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Juvenal Azevedo

e sua filha, Adriana

 

É com muita tristeza que informamos a morte do publicitário e jornalista

Juvenal Azevedo, em 13 de junho de 2013, por ataque cardíaco.

A página dele ficará aqui, com seus geniais artigos e contos , e ele fica em nosso coração.

 

     

(Michele Marieschi, sec 18, Grande Canal de Veneza)

Temporada Rever:

 

33. Giuliana Salvagno, de Veneza. Sinta!

e + poema de Isabel Fomm, escrito quando da morte de Juvenal.

 

 

 

 

 

 

 

 

(Casa Grande, desenho de Gilberto Freyre)

42. Anjo Anunciador

(Juvenal encontra o mestre Gilberto Freyre). SAIBA.

 

 

 

 

 

 

 

 

(Emma Bianchini,  alegria de viver)

41. O Jardim de São Francisco de Assis

Juvenal Azevedo, em texto ditado à sua filha Adriana, num sonho. VEJA.

 

(Joannes Veermer, Moça com Vaso)

40. Juvenal, na sua "persona publicitária" nos brinda com um "briefing" sensacional para seu então cliente

Maionese Hellman's. Clique AQUI.

 

39. Mais um texto inédito do Juvenal:

O DIA EM QUE CHOVEU PRATA.

Maravilhoso! LEIA E VEJA A PÁGINA. CLIQUE AQUI.

 

38. Texto INÉDITO enviado por Adriana, filha de Juvenal:

A PEQUENA HISTÓRIA DE UM CAVALO. LEIA, CLIQUE AQUI.

 

37. O primeiro dos muitos Brooks da minha vida

 Alex Periscinoto na Almap           

Meu irmão Arnaldo, o Banzé, gênio do marketing quando essa palavra não tinha o mesmo sentido de hoje, tinha sempre uns, como eu diria, “agregados” na sua oficina de lapidação de diamantes que funcionava em casa.

   E um desses “agregados” se chamava Osvaldo, que nutria sentimentos antinorteamericanos que, em sua algaravia, imitava um nativo de Tio Sam, falando um suposto idioma, que se encerrava quase sempre com uma presumível palavra - Brooks. Daí para que o próprio Osvaldo se transformasse ele próprio em Brooks, foi um pulo.

   Brooks pra cá, Brooks pra lá, transformaram o Osvaldo em Brooks. E assim foi.

   Descendente de italianos, moreno como um meridionale, Brooks foi um dos heróis da minha infância, pois esmerava-se em falar mal dos sobrinhos do Tio Sam, inevitavelmente falando naquela improvável língua da “Norte América”, no dizer dele.

   Mas o traço mais marcante do meu relacionamento com o Brooks, na minha opinião hoje de adulto, foi que ele sempre me tratou como um igual, embora tivesse já naqueles anos dourados algo em torno de trinta anos, enquanto eu beirava os dez anos de idade.

   Conversávamos muito, principalmente quando saíamos para “fazer o quilo” dando a volta no quarteirão depois do almoço, pois uma das suas preocupações era sempre manter a forma física, comendo menos do que o habitual, mesmo que ainda sentisse um pouco de fome, ocasiões em que costumava exercer um dos seus pensamentos preparatórios visando estar sempre pronto para uma briga inesperada: “sabe cumé, de repente surge um cara querendo comprar briga e a gente tem que estar sempre preparado; daí tem que deixar um espaço no estômago pra poder encarar”.

   Educado, um cavalheiro, um “gentleman” como era o Brooks, dificilmente acabaria participando de uma briga - ainda mais logo depois do almoço!

   Mas, outros Brooks se juntaram à minha coleção de Brooks, ainda que em dias e anos distantes um do outro.

   Eu já era casado e estava procurando emagrecer, quando encontro no elevador da Alcântara Machado com o Zé de Alcântara, que passou a exibir um físico apolíneo, pois havia perdido acima de dez ou quinze quilos graças a um médico de Nova York que havia lançado uma dieta revolucionária. O Zé de Alcântara ficou de me dar uma cópia das recomendações e dietas que tinha recebido do tal médico, mas brasileiramente não levei em conta aquele papo de elevador, que me parecia típico do “aparece lá em casa”.

   Dias depois, eu era redator do Grupo Volkswagen, no 4º andar da agência, quando chega à porta da minha sala o Zé de Alcântara, em carne e osso (àquela altura muito mais osso do que carne, devido à dieta), me entregando o livro que, imagino, tinha sido escrito pelo Dr. Atkins, ainda em forma de uma apostila escolar.

   Caramba, o homem era presidente de uma das maiores agências do Brasil (e, sem dúvida, a mais criativa) e tinha se dado ao trabalho de subir dois andares de escadas e vir me trazer o novo livro de dietas de um médico de Nova York, quando podia perfeitamente ter deixado o livro com sua secretária ou podia ter me chamado à sua sala para me entregar a “apostila”. Foi um gesto de grandeza que me marcou muito, foi a transformação do empresário em um dos muitos Brooks da minha vida.

   Outro Brooks da minha vida foi o sócio do Zé de Alcântara, o VP de Criação Alex Periscinoto, que, quando soube que eu havia me demitido da MPM em São Paulo, me telefonou ele mesmo para combinarmos um almoço ao meio-dia lá na Alcântara.

   Quando cheguei, o Alex pediu desculpas por não podermos almoçar juntos, mas tinha sido lembrado pela sua secretária do almoço que ele já tinha marcado com a diretoria do Mappin (onde ele havia trabalhado durante muitos anos), um compromisso mensal que ele não podia deixar de ir.

   Propôs então o Alex que, durante a caminhada da Alcântara (na Praça da República) até o Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, fôssemos combinando os detalhes da proposta salarial. Naquela altura, eu ganhava na MPM algo em torno de 300 mil qualquer coisa (como sempre, é muito difícil de se saber qual a moeda da época) e o Alex me ofereceu 500 mil. Como já éramos muito amigos, desde o tempo da Standard Propaganda, o Alex se ofereceu para me pagar em dinheiro 400 mil, guardando 100 mil até dezembro, quando então eu teria grana pra comprar um Fusca, coisa que poucos podiam fazer naqueles primeiros anos da década de sessenta. Com a posse do Castello Branco e a política econômica do Roberto Campos, a inflação tinha baixado para perto de zero. Sem prejuízo para ambas as partes.

    Juntou-se então o Alex ao grupo dos meus Brooks, pois tinha cumprido o acordo que fizemos “de palavra”, durante uma caminhada da Praça da República até à Praça Ramos. Houve outros, muitos outros Brooks de quem pretendo falar em um próximo artigo. Até lá!

 

36. Começo da noite com Giocondo Dias

Operários, Tarsila do Amaral

Nos meus tempos de militância partidária, estabeleci alguns contatos com companheiros do Partidão, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), do PS (Partido Socialista) e da 4ª Internacional (organização comunista internacional), entre os quais um grupo de estudantes que frequentavam as aulas da Faculdade de Filosofia, no Rio de Janeiro, como o Wilson Barbosa e sua mulher, uma loira extremamente interessante e pela qual cheguei a ter uma quedinha. Mas essa é outra história.

Apesar de morar em São Paulo, fui levado, junto com outros militantes de esquerda, a visitar o legendário dirigente comunista Giocondo Dias, que morava, se a memória não me falha, numa casa na Tijuca.

Sou ignorante a respeito de muitas coisas e quase sempre me socorro de algum humor, quando digo “minha ignorância é profunda”. Assim, claro que eu sabia o básico sobre o veterano dirigente do PCB, mas levei muitos anos para descobrir que Giocondo Dias não apenas era o número dois do Partidão, logo após Luiz Carlos Prestes, o secretário-geral do Birô Político do PCB, como também era um militante revolucionário que participara da Coluna Prestes, da Intentona Comunista de 1935, passara muitos anos em diversos cárceres e boa parte de sua vida na clandestinidade.

Na véspera do golpe militar de 1964, quando Prestes chegara a declarar na televisão que o PCB já estava no governo, os mais conhecidos militantes comunistas gozavam de bastante liberdade política, o que explicava palestras e atos públicos com Prestes, Jacob Gorender, Mario Schenberg e outros, como era o caso da nossa visita a Giocondo Dias.

 

Revolucionário histórico

Enfim, número dois ou não do PCB, pra mim Giocondo Dias era uma figura histórica e esse detalhe não teria afetado em nada a minha admiração pelo revolucionário e pelo homem.

Entre as perguntas que fizemos a Giocondo Dias, saltou de imediato aquela que se referia à possibilidade de uma revolução, já que estávamos em pleno mês de março de 1964, a poucos dias do que imaginávamos seria a tomada do poder pelas forças progressistas.

Giocondo Dias era, já naquela época, um cinquentão, de aparência franzina, voz suavemente modulada, transmitindo cultura e mostrando um gestual educado. Anos depois, quando visitei meu irmão no Presídio Tiradentes, em São Paulo, para onde levavam presos políticos, fiquei conhecendo o também legendário dirigente do Partidão Jacob Gorender, durante as visitas semanais que eu realizava nos anos 1971 e 1972. E Gorender também era fisicamente semelhante a Giocondo Dias: o mesmo corpo franzino, a voz modulada, exalando cultura e um gestual educado. Eram figuras típicas dos velhos comunistas revolucionários.

Bem, voltando à explanação de Giocondo Dias naqueles idos de março de 1964, o número dois do Partidão engatou um raciocínio que, na época, eu e outros militantes não levamos muito em conta. Ele disse: "O Brasil caminha para uma ruptura institucional”.

 

A noite cai

Essa frase-síntese foi esmiuçada por ele em uma brilhante "palestra" informal, enquanto tomávamos suco de caju e cafezinhos. No final da tarde, da janela da sala víamos o sol se pôr e a noite começar a impor o seu domínio, observando o lusco-fusco no jardim da casa típica de classe média. A noite estendia seu raio de ação ― para muito além do que imaginávamos naqueles tempos.

Hoje, passados quase cinquenta anos, suas palavras, nos alertando para um possível outro lado da moeda, voltam a ressoar em minha memória, com acuidade e assombro: uma quartelada ou golpe militar, neste ano de 1964?!

Entre os assistentes de sua conversa conosco, creio que não havia nenhum que acreditasse nisso: dizíamos que os principais chefes militares estavam divididos, alinhando nomes como o do general Machado Lopes, do III Exército, em Porto Alegre; do general Amaury Kruel, comandante do II Exército, em São Paulo; e do próprio general Mourão Filho, comandante da 4a Região Militar, em Minas Gerais.

Em relação aos governadores, exceção feita a Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, e Adhemar de Barros, em São Paulo, havia a perspectiva de normalidade democrática a governantes como Magalhães Pinto, em Minas, sem falarmos de esquerdistas notórios, como o governador de Pernambuco, Miguel Arraes.

Os sindicatos, apesar de deterem um pequeno percentual de filiados (o Sindicato dos Metalúrgicos, de São Paulo, tido como o de mais alto número de integrantes no país, 18%), engrossavam a CGT e outras centrais sindicais, nos dando uma falsa ilusão de poderio. Apesar disso, estávamos cegos de ilusão. Os partidos de esquerda estavam longe de representar algo parecido com os PCs da Itália e da França, por exemplo, ou mesmo do peronismo na Argentina.

 

Esperanças

Havia dois fatos novos. Um deles, no Nordeste, com as Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião. Outro, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, onde os Grupos dos 11 formavam o embrião de um poder soviético, sob a liderança de Leonel Brizola. Em São Paulo e no Rio, as “marchas da família com Deus e pela liberdade”, financiadas e organizadas pelo Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e pelo Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), entidades acintosamente pró-norte-americanos, com o apoio da CIA (órgão da inteligência dos Estados Unidos), revelaram alguns milhares de mulheres marchadeiras (as chamadas “senhoras de Santana”), mas estas eram debochadas pelos partidos de esquerda, que as rotulavam de minorias ínfimas.

As dissensões e dissidências entre os partidos de esquerda adquiriam às vezes o contorno de uma guerra interna, deixando em geral de organizar uma autêntica frente de esquerda para encarar os partidos de direita e as próprias forças armadas. Até mesmo Leonel Brizola, organizador dos Grupos dos 11, uma provável organização de poder, era visto com desconfiança por alguns setores progressistas da sociedade e da política. Acredito que, se tivéssemos tido tempo para forjar uma estrutura partidária revolucionária, no prazo de mais um ano ou pouco mais, disseminada pelo país, poderíamos contrapor ao exército brasileiro um exército revolucionário como o exército vermelho organizado por Leon Trotsky, em 1917, na Rússia.

Enfim, os argumentos que brandíamos a Giocondo Dias, acima relatados, não serviram para muito, já que nossas viseiras não nos permitiam olhar para os lados. Talvez só hoje possamos entender o que ele queria nos alertar naqueles idos de março. E isso incluía muitos atalhos para o futuro.

