizar seu desejo.

Há outra categoria de risco, protagonizada pelo homem bissexual. Ele é casado, tem filhos, netos. Porém, se relaciona com homossexuais. Pode ser desde garotos de programa até travestis, desses que ficam na rua à espera de clientes. São pacientes facilmente identificáveis: perguntados sobre como teria sido sua contaminação, eles dizem que saíram com "uma pessoa". Não especificam se foi homem ou mulher. Mas é difícil de obter a confirmação de que houve relação homossexual. São exceções os casos nos quais os pacientes revelam-se bissexuais ou homossexuais logo nas primeiras consultas. E, em muitos casos, quando ocorre essa confirmação, a relação com o médico fica diferente, estremecida. É como se eles perdessem a honra e passassem a ter vergonha de se encontrar novamente com o profissional, por isso não se deve insistir para que toquem no assunto. É preferível, neste momento, que continuem o tratamento. Há pacientes de cinco, sete anos de tratamento que não fazem a revelação.

Os Riscos para a Mulher
 

A queda de hormônios, especialmente a de estrógeno, observada a partir dos anos que antecedem a menopausa (última menstruação), acarreta um terremoto na vida sexual de algumas mulheres. O desejo desaba e há ainda a redução da lubrificação vaginal, que traz às relações dor e desconforto. E é claro que, sem libido e com dor, fica difícil continuar exercendo a sexualidade de maneira feliz. E este período muitas vezes coincide com crises profundas no casamento. Fazer sexo com aquele marido de anos a fio que sempre a tratou mal, que não esconde mais a grossura, vira algo extremamente difícil. Então, ela simplesmente não quer mais e sublima o sexo. Substitui pelo cuidado com a casa, os filhos e os netos.

Mas há outro gênero de mulher para quem o sexo continua parte importante da vida. Em geral, são as que trabalham ou trabalharam fora de casa. Elas, normalmente, mantêm atividade física e bons relacionamentos sociais. Tudo isso resulta em bem-estar, vida com mais qualidade. Esta mulher quer se sentir atraída e atraente. Então, o que acontece? Ela vai à academia de ginástica, encontra um garotão de 30, 25 anos, e engata um caso. Sente-se revigorada. Ou vai a um baile da terceira idade, onde também pode cruzar com um novo parceiro. Entretanto, apenas uma parcela muito pequena de mulheres está desejosa exclusivamente de sexo. A maioria quer alguém com quem ficar, desfrutar a vida e, em consequência disso tudo, fazer sexo. No fundo, elas querem ser amadas, em especial aquelas que durante toda a vida conviveram com homens que não amavam.

O grande problema é que, ao encontrarem o primeiro que acreditam ser o sonhado príncipe encantado que finalmente lhes trará a felicidade tão buscada, ficam cegas a todas as possibilidades de risco. E infelizmente há muitos riscos no seu caminho. Existem diversos aproveitadores esperando por essas mulheres. Na Internet, nas redes sociais ou nos bailes da terceira idade há garotos de programa de olho nas fragilidades dessa população feminina.

 

Primeiro, cobrem as senhoras de elogios. Há quanto tempo não ouvem um galanteio? Depois, elas ficam reféns emocionais desses rapazes. Pagam tudo, compram roupas, carros ... Nesse interlúdio romântico, é claro que nem se preocupam em usar camisinha. Na verdade, mal sabem o que é!

 

As ameaças também vêm de homens em princípio acima de qualquer suspeita. Mas, como a maioria das mulheres não tem coragem de pedir a seus parceiros que usem o preservativo, elas entram de olhos fechados em um jogo que pode terminar muito mal. Muitas pensam que, se tocarem nesse assunto, perderão o namorado. Ou que se levarem o preservativo na bolsa mostrarão interesse em sexo — e talvez não seja bom demonstrar isso. Pior ainda, o homem que demorou tanto para surgir em sua vida pode pensar que ela está desconfiando dele ou que ela não seja uma mulher de respeito.... Então, ela esquece de vez a ideia da camisinha.

Sem camisinha, infelizmente, a chance de contrair AIDS não é pequena.