 

Textos nesta página:

(clique no número para ir direto ao texto)

 

37. O primeiro dos muitos Brooks da Minha Vida

36. Começo da Noite

35. Eliza Naves de Teffé

34. 7 de abril, a rua que...

33. Giuliana Salvagno, de Veneza

32. Os Vivos e os Mortos

31. A Impopular Campanha das Sacolinhas

30. O Velho Camarada Manoel

29. O MP, o Procon, o CONAR e as sacolinhas dos supermercados.

28. A Preservação da Amazônia e as sacolinhas do supermercado

27. Três Pra Uma

26. Diretor de Arte Não Sabe Escrever

25. Minha Primeira Lição de Marketing

24. A Última Impressão É a que Fica.

23. Otimização de campanhas no Facebook

22. O Paulistano É um pobre Diabo

21. A Criatividade Começa no Planejamento

20. Um cão uivando para a imortalidade

19. Quem Não se Comunica...

18. Os feriadões acabaram

17. Jornalistas e Publicitários bebiam do mesmo copo

16. The Big Revelation

15. A Importância da Continuidade

14. A Revoluçao Criativa no Brasil

13. Experiência, Tempo e Algum Talento

12. Carlos Valverde

11. Meus Longevos Favoritos

10. Histórias do Passarinho

9. A insatisfação Sexual do Brasileiro

8. Camillo, O General Francês e Eu

7.Fundo de Garantia: o fim da estabilidade emocional

6.Procura o Ingmar!

5. Sobre Ternos Cor de Rosa

4. Este Rio que Eu Amo

3. A Diferença entre òptica e Ótica vai muito além do "p"

2. O desmatamento da Amazônia e a Democratização do Sexo

1. A Propaganda Interativa Já Andou de Bonde

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

El Greco, A Ascensão da Virgem, 1577

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  foto de Juan Esteves

 35. Eliza Naves de Teffé

Na “Folha de S.Paulo” de 19 de dezembro corrente (2012), artigo de Rubens Naves, advogado e professor licenciado da Faculdade de Direito da PUC-SP, conta que há 75 anos iniciava-se, em Araguari (MG), o trágico episódio que levaria à prisão os irmãos Naves pelo suposto homicídio de Benedito Pereira Caetano, no qual, sob brutais e constantes torturas perpetradas pela então notória polícia mineira, os réus “confessaram” o assassinato de Benedito.

 Mas Benedito, na realidade, fugira com 90 contos de réis, reaparecendo 15 anos depois. Os irmãos Naves foram condenados a 16 anos de prisão por um crime que não cometeram. Ao longo de décadas, o caso foi considerado “o maior erro judiciário brasileiro”.

 Dias atrás, Carlos Heitor Cony publicou crônica na “Folha de S.Paulo”, em que abordava o eventual desaparecimento do corpo de Eliza Samudio, repetindo a saga do desaparecimento do presumido corpo de Dana de Teffé, sem que seu corpo ou sua ossada fossem encontrados até hoje, cerca de 60 anos decorridos.

 Segundo Cony, “houve mutirão no país, polícia, embaixadores, mídia nacional e internacional revolveram com pás e peneiras os oito milhões de quilômetros quadrados do nosso território, mas ainda agora Dana de Teffé e seus ossos não apareceram”.

 No caso do desaparecimento de Eliza Samudio, apesar dos exames de DNA e das mais modernas tecnologias, nada foi encontrado que comprovasse um possível homicídio.

 Como disse argutamente Carlos Heitor Cony no encerramento de sua crônica: “Um dos advogados dos suspeitos já levantou a tese do aparecimento de Dana de Teffé em carne e osso ou, ao menos, de seus ossos. O presumido corpo de Eliza até agora não apareceu. A defesa garante que a eventual vítima está viva. Tentando a carreira de modelo profissional, ela poderá aparecer de repente no programa do Faustão ou no Fantástico”.

34. 7 de Abril, a rua que já foi a nossa Madison Avenue

 

O prédio dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, 230, tinha em suas instalações uma grande agência de propaganda, a McCann-Erickson Publicidade, que disputava a liderança no ranking das maiores agências do Brasil com outra poderosa multinacional, a J.W. Thompson. Eram, como se diz, os "tempos heroicos", dos anos 1950 e 1960.

Por obra de Assis Chateaubriand, os Diários Associados exerceram um papel de liderança e de bastante benemerência naquele edifício, ajudando a inaugurar a primeira sede do MASP (Museu de Arte de São Paulo), da Cinemateca, da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), da TV Cultura, do Bar do Museu, além das diversas exposições que os Diários promoviam em seu saguão principal. Quase tudo grátis ou a preços altamente subsidiados, a começar do Bar do Museu, onde uma dose de whisky saía quase a preço de custo.

Instaladas na própria 7 de Abril e nas suas proximidades, nossas agências de propaganda transformaram aquele trecho da cidade num sucedâneo da Madison Avenue, em Nova York.

Na 7 de Abril ficavam a Publitec, a Grant, a Better, além da McCann e, a poucos passos, a Alcântara Machado, a Mercur, o Grupo 8 (na Praça da República), a P.A. Nascimento (na Vieira de Carvalho), a Standard e a Orion (na Praça Roosevelt), a Lintas (na Senador Queiroz), a MPM, a Lince e a Panam (na Avenida São João), a Doria Associados (na Rua Formosa), a Norton (na Barão de Itapetininga e logo depois na General Jardim), a Reclam e a Editora Abril (na Rua João Adolfo).

A Thompson ficava meio fora de mão, no prédio da Associação Comercial, na Rua Boa Vista, e um grupo de outras agências se instalaram próximas à Avenida Angélica, como a Inter-Americana, na Rua São Vicente de Paulo, além da CIN e da Multi, uma subagência da McCann que depois virou Quadrant. Estavam se afastando do centro da cidade, criando uma tendência que só fez crescer com o passar dos anos.

Na região da nossa Madison Avenue cabocla funcionava também a APP (Associação Paulista de Propaganda), na 24 de Maio, no mesmo prédio da gafieira Badaró, onde muitos publicitários se acochambravam com as morenas; onde havia campeonatos de sinuca disputadíssimos, com o José Fontoura da Costa, um brilhante redator, derrotando em célebre final os melhores e mais assíduos tacos; onde quase toda sexta-feira realizavam-se animados bailes e onde, acompanhado do diretor de arte Armando Mihanovich e da dupla de criação José Fontoura e Hector Rossano, curtíamos maravilhosos almoços, inclusive  a “invenção” dos espanhóis que administravam o restaurante da APP, um prato que pra nós era novidade, o chamado bife tartar. E os preços, ó, pequenininhos, pequenininhos.

Publicitários frequentavam também o Clubinho (Clube dos Artistas e Amigos da Arte de São Paulo), na Rua Bento Freitas, no porão do edifício do Instituto dos Arquitetos, com “canjas” literárias e artísticas, onde o piano dificilmente ficava quieto. E, tal como ocorria no Bar do Museu e no bar e restaurante da APP, os preços eram quase simbólicos, praticamente de custo. Lugares assim, a preços abaixo do mercado, há muito tempo deixaram de existir, restando talvez o Bar do MAM, se é que ainda não se deixou contaminar pela especulação financeira.

Pra finalizar este comentário, é preciso ressaltar a importante participação dos diretores dos Diários Associados na introdução do MASP, da Cinemateca, da ESPM, do Bar do Museu, da TV Cultura e dos organizadores das diversas exposições realizadas no saguão principal do edifício dos Diários. Gente como Edmundo Monteiro, de seu irmão Osório Monteiro, de Napoleão de Carvalho, de Salviano Nogueira e de outros tantos. Os Diários ajudaram a levar cultura não só a São Paulo como a todo o Brasil e a outras partes do mundo e, dentro desse espectro, a propaganda brasileira foi também levada e elevada a patamares mais criativos. A bênção, Chatô! A bênção, colaboradores desinteressados e abnegados da família associada!

 

32. Os vivos e os mortos 

       livro de poesias de JL Carvalho,

         1963, capa Marina Pineda

Pra começar, peço desculpas ao espírito de James Joyce, autor do conto que deu origem ao filme “Os vivos e os mortos” (no original, “Os mortos”) cujo título copiei descaradamente. Peço desculpas também por não ter tido saco nem sensibilidade pra terminar de ler sua badalada obra-prima, “Ulisses”, nem tampouco jamais ter botado os olhos em seu livro “Os dublinenses”, de onde tiraram o conto que inspirou este artigo. Vi o filme, na versão dirigida por John Huston, no final dos anos oitenta, um primor de direção, fotografia, produção e casting, na companhia do meu amigo Enio Mainardi, no cine Lumière, na época em que trabalhei na sua agência, lá na Brigadeiro Luís Antônio. Foi quando o Enio revelou sua faceta de gente sensível, com lágrimas nos olhos, pois o filme lhe fez lembrar das festivas reuniões na casa de velhas tias que já haviam embarcado para o andar de cima.

 

Bem, este artigo não é sobre o Enio, que, pelo que sei, continua firme e forte na sua ginástica diária e nos seus extremos cuidados alimentares, preparando-se para bater o recorde de Oscar Niemeyer.

 

Quero falar sobre duas mortes relativamente recentes, que levaram junto com os falecidos pedaços da minha própria vida. Uma delas foi a de José Leão de Carvalho. A outra, de Antonio José da Fonseca Pires. Mortes que doeram tanto, tanto, que só agora me senti em condições de falar sobre os extintos.

 

Leão foi o cara que me mostrou existir vida inteligente na corrente ideológica de esquerda, pouco depois de minha tumultuada convivência com militantes e/ou simpatizantes do PCB, que se recusavam a ver qualquer imperfeição na União Soviética e nos seus dirigentes, quando me falou sobre a formação de uma casta aproveitadora (a burocracia soviética), devido a diversos fatores, entre os quais a morte de Lênin, a derrota de Trotsky no embate com Stalin e o cansaço natural das forças revolucionárias no pós-revolução.

 

Profissionalmente, Leão foi um dos pioneiros no Brasil da revolução criativa iniciada nos Estados Unidos por David Ogilvy e Bill Bernbach, formando, ao lado de Alex Periscinoto, Sérgio Toni, Ivan Meira, Roberto Duailibi, Carlos Henrique Knapp, Enio Mainardi, Marcus Pereira e sua coluna no “Estadão”, a vanguarda revolucionária brasileira que modernizou a linguagem e o visual dos nossos anúncios.

 

Na ocasião em que uma das nossas crises cíclicas abateu-se sobre o país e as agências de publicidade, decidimos que uma tentativa de salvação seria a associação ou fusão entre as agências e juntamos nossas Nexus e Usina, transformando-as na Nexus/Usina de Propaganda, ocupando a imensa casa da Nexus na Avenida Rouxinol e conseguindo uma sobrevida de pouco mais de um ano.

 

Meses depois, eu, já como diretor de Criação da Núcleo, fui procurado pelo Leão para ajudá-lo a fundar o Ilace (Instituto Latino-Americano de Criatividade e Estratégia), financiando sua viagem a Porto Alegre, onde o Ilace deu seu primeiro curso nos idos de 1978.

 

Anos depois, já em 1988, sabedor de que eu estava fazendo assessoria de imprensa, o Leão me procurou, oferecendo-me uma bolsa para o seu curso básico, num hotel de Serra Negra, SP e, após o curso, convidou-me a prestar minha primeira assessoria ao Ilace. Outras mais se repetiram ao longo dos anos, fiz um novo curso do Ilace em 2008 e estivemos juntos praticamente até à sua morte, no começo de 2010.

 

Mais do que a perda de um amigo, foi a perda de um preceptor, de um guia, de um mestre, pois, ao contrário do que me aconteceu com diversos clientes, nunca me julguei à altura da inteligência, do brilho, da maturidade e do preparo intelectual do Leão.

 

Já o Antonio José Pires sempre foi pra mim o Toninho das ruas Mesquita e Heitor Peixoto, onde nos conhecemos, eu, com 10 anos, ele, com 11.

 

Com exceção dos dois anos em que vivi em Extrema, no sul de Minas, dos 12 aos 14 anos, quando trocávamos cartas, passamos juntos a infância, a adolescência, a juventude e os primeiros anos de casados, quando surgiram os nossos seis filhos – três meus e as três filhas dele.

 

Da turma da rua Mesquita, fui o primeiro a trabalhar numa agência de propaganda, a velha e boa Standard, hoje Ogilvy. Quando fui promovido a assistente de Mídia, indiquei o Toninho para o bom parceiro Nilo Leuenroth, que o contratou para ocupar o meu lugar como faturista-chefe. Na sequência, fomos levando toda a turma das nossas ruas para a Standard, entre os quais o Mauro Jordão, o Osmar Machado, o Armando Nicolau Griffo e o Rubens Bertolucci. Alguns fizeram carreira em propaganda, outros acabaram optando por aderir a negócios similares, mas todos tiveram participações expressivas tanto na publicidade como fora dela.

 

Nesse meio tempo fui para a MPM, para onde levei o Toninho e depois, juntos, o Mauro, o Rubão e o Osmar, fui dirigir a Criação da Alcântara Machado no Rio de Janeiro, voltei para a Alcântara em São Paulo, abri uma agência, a Usina de Propaganda, que viveu (ou sobreviveu) por 10 anos, e ganhei todos os prêmios nacionais e internacionais importantes.

 

O Toninho também fez carreira, criando novidades, como o top de 5 segundos da Rede Globo, bolando pioneiras ações de merchandising nas novelas globais e ganhando dinheiro, uma habilidade que eu jamais consegui desenvolver. Por uma série de acontecimentos, fortuitos ou não, acabou por se tornar sócio da MPM/Casabranca, o braço paulista da maior agência do Brasil nos anos setenta e oitenta.

 

Morreu de forma precoce e trágica ao cair de uma escada em sua casa/escritório, em maio de 2011. E levou com ele porções e fatias significativas da minha vida.

 

Ave, Leão! Ave, Toninho! Onde quer que vocês estejam, recebam minhas saudades e meu abraço. Um dia a gente se encontra.

 

 

 

 31. Casino, sem Diniz, deve abandonar a impopular campanha das sacolinhas

Seis cidades do interior do Estado acabaram de aprovar leis que obrigam os supermercados a voltarem a entregar sacolinhas plásticas a seus fregueses

   

Desde 3 de abril (2012) está em vigor o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), firmado entre o Ministério Público e o Procon com as redes de supermercados representadas pela APAS, uma entidade que, intramuros, é capitaneada pela rede Pão de Açúcar, sua principal associada, de olho na propalada “economia” de 550 bilhões de reais que seria proporcionada aos mercadistas com a abolição da entrega das sacolinhas plásticas aos fregueses dos mercados.

  

   Por que escrevi “economia” entre aspas? Ora, porque o custo das sacolinhas já está embutido no custo dos produtos vendidos pelos supermercados. Assim, não se trata de economia, mas da usurpação de um direito adquirido pela freguesia da rede mercadista. O consumidor já está pagando pela sacolinha, logo, tem direito a ela.

 

   Tanto assim que seis cidades de São Paulo já têm leis em vigor que obrigam os supermercados a distribuir sacolas plásticas aos consumidores (Guarulhos, Franca, Barretos, Itapeva, Mogi Mirim e Lins) e outras nove, inclusive a Capital e Campinas, Itararé, Valinhos, Atibaia, Botucatu, Sorocaba, Santo André e Araraquara, têm projetos de lei tramitando em suas Câmaras Municipais. 

 

   De olho na propalada “economia” de 550 bilhões de reais, a APAS continua fazendo com que os fregueses dos supermercados é que tenham de meter a mão no bolso para adquirir as chamadas embalagens recicláveis, que de recicláveis não têm nada, conforme diversos estudos ambientais realizados por entidades respeitáveis, já que, picotadas para a etapa da reciclagem levam de 200 a 300 anos para se biodegradarem.

 

   Como se costuma dizer, a APAS “está tirando as castanhas do fogo com a mão do gato”, mas começa a ser impedida por uma forte corrente de consumidores conscientes dos seus direitos que nasceu na internet, cresce cada vez mais e já influenciou as Câmaras Municipais de diversas cidades.

 

   A guerra contra a ganância e o cinismo dos donos de supermercados continua em todo o Estado, bastando lembrar que as sacolinhas são usadas para recolher os diversos lixinhos domésticos das cozinhas, banheiros e outras dependências das casas, além de serem bastante utilizadas no recolhimento do cocô dos cachorros em vias públicas. Se forem banidas como a APAS e sua imensa cara de pau desejam, os consumidores teriam de adquirir os famosos sacos pretos de plástico nos supermercados, aumentando o lucro dos gananciosos donos das grandes redes e deixando de lado o fato de que estas, sim, são embalagens de fato poluidoras, gerando entupimentos para as ruas e bueiros e para os rios, córregos e lagoas.

 

   E vamos parar de hipocrisia e de imaginar que o consumidor é bobo, senhores da APAS: os supermercados são um imenso playground de embalagens não recicláveis. É só ver as embalagens pets dos refrigerantes, os plásticos dos danoninhos e demais laticínios, as embalagens plásticas de arroz, feijão, farinhas, macarrão, biscoitos, as águas minerais, os envoltórios das caixas de leite, os detergentes e materiais de limpeza, as bandejinhas e os filmes plásticos que embalam as carnes, frangos, frios e queijos, ou seja, praticamente tudo que neles é vendido é embalado em plástico. Mas como essas embalagens já vêm dos fabricantes, o jeito de conseguir aumentar o lucro dos mercados é, demagogicamente, tentar tirar as sacolinhas de circulação, transferindo o custo para o consumidor final.

 

   Cabe agora ao grupo Casino, em vias de se livrar de Abílio Diniz, sair do barco furado que é essa campanha contra as sacolinhas, pois a insatisfação dos consumidores é cada vez maior, ao mesmo tempo em que o lixo e o cocô dos pets nas ruas aumenta. É só seguir o exemplo de outras redes de supermercados, feiras livres e armazéns e voltar a fornecer as sacolinhas para o transporte das mercadorias, se antecipando à entrada em vigor de uma lei na Capital. O povo agradece e essa atitude reverterá em uma boa estratégia de marketing para o Pão de Açúcar/Casino - agora sem Diniz.

 

30. O Velho Camarada Manoel

O Velho Manoel, meu pai, como todo ser humano, tinha algumas complexidades.

Primeiro, eu quero dizer que, graças a Deus, eu tive a oportunidade de conviver “intimamente” com ele, durante cerca de quinze anos, se é que a gente possa classificar assim o nosso relacionamento, de modo a poder corrigir algumas atitudes errôneas que eu tive nos primeiros anos da minha adolescência, quando eu era um pequeno nazista, se não ideologicamente, ao menos nas atitudes.

Eu enchia o saco dele por tomar seus vinhos e suas pingas e também por fumar. Claro que ele bebia moderadamente e fumava também pouco. Mas o fato dele beber e fumar era suficiente para eu pegar no pé dele e de maneira bem pouco educada, o que ele aguentava com o estoicismo de um santo, com uma superioridade de atitude que, sem dizer, ficava nas entrelinhas, algo como “um dia você vai compreender, um dia você chega lá”. Sábio homem!

O primeiro traço de temperamento ou de caráter dele que mais me marcou no resto da vida, foi a extrema generosidade, o mais absoluto desprendimento para com os filhos: as melhores partes do frango eram para os filhos (e numa época em que pobre, quando comia frango, era porque um dos dois estava doente, como dizia o genial Barão de Itararé) , nunca para ele. E também com o peixão assado cortado em postas, que ele costumava fazer aos domingos, com batatas, azeitonas e rodelas de cebola, com azeite por cima. Uma delícia!

E assim, sempre. O melhor era para os filhotes, e ele jurava que gostava mesmo era de asas, pescoço e cabeça! Talvez até ele tenha aprendido a gostar daquilo que os outros não gostavam, sei lá!

Esta é uma atitude que eu sempre procuro fazer com os meus próprios filhotes, a ponto deles passarem a desconfiar de mim, quando digo que não quero mais determinado alimento ou que a quantidade de partes de frango per capita dá X pedaços para cada um, etc. etc. Mas são valores que eu peguei do meu pai e que procuro seguir, ao contrário de outros pais e outros adultos, que procuram sempre ficar com a maior quantidade e as melhores partes da comida e de outras coisas.

Lembro também com muito carinho de quando eu chegava da escola, varado de fome e, mais ou menos, já tinha idéia de qual seria o cardápio, pois ele tinha dias quase sempre fixos para fazer determinados pratos. Por exemplo: terça-feira, quase sempre, era o meu prato favorito: purê de batatas com salsichas ao molho vermelho (de massa de tomate, que nisso o Velho não era de fazer o molho à moda italiana, muito trabalhoso – era um homem essencialmente prático e, além do mais, creio que havia a necessidade de se fazer uma certa economia, embora jamais haja faltado azeite de oliva português, por exemplo, mas, como eu disse, ele tinha suas complexidades).

Quinta-feira era dia de macarrão e o molho, claro, era à base de massa ou extrato de tomate – não havia ainda purês de tomate ou molhos prontos, os Pomarolas da vida.

Sexta-feira o Velho respeitava a tradição e o prato era, quase que invariavelmente, sardinhas fritas inteiras, passadas na farinha (imagino que seria farinha de rosca), acompanhadas de arroz e feijão.

E, na minha lembrança, tudo que ele fazia era delicioso. Simples, sem frescuras, mas gostoso, muito gostoso.

O Velho era também um homem honrado e nisso também eu procuro seguir o seu exemplo. Honrado num sentido amplo, de cumprir tudo que prometesse, de honrar sempre a sua palavra.

Era também honesto.  E extremamente responsável. Viveu sempre da sua aposentadoria que, imagino, devia ser pouca e nunca aceitou que eu contribuísse financeiramente para a casa, só me restando, vez por outra, apanhar uma conta de água ou de luz e levar pra pagar. Verdade que as jóias e bijuterias que o Banzé (meu irmão Arnaldo era carinhosamente chamado por mim de Banzé, pela “semelhança” com o cachorro da Disney) dava ao Velho pra revender deviam ajudar a engordar a renda do Camarada Manoel, mas ele sempre soube administrar muito bem suas finanças.

O Velho era também anticlerical. Acreditava em Deus, embora não me lembre de tê-lo visto nunca na igreja. Falava sempre mal do Vaticano, que tinha grandes propriedades no mundo todo, dos padres e das freiras, por aí afora. Mas, melhor assim, já que nosso vizinho da Tobias Barreto, o “Seu” Teixeira, que tinha uns doze filhos, ia todo dia à primeira missa, creio que às 6 da matina e dava polpudas contribuições para a paróquia, depois chegava em casa e batia ferozmente nos filhos todos, era o contraponto perfeito para o anticlericalismo do Velho.

Talvez pelo fato de eu ser o mais novo dos sete filhos, peguei o Velho Manoel já mais amadurecido, mais tolerante, num sinal de que ele acompanhava os novos tempos. Apanhei dele uma única vez, com cerca de dez anos, de cinta, como disseram na época “em posição de sentido”, pois o encarei firmemente, olhos nos olhos, sem correr pra tentar escapar do anunciado castigo e, após duas ou três cintadas, ele recolheu a cinta, deu marcha a ré e retirou-se do quarto, sem dizer uma palavra. A propósito: o Velho era de poucas palavras, nossa comunicação era intensamente não-verbal, a gente se sacava e se compreendia sem quase falar.

Pelo fato de eu ser o mais novo, fui o único que, volta e meia, o chamava de você, alternando com o tratamento que lhe dispensavam os outros filhos, o cerimonioso “senhor”.

Pra finalizar, como eu disse antes, tive a sorte de poder viver praticamente só eu e ele dos 12 aos 25 anos, quando pude “mudar os meus conceitos” em relação ao Velho, vendo com o passar do tempo que ele era uma figura para ser copiada e imitada no seu temperamento, no seu caráter, na sua integridade e até no seu jeito de ser, embora ele não fosse de demonstrações efusivas de afeto, o que, certamente, lhe devia fazer falta, mas que, camponês de Trás-os-Montes nascido no século 19, isso fazia parte da sua natureza. Comportamento entre homens, mesmo que pai e filho, era daquele jeito, até mesmo sem abraços, e não lhe ocorria, como eu faço ainda hoje, fazer cócegas de leve nos pés do Alexandre ou conduzi-lo “de peixinho” no mar ou na piscina.

Politicamente, o Camarada Manoel tinha mais “complexidades”. Era getulista de carteirinha, mas não deixava de ouvir os veementes discursos do Carlos Lacerda pelo rádio, atacando o então presidente. Era um democrata nas atitudes e no dia a dia, mas não cansava de clamar pela intervenção dos militares: “Só os militares para endireitar este país” era um mantra manoelino de uso frequente. E era um homem bem informado, lendo sempre jornais que eu recebia em casa como cortesia das editoras (“O Tempo” e o “Correio Paulistano” nos últimos anos) e, anteriormente, ainda em Extrema, “A Época” e “O Dia”, ambos de propriedade do Adhemar de Barros, pois certamente foram os únicos que se dispuseram a enviar alguém até lá pra fazer assinaturas. E, claro, jamais suportou Adhemar, tornando-se janista ferrenho, tal como eu próprio. Além disso, vivia ouvindo rádio, numa época em que a televisão engatinhava e a internet não estava nas cogitações de ninguém. Era um homem bem informado o Velho Manoel. E sorte de quem chegou a conhecê-lo.

29. O MP, o Procon, o CONAR e as sacolinhas dos supermercados

Dia 3 de abril vence o prazo de 60 dias do TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), firmado pela APAS com o Ministério Público e o Procon, que já havia recebido muitas reclamações formais de consumidores contra os supermercados representados pela APAS, uma entidade que, intramuros, é capitaneada pela rede Pão de Açúcar, a principal associada, de olho na propalada “economia” de 550 milhões de reais que seria proporcionada aos mercadistas com a abolição da entrega das sacolinhas plásticas aos fregueses dos mercados.

   Por que escrevi “economia” entre aspas? Ora, porque o custo das sacolinhas já está embutido no custo dos produtos vendidos pelos supermercados. Assim, não se trata de economia, mas da usurpação de um direito adquirido pela freguesia da rede mercadista. O consumidor já está pagando pela sacolinha, logo, tem direito a ela.

   O fato novo relativo a essa sacanagem mercadista é que o CONAR, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, no dia 9 de março corrente decidiu, por unanimidade, que a Associação Paulista de Supermercados (APAS) deve suspender imediatamente sua campanha publicitária contra as sacolas plásticas, pois a campanha “Vamos tirar o planeta do sufoco” não respeita o cidadão, tratando-se de uma tentativa de publicidade enganosa.

   E mais: a campanha não se mostrou verídica e não apresentou qualquer dado científico que embase os apelos ambientais citados nos anúncios, não apresentou fontes científicas para comprovar suas posições. E também, em momento algum da campanha a APAS informou ao cidadão que o custo das sacolas já está embutido no preço dos produtos e que, apesar de deixar de distribuí-las, estas continuariam a ser cobradas indiretamente, caracterizando claro prejuízo econômico ao consumidor, sem trazer a ele nenhuma vantagem ambiental. De olho na propalada “economia” de 550 milhões de reais, a APAS ainda continua querendo fazer com que os fregueses dos supermercados é que tenham de meter a mão no bolso para adquirir as chamadas embalagens recicláveis, que de recicláveis não têm nada, aumentando ainda mais os já gordos lucros das grandes redes mercadistas como o Pão de Açúcar.

   Como se costuma dizer, a APAS “quer tirar as castanhas do fogo com a mão do gato”, mas está sendo impedida por uma forte corrente de consumidores conscientes dos seus direitos que nasceu na internet e cresce cada vez mais, mesmo tendo de enfrentar o boicote da chamada “grande imprensa”, beneficiária dos grandes anúncios da rede mercadista e que, até hoje, não publicou a decisão do Conar nas páginas de seus jornalões, assim como não publica as cartas de leitores e os artigos contrários à demagógica campanha da APAS que o CONAR proibiu. Quem quiser ler a decisão do CONAR na íntegra é só olhar no site da entidade: www.conar.org.br.

   Cabe agora ao Ministério Público e ao Procon acabarem definitivamente com essa tentativa mercadista de transferir o custo das sacolinhas para o consumidor final. A guerra contra a ganância e o cinismo dos donos de supermercados continua, bastando lembrar que as sacolinhas são usadas para recolher os diversos lixinhos domésticos das cozinhas, banheiros e outras dependências das casas, além de serem bastante utilizadas no recolhimento do cocô dos cachorros em vias públicas. Se fossem banidas como a APAS e sua imensa cara de pau desejam, os consumidores teriam de adquirir os famosos sacos pretos de plástico nos supermercados, aumentando o lucro dos gananciosos donos das grandes redes e deixando de lado o fato de que estes, sim, são de fato poluidores, gerando entupimentos para as ruas e bueiros e para os rios, córregos e lagoas.

   Vamos parar de hipocrisia e de imaginar que o consumidor é bobo, senhores da APAS: os supermercados são um imenso playground de embalagens não recicláveis. É só ver as embalagens pets dos refrigerantes, os plásticos dos danoninhos e demais laticínios, as embalagens plásticas de arroz, feijão, farinhas, macarrão, biscoitos, as águas minerais, os envoltórios das caixas de leite, os detergentes e materiais de limpeza, as bandejinhas e os filmes plásticos que embalam as carnes, frangos, frios e queijos, ou seja, praticamente tudo que neles é vendido é embalado em plástico. Mas como essas embalagens já vêm dos fabricantes, o jeito de conseguir aumentar o lucro dos mercados é, demagogicamente, tentar tirar as sacolinhas de circulação, transferindo o custo para o pobre consumidor final, com a conivência dos jornais e de outros veículos de comunicação. Pobre “grande mídia”, mais uma vez curvada ao interesse dos maus comerciantes.

   Ministério Público e Procon: juntem-se ao CONAR e proíbam os supermercados de lesarem seus fregueses. Antes mesmo de 3 de abril acabem com a demagógica campanha da APAS e obriguem os supermercados a continuarem fornecendo as sacolinhas para o transporte das suas compras. O povo agradece.

 

28. A preservação da Amazônia e as sacolinhas do supermercado

Em apenas um ano o Brasil perdeu 26.130 km2 de floresta amazônica, uma área superior ao Estado de Sergipe (21.863 km2) e quase do tamanho do Estado de Alagoas (29.107 km2), conforme divulgou recentemente o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.

   Na prática, 1,3 bilhão de árvores foram derrubadas e 46,5 milhões de aves e 1,5 milhão de primatas foram afetados, segundo uma estimativa feita por pesquisadores brasileiros e publicada na revista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Com essa avaliação, os cientistas autores do estudo mostram que, por trás dos anúncios oficiais de índices e planos contra a ação dos desmatadores, existe um impacto na biodiversidade e na disponibilidade de recursos naturais difícil de ser recuperado.

   Calcula-se que perdemos, no curto tempo de um ano, de 1,17 bilhão a 1,43 bilhão de árvores, que foram cortadas e queimadas e, se colocadas lado a lado, dariam mais de três voltas ao redor da Terra. O mesmo cálculo internacionalmente aceito dá como certo que o desmatamento afetou a vida de 43 a 50 milhões de aves e de 914 mil a 2,1 milhões de primatas.

   A solução é aparentemente simples, mas difícil de ser posta em prática: desmatamento zero e aproveitamento sustentável do território, conforme proposta apresentada pelo Museu Goeldi há alguns anos, mas para que essa proposta seja viabilizada seria necessário um grande pacto entre governos da região amazônica, o governo federal e o setor produtivo. Não é preciso derrubar mais árvores. O aproveitamento de solos degradados pelo desmatamento já integra projetos na região amazônica, entre eles o da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com o Incra – Instituto Brasileiro de Colonização e Reforma Agrária.

O que falta é “vontade política”, como se costuma dizer no jargão partidário. A mesma “vontade política” que fez a prefeitura kassabiana, o governo alckiminiano e a entidade que reúne os mercadistas de São Paulo, a Apas, fecharem um acordo que repassou a conta das sacolinhas plásticas dos supermercados para o consumidor final, como se fosse do uso das sacolinhas “deixar o planeta no sufoco”, como demagogicamente afirma a campanha dos mercadistas, ignorando o transtorno que a falta dessas embalagens irá fazer na embalagem dos vários lixos domésticos, na limpeza do cocô deixado pelos “pets” nas ruas e outras barbaridades. Enquanto isso, já que falamos em “pets”, as chamadas embalagens “pets” de refrigerantes e de produtos de limpeza continuam triunfalmente expostas nas gôndolas mercadistas trazendo, elas sim, poluição para as ruas e bueiros e para os rios, córregos e lagoas. Os mercadistas agradecem aos governos municipal e estadual de São Paulo a diminuição de sua despesa com as embalagens plásticas, ao mesmo tempo em que engordam seus já gordos lucros com a venda de sacolas recicláveis. E o consumidor? Como dizia o genial personagem do genial Chico Anysio, “o consumidor que se exploda!”. Voltando à preservação da Amazônia, assim como do Pantanal e da Mata Atlântica, é vital para a saúde do planeta darmos a ele condições de sobrevivência, sem as quais a raça humana também não conseguirá sobreviver. E deixar de lado a ganância mercadista, por ser iníqua, demagógica e imoral.

 

27. TRÊS PARA UMA

 

   Tínhamos mudado de São Paulo para o Rio e minha mulher estava em São Paulo, tentando a um só tempo aliviar-se da sua inadaptação ao Rio e matar saudades da família, amigos e ambiente.

  

  Talvez por isso, por estar sozinho, é que eu tenha topado ir ao cocktail de aniversário de um jornal carioca junto com alguns companheiros de trabalho; uns, amigos, outros apenas colegas.

 

   No cocktail encontrei um amigo amazonense que já havia morado em São Paulo e que acabou por se juntar à nossa turma. Por não ter pressa, pois não tinha aonde ir nem alguém me esperando, fui um dos últimos a sair, juntamente com o amazonense Ruy e o mineiro Renato, o que por si só já era um fato estranho: três moradores do Rio sem nenhum ser carioca.

 

   Não sei quem disse que a humanidade normalmente estava duas doses aquém, mas eu e os outros estávamos pelo menos duas doses além, e saímos à rua naquele estado de euforia meio sobre o melancólico, quando um deles, mais por dentro dos macetes cariocas, sugeriu darmos um pulo ao Convento de Santo Antônio, pois era véspera do santo casamenteiro e o negócio devia ser folclórico às pampas.

 

   E fomos. Havia uma escadaria imensa que levava à igreja no alto de um morro. E o que me espantou: apesar de ser quase dez da noite, tinha tanta gente e tanto movimento, que parecia liquidação ou véspera de Natal em loja de varejo.

 

   Descrentes os três, fomos para ver o espetáculo, o folclore e a exploração da fé, que se fazia em barracas que vendiam (caro!) pãezinhos, flâmulas, lírios, sei lá que mais. Chegamos até a entrar na igreja, nos deliciando com placas que diziam “é proibido cuspir”, “é proibido isto, aquilo etc.”.

 

   Na hora da bênção dos pães ou algo do gênero, me aproximei do grupo que estava perto do padre e até hoje, não sei se foi de propósito ou não, o desgraçado me borrifou a cara com o aspergedor.

 

   Lembro que disse baixinho um palavrão e me afastei para não levar outra borrifada na cara. E foi aí, no exato momento em que voltei uns três ou quatro passos, que a vi. Ela estava quase no fim da igreja, melhor vestida que a maioria dos crentes, e também afastada como quem foi apenas para observar. Estava de capa escura, luvas igualmente escuras e de longe aparentava estar aí pelos quarenta.

 

   Puxei o Ruy e o Renato e dei a ficha: vocês estão vendo o que eu vejo? Eles ainda não tinham visto mas dividiram comigo o espanto. E atiçaram: vai lá falar com ela, vê se descobre quem é.

 

   A curiosidade e as doses além venceram minha timidez – e fui. Perguntei se ela também era jornalista. Não, não era, mas era irmã de uma famosa colunista social e estava habituada a ser confundida com ela. Explicou-me que era pintora e que achava aquilo tudo muito “plástico”. Ou seja, tinha vindo pelos mesmos motivos que a gente.

 

   Chamei os amigos, fiz as apresentações e o papo continuou a quatro. Àquela altura, o folclore e a plasticidade já tinham dado lugar ao vazio, pois os fieis já estavam se mandando e nos mandamos também. Continuamos o programa indo a um restaurante baiano, onde a mistura de batida de maracujá, frigideira de siri e os whiskies anteriores não deu muito certo nem pra mim nem pro Ruy, mas o mineiro e a pintora continuaram atacando firme na cachaça pura, até que ela nos convidou para irmos ao seu ateliê, numa das avenidas centrais da cidade, ali pertinho.

 

   Fomos. Lá, o ritual de sempre, com a mostra de pinturas, comentários acadêmicos sobre escolas, influências, o diabo a quatro. Nessa hora já dava pra se ver, em sua residência-ateliê, que a moça estava fácil, fácil aí pelos cinquenta. Dava pra ver mais: que ela era meio lelé da cuca e que a solidão, como na música da Dolores Duran, estava acabando com ela. Ou talvez fosse ao contrário, a solidão é que a estava tornando meio lelé.

 

   A cachaça continuou rolando, era uma especial, vinda de um alambique de cidade do interior, mas meu fígado já não aguentava mais e eu ficava rodando o copo de uma mão para outra, quase nem

suportando o cheiro.

 

   O impressionante no quadro que formávamos era o olhar faminto da pintora. Eram olhos que desejavam, pediam, suplicavam, imploravam pela permanência de um de nós, ou talvez dos três. Renato era o seu preferido, ou o que se mostrava mais fácil de apanhar pela disposição física com que continuava entornando a cachaça, mas qualquer um de nós serviria.

 

   Acontece que, além da minha disposição para a fidelidade, ela não tinha os atrativos necessários. Naquele momento, o que meu corpo  mais queria era um Sonrisal.

 

   Volta e meia um de nós ameaçava querer levantar o acampamento geral e ela insistia na permanência. Mais uma dose? Querem que eu faça alguma coisa para comer? Não está se sentindo bem, quer um chá? E o tempo ia passando. Ela sentava, cruzava as pernas de modo a aparecer parte da coxa, sutilmente puxava a saia para cobrir o pedaço entrevisto, tornava a deixar aparecer, numa sucessão de mostra, deixa de mostrar, torna a mostrar.

 

   Até que finalmente decidimos mesmo ir embora, com ela fazendo questão de nos dar o telefone, dizendo para aparecermos sempre que quiséssemos, coisa e tal.

 

   Nos levou até o elevador, descemos, saímos à rua, demos aquela respirada de ar puro para apagar a fogueira e, sem que combinássemos, resolvemos olhar para o prédio.

 

   E ela estava na janela, acenando, acenando, provavelmente com uma lágrima teimando em rolar para o rosto, em nome da solidão de uma mulher que vivia numa cidade de quatro milhões de habitantes...

 

 

 
 
No começo dos anos oitenta, eu era editor do Jornal dos Publicitários, do Clube de Criação de São Paulo, e fiquei impressionado com a ausência de textos assinados por diretores de arte.
  
   O jornal era escrito quase totalmente por redatores, com uma pequena participação de matérias assinadas por profissionais de atendimento, de mídia e de pesquisa.
 
   Então resolvi publicar uma notinha cujo título dizia: “Diretor de arte não sabe escrever”. Como dizia o genial Stanislaw Ponte Preta: “Pra quê, Margarida, pra quê?”. O que recebi de telefonemas de diretores de arte reclamando foi um espanto. Mas, curiosamente, nenhuma reclamação veio por escrito e nenhum escrito foi recebido pela Redação do jornal.
 
   Na época, meu ex-parceiro na MPM, o diretor de arte Valdi Ercolani, estava morando em Paris, o que talvez explique a ausência de, pelo menos, um texto lavrado por um profissional das tintas, dos pincéis e das ideias criativas.
 
   Hoje, depois de algumas décadas de afastamento involuntário e graças à aproximação de nossos endereços eletrônicos feita pelo jornalista, publicitário e escritor Antônio Torres, acabei de ler, em primeira mão, o terceiro volume da saga do Inocêncio, de autoria do Valdi, com o título “Inocêncio e o início da jornada”.
 
   É um livro notável, em que o autor passa os conceitos e valores aprendidos com seu guru, o sábio avô Pietro, que ocupa o lugar do Velho Sábio na mitologia, com sua barba branca e seu conhecimento dos segredos do Cosmo e do significado da Vida, e prepara um jovem para ser guiado por ideais nobres e altruístas.
 
   Trata-se de um livro de autoajuda? Sim. No melhor sentido que se pode dar a essa expressão, uma autoajuda motivacional orientadora, que serve de bússola para jovens e adultos que estão buscando e ainda não acharam o seu rumo. E igualmente para aqueles que pretendem manter ou resgatar os ideais que foram deixados no caminho, sem no entanto perder o espírito empreendedor, além dos pais e educadores que procuram formar cidadãos íntegros e amorosos, devidamente ajustados à época em que vivemos.
 
   Embora a autoajuda motivacional domine o livro do Valdi, ele tem como pano de fundo uma verdadeira aula da história recente do Brasil, começando pelos acontecimentos políticos que antecederam o suicídio do presidente Getúlio Dornelles Vargas, em agosto de 1954, e depois a renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1961, com o consequente veto dos ministros militares à posse de Jango e em seguida a resistência legalista do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.
 
   Contribuíram para encorpar a obra do Valdi sua convivência com a família de Luiz Vicente Goulart de Macedo, sobrinho de João Goulart e de Leonel Brizola, em Porto Alegre; com Antônio Mafuz, que foi chefe de gabinete de Manoel Vargas, filho de Getúlio e secretário de Agricultura do então governador do Rio Grande do Sul, Ernesto Dornelles; e com Paulo Richer, engenheiro químico com curso de introdução à energia nuclear no Instituto de Energia Atômica da USP e estágio nos centros nucleares de Mol, na Bélgica, e Saclay, na França. Vieram dele algumas informações mencionadas no livro, pois Paulo Richer estava em Porto Alegre, convidado por Brizola para participar de um grupo de trabalho sobre energia elétrica e se encontrava no Palácio Piratini quando da renúncia de Jânio e durante os tumultuados dias e noites da resistência legalista liderada por Brizola, que asseguraram a posse de João Goulart na presidência.
 
   Valdi, gaúcho nascido numa colônia de pequenos agricultores perto de Jaguari, hoje Nova Esperança, viveu desde os vinte anos até quase seus quarenta anos no exterior, nos Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, França e Argélia, trabalhando como diretor de arte e roteirista de filmes, convivendo com povos de diferentes culturas, quando descobriu a existência de uma centelha divina que une cada ser humano de maneira idêntica, dando a ele uma visão realmente globalizada do ser humano, numa época em que ninguém nem sequer sonhava com a existência de algo parecido com a internet.
 
   E é essa vivência toda que Valdi derramou nas páginas de sua saga, começando pelos dois primeiros volumes e eclodindo com maturidade neste “Inocêncio e o início da jornada”, publicado pela Editora Selene e com lançamento em São Paulo no dia 1º de dezembro, na Livraria da Vila da Alameda Lorena. É livro que não se pode perder.
 
 
 

25. Minha primeira lição de Marketing

Quando eu tinha 12 anos, minha família e eu nos mudamos de São Paulo para uma cidadezinha encantadora e extremamente agradável, no Sul de Minas: Extrema, a antiga Santa Rita da Extrema, na fronteira de Minas com São Paulo.

   Os motivos foram vários, mas já naqueles anos cinquenta o fator preponderante foi a busca de uma melhor qualidade de vida, ar puro, contato com a natureza, consumo de alimentos e carnes sem agrotóxicos, hormônios, conservantes, o diabo a quatro.

   Por que Extrema?

Quando morávamos na rua Tobias Barreto, no bairro do Belém, um dos amigos da casa era o poeta popular e artesão de carimbos Jonas de Souza Moraes, nascido naquela  aprazível cidade mineira e que levou alguns dos meus irmãos mais velhos para lá passearem. Voltaram todos encantados com a cidadezinha e já fazendo planos de nos mudarmos no futuro para aquela terra plena de queijos, pingas e frutas colhidas no pé.

   Passaram-se alguns poucos anos, período em que nos mudamos para a rua Mesquita, próxima à avenida Lins de Vasconcelos, naquela zona de ninguém entre Cambuci, Aclimação e Vila Mariana e o plano ressurgiu com força, já então com o apoio entusiasmado de meu pai e de mim, que tínhamos ido passar as férias de janeiro por lá, nos hospedando no Hotel Fronteira.

   Lá visitamos a irmã, a mãe do Jonas e o cunhado, que era o coletor federal de impostos no município e nos convidaram para o almoço, quando tomei contato com a macarronada sem molho que acompanhava o frango. Olhei para o prato, com estranheza, em seguida olhei para o meu pai que me fez um sinal de sobrancelhas quase imperceptível para que eu comesse sem nada comentar ou reclamar e dei início à minha batalha particular, procurando encostar os fios de macarrão no frango, de modo a passar algum sabor para a massa, conseguindo levar a tarefa até o fim. É, naqueles anos cinquenta, pizza boa só tinha em São Paulo e macarronada com suculento molho de tomates era também um privilégio quase exclusivo de paulistas, sendo o hábito de comer macarrão sem molho um acompanhamento muito difundido em Minas e no Nordeste, até bem poucos anos atrás.

   Bem, o fato é que acabamos nos mudando para Extrema. Na época, a maior receita financeira da família vinha da lapidação de diamantes e da sua posterior comercialização. Depois de instalada a oficina, com suas bancadas e o torno, percebemos uma falha gravíssima no nosso planejamento: a energia elétrica, fornecida pela Cia. Bragantina, era bastante irregular, o que colocava em risco absoluto a proeza de lapidar as preciosas gemas, inviabilizando o ganha-pão da família.

   Ficamos então pensando em obter outras formas de receita, surgindo a captura de passarinhos como uma das alternativas, sendo as aves revendidas em São Paulo no Mercado Municipal, mas isso era insuficiente para alimentar os seis membros da família. Foi aí que decidimos montar o primeiro cinema da cidade, aproveitando um salão da prefeitura na praça central, onde uma ou duas vezes por ano se realizavam bailes. Meu pai conversou com o Seu Alfredo, o líder do PSD e “chefe político” do município e conseguiu que ocupássemos o salão para fazer um cinema. Também, naqueles tempos, o chefe político era quem mandava de fato na cidade, elegendo o prefeito e praticamente toda a bancada de vereadores. Sua vontade era soberana e ele fora convencido de que ter um cinema na cidade seria uma coisa boa.

   E começamos a passar filmes, dois diferentes por semana. Nas terças e quartas, um bang-bang era lei. E lá exibíamos os westerns de Rod Cameron, Hopalong Cassidy e outros mais. Já aos sábados e domingos era a vez de filmes mais sérios, comédias, romances. Porém (como dizia o Plínio Marcos sempre há um porém), a frequência de espectadores era muito pequena e a bilheteria não dava sequer pra pagar o aluguel dos filmes. Iam ao cinema algo em torno de seis pessoas às terças e quartas e oito a dez aos sábados, com uma ligeira queda no domingo, sendo os frequentadores a chamada nata da intelectualidade local: o prefeito, o presidente da Câmara, o farmacêutico, o rapaz da padaria que era aficionado por romances policiais, por aí, meia dúzia de gatos pingados.

   O cinema era uma diversão barata, equiparando-se a uma noitada na sinuca do Seu Bortolotti ou a umas cervejinhas no bar da praça, nada que desequilibrasse o orçamento de ninguém. E saímos a campo para investigar porque o pessoal não ia ao cinema, numa época em que a tevê engatinhava em São Paulo e cujas imagens não chegavam ao Sul de Minas, além de que o custo de um aparelho era algo astronômico (e inútil, no caso). E descobrimos. Descobrimos que, para o grosso da população, o cinema era tido como coisa do demônio e ir lá ver filmes era algo assim como estar em pecado.

   Foi aí que eu tive minha primeira aula de Marketing, numa época em que a própria palavra não existia nos meios publicitários e de vendas. Meu irmão Arnaldo, um gênio marqueteiro, disse: “Vamos fazer uma sessão com a renda todinha revertida para a Igreja, com o padre assistindo o filme”. Reynaldo, nosso irmão mais velho, tentou complementar a ideia, dizendo: Isso! Vamos passar “O Rei dos Reis” ou “A Vida de Cristo”, mas o Arnaldo atalhou: “Não! Aí vai parecer que cinema é só pra Semana Santa. Vamos passar uma história de amor, um romance, que é pro povo saber que cinema é pra ser visto sempre”.

   O padre, informado da ideia, concordou animadamente, foi marcado um sábado próximo e o filme escolhido foi “Casablanca”, naquela ocasião ainda longe de se transformar em um “cult movie”. Meu irmão Adelson, hoje pianista, maestro e compositor, desenhava muito bem e preparou cartazetes, feitos um a um e lá fui eu, levar alguns para o padre afixar na igreja e colocar outros em locais de movimento, como o bar da praça, a padaria, o açougue, informando que a renda reverteria toda para a Igreja de Santa Rita, ao mesmo tempo em que o pároco falava da sessão de cinema beneficente durante as missas. Foi um sucesso absoluto! Mais de 150 fieis abarrotaram o cinema, ficando boa parte de pé, com o vigário lá sentadinho, vendo o filme até o fim e, com sua presença, dando sua aprovação ao cinema.

   Daí em diante a frequência aumentou para cerca de 50, 60 ou 70 pessoas às terças e quartas-feiras e para 80 a 90 pessoas no final de semana, dependendo logicamente do atrativo do filme a ser exibido. O cinema deixara de ser “coisa do demônio”, uma vez que fora abençoado pelo pároco em pessoa!

   Foi, sem dúvida, minha primeira lição de Marketing.

 

 

24. A última impressão é a que fica

   Há pouco tempo meu filho Alexandre, depois de cinco anos e meio trabalhando em uma empresa de eventos, estava de saída para outro emprego.

   Acontece que, tal como costuma ocorrer nesta época do ano, a empresa onde ele ainda estava se encontrava lotada de jobs, obrigando-o a trabalhar no planejamento de diversos eventos, inclusive nos finais de semana. E ele fez isso numa boa. Por que? Em primeiro lugar, por respeito aos mais de cinco anos de atividades em comum, pelos laços de afetividade gerados durante anos e anos de convivência, por uma questão de caráter, enfim.

   O que me fez lembrar de episódio semelhante ocorrido comigo muitos anos antes, quando eu estava de saída da Norton Publicidade para a Grant Advertising.

   Depois de também exatos cinco anos e meio, eu havia saído da Standard Propaganda para a Norton, que era administrada de forma quase antagônica à da Standard. Se na Standard já se respiravam os ares da revolução criativa no Brasil e o ambiente era absolutamente descontraído e democrático, na Norton ainda imperava um esquema patriarcal e um tanto ditatorial.

   Foi, no meu modo de entender, o pior emprego que já tive, embora pleno de oportunidades profissionais.

   Pois bem, eu havia recebido uma proposta para trabalhar na Grant e estava cumprindo um período de aviso prévio na Norton, pouco antes do Carnaval, ocasião em que eu começaria na Grant, quando sou chamado à sala do José Alonso, irmão do Geraldo e o diretor de atendimento da agência.

   O Zé Alonso era uma figura temida na agência pelo seu temperamento explosivo e até um tanto mal educado e, honestamente, nossos santos, durante aquele quase um ano em que lá trabalhei não batiam. Era uma relação sempre em vias de um desentendimento, de uma beligerância vulcânica.

    Bem, o Zé Alonso me chamou pra dizer que eu precisaria trabalhar no sábado de Carnaval juntamente com o Laio Martins, do Rádio/TV, com um fotógrafo cujo nome eu não me lembro e com um rapaz da Mídia. Iríamos todos a uma engarrafadora de água mineral em Itapecerica da Serra, o Laio filmaria para um comercial e eu teria de escrever um texto para sair no Diário de S.Paulo no domingo de Carnaval, devidamente ilustrado com as fotos que faríamos.

   Ok, eu estava de viagem marcada para o Rio de Janeiro, juntamente com outros publicitários, entre eles o diretor de arte Sig Mascarenhas, em cuja casa ficaríamos hospedados no Rio enquanto a família iria para Minas, o também diretor de arte Jarbas José de Souza, os contatos Antônio José Pires e Osmar Machado, além do tráfego Armando Nicolau Griffo.

   Avisei os amigos que eu não poderia ir com eles na sexta-feira à noite para o Rio, de trem, conforme reservas feitas antecipadamente pois teria de trabalhar no sábado. Solidariamente todos se prontificaram a adiar a viagem para o sábado à noite.

   No sábado, às quinze para as oito horas da manhã, eu estava na porta da Norton, mas nenhum dos outros convocados pelo Zé Alonso havia chegado. Comprei um exemplar do Estadão e subi para a minha sala na Redação, onde fiquei lendo até chegar mais alguém, quando vi que já eram 08h10 e resolvi descer.

   Saí do elevador e dei de cara com o Zé Alonso, que me diz: “Caramba! Você tá saindo da Norton. Eu não sabia...”. Confirmei que estava demissionário, mas o tranquilizei e ainda disse a ele que podia dispensar o rapaz da Mídia que eu mesmo levaria a matéria e as fotos para o Diário de S.Paulo, o que fiz logo depois de voltar de Itapecerica e redigir a matéria, já no final da tarde.

   Coisa de um ano depois eu já havia saído da Grant para a Inter-Americana de Publicidade, que ficava na Rua São Vicente de Paulo próximo à Alameda Barros, quando trombo na calçada com o Zé Alonso que, ao me ver, me abraçou efusivamente, feliz da vida. Havíamos nos tornado grandes amigos!

   Por isso é que eu digo: o que fica não é a primeira impressão, é a última. É só você procurar lembrar dos relacionamentos amorosos que não deram certo, por exemplo. O que vem à nossa mente é o olhar rancoroso do ex-parceiro ou parceira, as palavras atiradas com ódio e desprezo, as mesquinharias.

   Até nos pequenos casos de relacionamento humano, como a visita que é festejada quando chega, procurando ajudar nas tarefas domésticas e depois nos submete à tortura de deixar a louça por lavar, o ralo do banheiro entupido de cabelos, a bagunça espalhada pela casa toda.

   Não tenho dúvidas: a última impressão é a que fica.

 

 

23.Otimização de campanhas dentro do Facebook

 
 

O Facebook, a maior rede social do mundo, com 25 milhões de usuários só no Brasil, dispõe de uma nova e inédita plataforma para planejamento publicitário, a ADTZ Ad Manager, trazida pela empresa hispano-brasileira ADTZ, o que permitirá  que o planejamento, compra e otimização em tempo real das campanhas na rede social possam ser feitas por meio de uma única plataforma.

 

   Profissionais de Mídia e Marketing, além dos próprios anunciantes, agora podem saber o que de fato acontece com seu investimento realizado em publicidade no Facebook com maior transparência e performance, melhorando assim a divulgação de suas marcas e FanPages dentro desta mídia social.

 

   Dentre os principais diferenciais da plataforma ADTZ Ad Manager, os experts em comunicação digital apontam os seguintes: 1) A tecnologia permite criar milhares de anúncios exclusivos e centenas de segmentações para dirigir cada anúncio a um determinado nicho específico. Como dizia meu mestre de Redação na ESPM, José Kfuri, o título de anúncio ideal para falar com o Sr. José Rolando da Silva é José Rolando da Silva. 2) Possibilita acesso “real time” a todas as atividades realizadas dentro do Facebook com controle diário de entrega, conversões, links, clicks, etc. Todas as métricas possíveis ficam disponíveis para a agência de publicidade e o anunciante, dando visibilidade rápida para gerar relatórios e tomar decisões. 3) Permite entender segmento a segmento o que está acontecendo com a campanha de propaganda, como cada um dos perfis selecionados está sendo impactado e como eles estão reagindo (por dia, por formato, por imagem, etc.). E toda a plataforma já está devidamente traduzida para o português. 4) Não é preciso ficar restrito a um CPC fixo, já que a ADTZ Ad Manager é a chamada “plataforma inteligente” que procura sempre otimizar seu investimento e entregar as peças aos perfis que melhor estão interagindo com a marca anunciada, consequentemente com um melhor valor de CPC (custo por cliente) ou CPM (custo por milheiro). Possibilita também criar combinações entre milhares de anúncios, permitindo assim uma melhor adequação da mensagem com a imagem escolhida e com o perfil que está sendo impactado, com essas operações sendo sempre mensuradas e devidamente otimizadas.

 

    O link para ver o vídeo dessa nova ferramenta da Web (versão em espanhol) é http://youtube/18ETgdhTcL8. Quem quiser navegar pelo site para conhecer mais detalhes deve acessar http://www.adtz.com/

 

    Pode também entrar em contato com a assessora de imprensa da ADTZ, Adriana Azevedo, pelo e-mail aazevedo@adtz.com ou pelos telefones (11)  8123-6768 e (21) 9503-8259.

 

 

 

                              

22. O paulistano é um pobre diabo

(foto:Avenida Paulista na década de 1920)

Todo paulistano é um pobre diabo. Não importa qual seja sua condição social.

   Se não estiver desempregado, vítima do realinhamento empregatício, o paulistano, em geral, trabalha muito, de dez a doze horas diárias. Aos sábados, domingos e feriados, trabalha também em seu micro doméstico, geralmente menos horas, mas trabalha, sem poder se afastar do trampo e de seus problemas. Sem direito àquela pausa necessária à manutenção de sua saúde física e mental.

   Aí chega o feriadão prolongado, quando o feriado legal, oficial, cai numa quinta ou numa terça-feira, dando ensejo à matança do dia que fica espremido entre o feriado propriamente dito e o fim de semana.

   Oba!, diz ou pensa o paulistano, desejoso de ir para a praia ou a montanha, louco de vontade de se desligar dos seus problemas diários. E se assim pensa, logo dá um jeito de reservar um hotel ou pousada na praia ou no campo ou resolve ir para a casa de praia ou de campo dele mesmo ou de um amigo ou parente.

   Aí começa a agonia dos infernos, pois o paulistano leva horas e mais horas para rodar os 100 ou 200 quilômetros que o separam das Shangrilás. Eu mesmo já levei um pouco mais de onze horas para ir até o Guarujá, num feriadão que juntava o feriado propriamente dito com o dia da eleição, pois imaginei que, se votasse bem cedo, poderia fazer a viagem para o litoral em apenas, digamos, duas ou três horas, o que já seria um absurdo de tempo.

   Bem, a alternativa para não enfrentar o trânsito lento e caótico é permanecer na cidade, certo? Errado, pois o caos está em toda parte. A cidade tem moradores demais, carros demais, ruas de menos e transporte público ridiculamente insuficiente.

   Digamos que o paulistano resolva botar a família no carro e ir almoçar num restaurante chinês na Praça da Liberdade, por exemplo. Lá, ele enfrentará uma espera de 30, 40, 50 ou mais minutos por uma mesa. E terá de deixar seu carro em um estacionamento na Avenida da Liberdade que lhe cobrará a bagatela de 15 reais por hora, ou 45 reais por um período de três horas, sem contar que, dependendo da marca do seu fonfon, a lampadinha da lanterna será devidamente surrupiada, já que o pobre paulistano foi obrigado a deixar a chave em poder dos manobristas, sem direito a chiar muito sob pena de arrumar confusão e ainda levar uns cascudos. “Ah, mas o paulistano pode dar queixa na delegacia do bairro!” - ha, ha, ha... fala sério!

   Ou então o paulistano resolve ir com a mulher e os filhos ao cinema, com toda a certeza num shopping, onde estão concentrados quase todos eles, pagando a bagatela de 18 a 30 reais por cabeça, além dos inevitáveis pacotões de pipocas na faixa dos dez a quinze reais, enfrentando, claro, as filas para comprar os ingressos e depois para ingressar na chamada sala de espetáculos.

   Se não ficar entalado no tráfego devido a uma enchente, aos faróis de trânsito enguiçados ou a outra catástrofe “natural”, o paulistano conseguirá terminar o feriadão ou o fim de semana relativamente incólume.

   Quando o paulistano depende do transporte público, o inferno não é menor, pois dependendo de onde ele trabalhe e de onde more, pode perder de duas a três horas para se deslocar de um ponto ao outro, convivendo com excesso de gente nos ônibus, vagões de trem ou do metrô e tendo de passar por autênticas faixas de Gaza em estações como Sé, Paraíso (que ironia!) e outras, onde precisará ficar espertíssimo com trombadinhas, trombadões e os sutis batedores de carteira (ainda existem esses artistas da larapice, acreditem). Se for mulher, a paulistana precisará também se defender dos bolinadores e safados que proliferam em ambientes superlotados.

    Dar caminhadas a pé, considerando-se o estado calamitoso das calçadas da cidade, é também uma aventura sujeita a riscos, só perdendo nesse quesito para os passeios de bicicleta, onde parece que o exercício predileto dos motoristas de automóveis é a caça às bikes.

   Enfim, ganhe pouco ou ganhe muito, more longe ou more perto do trabalho, sua excelência, O Paulistano, é um pobre diabo. E até mesmo aqueles que se deslocam de helicópteros são também pobres diabos, pois fogem do trânsito engarrafado mas podem ser vitimados nos arrastões em restaurantes e nos condomínios onde estão encastelados, sem falar da possibilidade de um sequestro de muitos dias ou meses.

   E a saída? Qual é a saída? Não sei, mas acho que não tem mais jeito. Jean-Paul Sartre já disse que “o inferno são os outros”. Acho que o inferno é a cidade e os perversos mecanismos que nos transformam todos em vítimas. Todos, sem exceção.

 

 

  
   Um fabricante de eletrodomésticos conseguiu a proeza de transformar sua marca em sinônimo de qualidade, ao criar uma campanha em que o tema central era dizer que o marido dela comprara uma geladeira que era boazinha, mas não era nenhuma Brastemp. E assim com os demais produtos da sua linha.
 
   Já um fabricante americano de gasolina e óleos combustíveis fez uma campanha que virou um clássico da comunicação, ao dizer com toda a franqueza algo como “Somos fabricantes de gasolina e óleos combustíveis e a cada motorista que morre em um desastre, para nós significa um consumidor a menos. Dirija com cuidado. Nós queremos que você viva”. O que lhe garantiu um significativo aumento no share of market.
 
   No Brasil, no final dos nos anos setenta, a Sanbra (hoje Bunge Alimentos) cogitava seriamente de tirar de sua linha de produção a margarina Mila, por não alcançar um patamar mínimo de vendas/lucratividade. Foi então que uma campanha associando Mila a uma vida saudável quintuplicou seu share, mantendo o produto em evidência ainda hoje, mais de trinta anos depois.
 
   A Gillette, que no Brasil detinha cerca de 97% do mercado de lâminas de barbear, em vez de batalhar para ganhar os 3% de outras marcas e dos barbeadores elétricos, chegou à conclusão que seria mais fácil e lucrativo aumentar a frequência com que os homens faziam a barba, especialmente nos meses de inverno, o que aumentou sua produção de lâminas em cerca de 30%.
 
   O queijo Gouda, que era preterido pelas donas de casa americanas em favor de outras marcas mais baratas, fez uma campanha que dizia coisas como: “Champagne custa mais do que cerveja. Caviar custa mais do que sardinha. O queijo Gouda custa mais do que outros queijos”. E finalizava com o conceito da campanha, em letras garrafais: “A vida é curta”.
 
   Estes são apenas alguns exemplos nacionais e internacionais de campanhas extremamente criativas – já a partir do Planejamento. Pois foi o Planejamento que conduziu à criação de peças memoráveis, impactantes, iluminando o caminho da Criação.
 
   E é este o modelo que deve ser seguido tanto pelo Planejamento quanto pela Criação, cumprindo o primeiro mandamento de uma comunicação de massa altamente eficaz: uma campanha só é boa o bastante quando não puder ser assinada por um produto concorrente.
 
   Um planejamento criativo é o primeiro passo para a criação de campanhas exclusivas, inesquecíveis, impactantes. Enfim, um Planejamento criativo é condição indispensável para uma Criação igualmente criativa.
 

 

20. Um cão uivando para a imortalidade

Antônio Torres é um dos candidatos à vaga deixada por Moacyr Scliar na Academia Brasileira de Letras. Segundo os entendidos nos meandros da ABL, Torres é, ao lado de Nerval Pereira, um dos favoritos a envergar o fardão dos imortais.

Na minha opinião, Nerval é um jornalista sério, estudioso e competente, mas falta a ele a chamada bagagem literária. Já Antônio Torres, ademais de suas qualidades pessoais e de caráter, tem uma farta bagagem de livros escritos, publicados e aplaudidos tanto pela crítica quanto pelo público, aqui e no exterior.

Desde sua primeira obra, à qual poderíamos sem exagero classificar de obra-prima, “Um cão uivando para a Lua”, de 1972, até seu livro mais recente, “Sobre pessoas”, de 2007, Torres mostrou ser, fundamentalmente, um escritor.

Um escritor talentoso, dominador de seu ofício, como em “Os homens dos pés redondos”, “Essa terra”, “Carta ao Bispo”, “Adeus, Velho”, “Balada da infância perdida”, “Um táxi para Viena d’Áustria”, “O centro de nossas desatenções”, “O cachorro e o lobo” (que recebeu o Prêmio Hors-Concours de Romance da União Brasileira de Escritores em 1998 e foi traduzido para o francês), “O circo no Brasil”, “Meninos, eu conto” (traduzido para o espanhol na Argentina, México, Uruguai), para o francês (no Canadá e na França), para o inglês (nos Estados Unidos) e ainda para o alemão e o búlgaro, além de ser incluído na antologia dos “100 melhores contos do século”, de Ítalo Moriconi, “Meu querido canibal”, “O nobre sequestrador”, “Pelo fundo da agulha” e “Minu, o gato azul”, uma delícia de livro infantil.

E o que espero que aconteça na ABL, em junho próximo, é o reconhecimento de que aos escritores de ofício se deve abrir o reino dos céus literários. Seria também o autorreconhecimento da Academia a um escritor por ela agraciado em 2000 com o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra.

Como a vaga em questão é a de Moacyr Scliar, não custa lembrar que Torres e Scliar se conheceram pessoalmente em 1985, num circuito de palestras pela Alemanha, sendo que foi numa viagem de trem de Colônia para Bielefeld que a amizade se consolidou. Segundo Torres, “fomos só nós dois no trem”. E acrescenta: “Já havíamos conversado em Frankfurt, mas foi tudo muito rápido. Depois daquela viagem para Bielefeld, ficamos amigos para sempre. No Brasil, costumávamos frequentar a casa um do outro entre o Rio e Porto Alegre. E o maior presente que ele me deixou foi seu artigo com o título “Meu querido Antônio Torres”, quando do lançamento do livro “Meu querido canibal”.

Bem. Desconhecedor dos rituais e cânones da Academia Brasileira de Letras, não sei se ao escrever este artigo estarei colaborando ou não para incrementar a candidatura de Torres à imortalidade, de vez que, se consultado fosse, meu amigo quase milenar Antônio Torres, por seu caráter e modéstia que beira a humildade, me impediria de fazer esta declaração pública de amizade e admiração por suas qualidades, tanto pessoais quanto literárias.

Que o Torres e, principalmente, os membros imortais da Academia me perdoem, mas em certas ocasiões calar seria, isso sim, inoportuno. Avante, imortais, façam justiça. Deem a Antônio Torres a cadeira de Moacyr Scliar que, certamente, onde quer que esteja, terá sua aprovação.

 

 

19. “Quem não se comunica, se trumbica.”

(Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”)

 

   As origens da comunicação se perdem na origem dos povos.

   Seres humanos das cavernas faziam pinturas em seus “lares”, com ilustrações de animais e objetos.

   Milênios depois, na Grécia e em Roma, agricultores identificavam os toneis em que guardavam seu vinho com o nome do proprietário das vinhas, numa operação que hoje é classificada como a primeira utilização de uma marca. Essas marcas primitivas passaram a dar fama a alguns vinhos, considerados de melhor qualidade do que outros, aumentando-lhes seu valor de troca por outros produtos agrícolas, notadamente o trigo e a cevada.

   Com o advento do cristianismo, a religião passou também a utilizar-se da comunicação, sendo os sinos um forte elemento no chamamento dos fieis para as missas e também para o toque de finados quando ocorria alguma morte, além de serem usados para anunciar a iminente chegada de guerreiros de outras nações, preparando as forças da localidade para rechaçarem os inimigos.

   A partir da revolução industrial, no século XVIII, os jornais passaram a estampar, ao lado de notícias e matérias diversas, anúncios comerciais, promovendo produtos os mais diversos, desde sabonetes a xaropes.

   No Brasil, os primeiros anúncios, publicados nos jornais do Rio de Janeiro, informavam da fuga de escravos e anunciavam recompensas pela sua captura.

   Por volta de 1850, a Loja da América e da China, na Rua Gonçalves Dias, no Rio de Janeiro, que sobreviveu até os anos oitenta do século passado, apresentou o que muitos consideram o primeiro anúncio de produto, um raticida, feito em um quadro a óleo e em cores, que se manteve exposto até o fechamento da loja.

   A era do rádio, na década de vinte do século passado, tornou a comunicação oral algo presente na maioria das casas brasileiras, dando início a nosso primeiro “star

system”, com locutores, humoristas e cantores e cantoras ganhando “status” de

celebridades, como Carmen Miranda, que transferiu-se para os Estados Unidos, onde se tornou, em Hollywood, a atriz mais bem paga nas décadas de quarenta e cinquenta.

   Com a chegada da TV, o Rádio foi forçado a se adaptar, passando a oferecer basicamente música e notícias, pois não podia competir com a mídia televisiva em entretenimento, shows, radionovelas e programas de auditório, mas ainda assim prosseguiu sendo um veículo de grande alcance.

   Hoje, com a internet, a TV está sofrendo sua primeira grande crise como veículo de comunicação e fatalmente deverá se adaptar, como o Rádio o fez, para não sucumbir.

   O mesmo procedimento de adaptabilidade deverá ocorrer com os veículos de comunicação impressos, pois tanto os jornais quanto as revistas começam a sentir os efeitos da perda do seu “poder imperial”, de vez que a população jovem perde e tende a perder cada vez mais o saudável hábito da leitura dessas publicações.

   Especialistas em comunicação proclamam abertamente que, hoje, a internet, no

 Brasil, já é o mais importante veículo de comunicação, repetindo o que já ocorreu em países de primeiro mundo.

   A internet veio para ficar mas não basta apenas nos utilizarmos do e-mail marketing e dos sites da própria empresa, sendo necessário um perfeito domínio dos blogs, dos sites noticiosos e das redes sociais como veículos de comunicação, pois, parafraseando o velho guerreiro Chacrinha, “quem não se adaptar vai se trumbicar.”

 

Referências bibliográficas: “Elementos de Propaganda”, de Caio Aurélio Domingues (Editora Ibrasa); “Mais vale o que você aprende do que aquilo que te ensinam”, de Alex Periscinoto (Editora Ágora); “Breve História das Religiões”, de Ambrosio Donini (Editora Brasiliense); sites Google, Webinsider e AdNews.

 

 

18. Os feriadões acabaram.

Que tal incrementar os negócios?

 

 

     A maneira mais eficaz e econômica de divulgar e promover uma empresa e seus produtos é através da utilização de um esquema de Assessoria de Imprensa que, segundo estudo realizado pela Anece - Associação Nacional de Empresas de Comunicação Empresarial, proporciona um retorno, em custos de mídia, de 9 a 40 vezes o valor investido nessa atividade. Em outras palavras: cada real aplicado em assessoria de imprensa gera uma centimetragem (em veículos impressos) ou uma secundagem (em veículos eletrônicos) até 40 vezes maior em custos de tabelas de preços dos veículos.

     E com uma vantagem adicional, pois se na publicidade a opinião de quem assina o anúncio é sempre suspeita, já que o patrocínio é do próprio anunciante, no caso de matérias editoriais consegue-se a transferência do prestígio da mídia, já que quem fala da empresa e de seus produtos e serviços é o próprio jornal, revista, canal de televisão, emissora de rádio ou o site da internet.

     Mas obter notícias grátis na mídia é apenas a parte visível do iceberg no trabalho de assessoria de imprensa, já que tão ou mais importante é a empresa de assessoria de imprensa estabelecer laços duradouros com seu cliente, de modo a criar um programa de comunicação com metas e objetivos a curto, médio e longo prazos.

     E é esse trabalho de autêntica parceria com sua empresa que uma boa empresa de assessoria de imprensa pode realizar. Consulte uma.

 

 

 

17. Jornalistas e publicitários bebiam do mesmo copo

 

  No final dos anos cinquenta e no início dos anos sessenta o Brasil viveu uma verdadeira revolução criativa em todos os setores: na arquitetura, no cinema, nas artes plásticas e, marcadamente, no jornalismo e na publicidade.

     Os profissionais de imprensa queriam fazer jornais tão bons quanto o Le Monde – e fizeram. Primeiro, o Jornal do Brasil, no Rio, e, alguns anos depois, o Jornal da Tarde, em São Paulo. Sem falarmos da Última Hora, no Rio, em São Paulo e em Porto Alegre.

     Publicitários também queriam fazer a sua revolução criativa – e também fizeram, sendo dessa época os primeiros anúncios descontraídos, que passavam a tratar o leitor de você, no lugar do caretíssimo vossa senhoria que imperava nos anúncios até então.

  A linguagem, tanto na imprensa quanto na propaganda, passava a ser basicamente substantiva, deixando-se os adjetivos de lado, assim como toda a linguagem rebuscada e pedante.

     Eram tempos de Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Henrique Pongetti, Raquel de Queiroz e outros tantos que escreviam com mão leve e o coração cheio de amor pelo leitor e leitora.

     Nos anúncios para jornais e revistas (a televisão ainda engatinhava, estando longe de ser o veículo de massa que se tornou nas décadas seguintes), destacavam-se as campanhas da Volkswagen, inspiradas na similar americana da DDB; do Nycron; da Sheaffer’s; do leite em pó Mococa (“Demora mais para se dissolver porque não contém substâncias estranhas”, em contraposição à campanha do leite instantâneo Glória); da Eucatex (“Forro é Eucatex”, que gerou quase tantos ‘filhotes’ quanto o “Life is short” do queijo Gouda); do Estadão; do creme de leite Vigor (que acabou ensinando a receita de strogonoff para milhares de donas de casa); das escovas de dente York (“Muitos furos melhor”); dos lenços de papel Yes (“Jogue fora o resfriado”), etc. etc. etc.

Eram tempos em que trabalhar na imprensa tinha um certo charme, mas recebia-se pouco. Só pra ter um termo de comparação: o maior salário de jornalista, naqueles anos dourados, era o do Nelson Gatto, dos Diários Associados, que ganhava 25 mil alguma coisa (não me pergunte qual era a moeda do país na época!) e eu, redator foca de propaganda, portanto iniciando a carreira, já recebia 20 mil alguma coisa, sendo que os grandes salários de redatores de propaganda andavam em torno dos 60, 70, 80 mil qualquer coisa.

     Ou seja: como trabalhar em propaganda era uma coisa ainda meio marginal, era preciso atrair talentos criativos na literatura, nas universidades e também na própria imprensa pagando-se salários relativamente altos.

     Bem, o fato é que, naqueles tempos, havia bastante união entre redatores de propaganda e redatores e repórteres dos jornais e revistas, talvez devido à ‘ponte’ exercida por ex-jornalistas que passaram a trabalhar nas agências de publicidade, gente como Franco Paulino, Antônio Torres, José Fontoura da Costa, Fernando Lemos, até profissionais mais velhos, como Mário Donato, Hernâni Donato (nenhum parentesco entre eles, afora a genialidade), Marcos Rey e Orígenes Lessa, por exemplo, de quem se contava deliciosa história ocorrida com o presidente da Gessy (antes de ser comprada pela Lever).

      Vale o desvio, porque a história é realmente saborosa. Dizem que o velho Francesco Milani, o presidente da Gessy, pediu que chamassem o Orígenes (pai do Ivan Lessa) e lhe encomendou um slogan que fosse tão bom quanto o das fechaduras La Fonte (“La Fonte: a fechadura que fecha e dura”), ficando de lhe dar como pagamento um carro zero quilômetro, americano, pois não tínhamos ainda indústria automobilística entre nós.

      De lá saiu nosso Orígenes queimando pestana noite após noite, caprichando no slogan do sabonete Gessy. Preparou coisa de cinquenta ou sessenta sugestões e voltou à presença do Comendatore Milani, que ouviu atentamente cada um dos slogans propostos, balançando sempre a cabeça negativamente.

      E assim foi, semana após semana e o Comendatore sempre insistindo: “Benne, é interessante. Mas não é a mesma coisa que “La Fonte, a fechadura que fecha e dura!”, insistia o signore Milani.

     Até que uma noite, já vendo o seu carro “voando”, o Orígenes Lessa chegou para a reunião dizendo: “Comendatore, finalmente achei o slogan que o senhor estava querendo. Fez uma pausa de suspense e declamou: “Gessy. O sabonete que sabo e nete!”. Mais não disse nem lhe foi perguntado...

      Mas, voltando aos anos sessenta, havia bastante união entre jornalistas e redatores de propaganda, tendo eu mesmo como companheiros de boemia, além de diversos publicitários, os jornalistas Esdras Passais, o Humberto (primo do Antônio Torres), o Carlos de Freitas (que já foi pro andar de cima), o Adones de Oliveira, o Albino, secretário da Última Hora, o Murilinho Felisberto, que também já foi pro andar de cima, o Bernardo Lerer e, um pouco mais distantes, o Audálio Dantas, o Carlos Azevedo, o Coelhão e tantos e tantos outros.

      Frequentávamos os mesmos botecos, bebíamos todos do mesmo copo, saíamos com as mesmas mulheres da noite, namorávamos muitas vezes as

mesmas moças “de família”, tínhamos o sonho de modificar as estruturas já injustas do nosso capitalismo selvagem, seja por meios pacíficos ou violentos (este o grande divisor de águas entre nós), enfim, sonhávamos com um país mais justo socialmente (ou menos injusto) em que democracia deixasse de ser uma palavra oca, vazia, para se tornar algo real, palpável.

       Hoje, o panorama mudou radicalmente, pois se trabalhar em propaganda é o sonho dourado de 9 entre 10 estudantes, trabalhar em jornalismo também se tornou melhor remunerado e ainda conservando um certo charme do passado. Assim, é raro haver uma comunhão entre uns e outros, caminhando cada grupo profissional de maneira independente e até, de certa forma, antagônica. Quanto a sonhos de transformação do país, tanto uns quanto outros de há muito já perderam o rumo.

      Onde está o norte? Onde está o norte?

      Estamos todos desnorteados, isso sim!

 

16. The Big Revelation ou O Competente Joca

Agência: J. W. Thompson
Cliente: SPASA – U.S. Top
Título do Jingle: Liberdade
Criação: Joaquim Gustavo Pereira Leite e Helga Miethke
Música: Sérgio Mineiro e Beto Rushel
Letra: Joaquim Gustavo P. Leite, Zé Pedro e Sérgio Mineiro
Produtora: Prova
Arranjo: Hareton Salvanini
Duração: 45″
Texto: “Liberdade é uma calça velha / Azul e desbotada / Que você pode usar / Do jeito que quiser / Não usa quem não quer / US Top / Desbota e perde o vinco / Denin Índigo Blue / US Top / Seu jeito de viver / Não usa quem não quer / US Top / Desbota e perde o vinco.”

Não sei exatamente quando conheci Joaquim Gustavo Pereira Leite, o famoso Joca, mas eu devia estar aí pelos meus 14 ou 15 anos e ele já era um cidadão casado, talvez até pai da Rita, sua única filha. Mas isso pouco importa, é o chamado detalhe irrelevante.

Trabalhávamos os dois na Standard, eu como auxiliar de contabilidade, ele como assistente do Rádio/TV, que era chefiado pelo compositor e jinglista Heitor Carillo.

Tínhamos grandes papos, onde eu evidenciava minha vontade de ser transferido para o Rádio/TV, o que nunca acabou acontecendo, mas essa é outra história.

Uma noite, dias antes da véspera de Natal, a Standard fez a sua tradicional festa de fim de ano, no próprio escritório da agência, no 25º andar do edifício do Banco do Estado, o Banespa. E aqui é necessário um flash back, para contar como era a então provinciana cidade de São Paulo, com seus aproximados 2 milhões de habitantes, um número inferior ao do Rio de Janeiro, que tinha uns 200 ou 300 mil habitantes a mais.

Pois bem, nessa São Paulo provinciana, quase tudo se resumia ao centro da cidade: cinemas, restaurantes e as grandes lojas como Casas Pernambucanas, Mesbla, Isnard, 3 Leões, Mappin, Clipper, Garbo, Exposição, os brinquedos da Casa São Nicolau etc. etc.

Nos dias próximos ao Natal o centro fervilhava de gente fazendo compras, tornando quase intransitáveis as principais ruas como a São Bento, Rua Direita e outras. Não havia trombadinhas nem trombadões e não passava pela cabeça de ninguém um assalto violento em plena rua – quando  muito havia o artístico e sutil “trabalho” dos batedores de carteira.

Pois bem, acabamos saindo juntos do coquetel da Standard, o Joca e eu, aí pelas oito da noite, justamente no auge de público nas lojas da Rua São Bento, batendo um descontraído papo natalino, quando subitamente o Joca agarrou a minha mão e começou a gritar: “Juvenal, eu te amo!”. Olhei para o Joca, tentando inutilmente livrar minha mão do seu aperto, quando ele deu novos gritos: “Tá vendo, tá vendo, ele agora quer me abandonar!”, o que provocou a abertura de uma clareira no meio da multidão, deixando-nos sós e sendo observados à distância pelos perplexos transeuntes. Isso, sempre é bom lembrar, na conservadora São Paulo do final dos anos cinquenta, começo dos anos sessenta.

Subitamente o Joca largou a minha mão, entrou numa das lojas e... sumiu! Só voltei a vê-lo após o Natal, na própria Standard.

Pouco depois o Joca foi para a TV Record, como assistente direto do Alfredinho de Carvalho e perdemos o contato.

Corta.

Anos depois eu já havia trabalhado como redator na Standard, na Norton e estava na Grant Advertising, onde fazia dupla com o Hans Haudenschild e, com Adelmo Pellegrini na Produção e Humberto Mendes na Mídia, todos sob a batuta do genial Jacques Lebois, formávamos um time muito esperto e inovador, quando cruzei com o Joca num coquetel de algum veículo e batemos um papo pra lá de divertido. Na ocasião, o Joca mostrou interesse em se tornar redator de propaganda, pois já estava um tanto cheio da Record e combinamos de eu ir à casa dele no domingo, levando o meu portfólio pra ele se familiarizar com os macetes da profissão.

Bem, no domingo, acabei esquecendo do encontro e depois fiquei sabendo que ele também havia se esquecido do combinado, coisa muito típica do Joca, que marcava dois ou três almoços para o mesmo dia e acabava não indo a nenhum.

Corta novamente.

Nos anos de ouro da Alcântara Machado eu estava por lá quando o Alex, que era também um “salvado” da Standard, contratou o Joca, que já chegou esmerilhando, botando pra quebrar, criando maravilhosos anúncios e comerciais e merecendo dos outros caras da criação o apelido de The Big Revelation, o que era uma sacanagem com os presumíveis dez anos a mais que ele teria da gente (a propósito, nunca consegui saber a idade do Joca).

Pouco antes, quando eu e o Federico Spitale estávamos na Itapetininga Propaganda, o Joca foi convidado pra trabalhar lá. Foi, viu, assuntou, enrolou e acabou não indo. Numa das noites em que o Joca esteve lá conversando, saímos juntos da agência e ficamos na porta do prédio, na Rua Xavier de Toledo, juntamente com o mui falado redator Paulo Azevedo, batendo papo, quando o sinal fechou e um caminhão de lixo parou bem na nossa frente. Numa precisão incrível de timing, o Joca preparou-se, sem que nenhum de nós percebêssemos sua intenção e, assim que o sinal abriu, pendurou-se na parte traseira do veículo e partiu, com a mesma cara imperturbável de jogador de pôquer...

Lembrei-me agora de uma história mais antiga do Joca, quando ele trabalhava na Multi Propaganda (uma agência da Interpublic/McCann, que depois virou Quadrant e depois fechou). A Multi ficava num palacete na Rua Albuquerque Lins e havia um ritual de visitação para clientes e prospects. Conhecedor do trajeto, o Joca ficou numa das salas do térreo batucando sua intimorata Olivetti 32, quando o diretor da agência entrou com o prospect, apresentou o Joca (“um de nossos brilhantes redatores”), saiu e, ato contínuo, o Joca pulou a janela e sentou-se na sala seguinte, batucando outra máquina de escrever. O diretor entrou com o prospect atrás, fez uma observação qualquer sobre o trabalho e, assim, sala após sala, o Joca foi pulando as janelas e prosseguiu escrevendo um impossível texto. Como a agência era um sobrado, a visitação continuou no andar de cima e terminava depois, num grand finale, com a exibição da portentosa piscina, que estava sempre “em reforma”, para justificar a ausência de água. E lá ficou o Joca, no fundo da piscina, em absoluto silêncio, aguardando o momento em que o prospect aparecesse, o que não demorou, para imediatamente começar a batucar o texto impossível.

Histórias como essa existem aos montes, como a do jantar da Thompson com a diretoria da Kodak, no restaurante francês do Maksoud Plaza, que estava um verdadeiro pé no saco para todos, o que levou o Joca, a certa altura, a levantar-se, sapatear como um êmulo de Fred Astaire e sentar-se novamente, como se tudo fosse plenamente normal.

Mas é no plano profissional que devemos todos nos lembrar do Joca, o criador de algumas das melhores peças publicitárias da Volkswagen, o criador da “boa idéia” da caninha 51, da virada criativa da Núcleo e o descobridor do grande talento que era o precocemente falecido Wagner Moraes, irmão do Fernando (“Chatô”) Moraes.

Pra encerrar, vou contar a história do Joca com o grande Campos de Carvalho, escritor de “O Púcaro Búlgaro”, “A Vaca de Nariz Sutil”, colaborador do Pasquim e otras cositas mais.

Eu estava morando no Rio, dirigindo a criação da Almap por lá, quando recebo um memo do Joca me pedindo pra marcar um encontro com o Campos de Carvalho, do qual se confessava admirador e, até certo ponto, seguidor. Depois de uma certa mão-de-obra para localizar o escritor, consegui falar com ele por telefone, explicar o pedido do Joca e marcar um encontro para o sábado seguinte.

Campos de Carvalho, tal como acontecia com Carlos Drummond, tinha um emprego absolutamente antiliterário, era funcionário público ou algo parecido. Pelo menos por telefone era um cara seco, sem grandes expansões e só depois de muita insistência havia concordado em marcar o encontro com um redator publicitário de São Paulo.

Bem, diante desse quadro, fica mais fácil de entender o “pepino” que o Joca me arrumou na sexta-feira à tarde, quando me comunicou que, pensando melhor, não estava no clima para encontrar o Campos de Carvalho e pediu para obter um adiamento.

Felizmente deu pra pegar o escritor ainda no trabalho e explicar, de alguma maneira, que o Joca não mais podia vir ao Rio naquela semana e obter um adiamento, a confirmar, para a semana seguinte.

Na semana seguinte, sob ameaça de fuzilamento sumário ou morte na cadeira elétrica, o Joca apareceu, chegando na madrugada de sábado no meu apartamento, onde conversamos um bocado, emborcamos quase uma garrafa de Joãozinho Andarilho (como o Joca gostava de chamar o Johnnie Walker) e fomos dormir, já que aí pelas onze horas ele iria encontrar o Campos de Carvalho.

Corta.

Sábado, finalmente. Joca sai pra encontrar o escritor de A Vaca de Nariz Sutil e volta aí pelas onze da noite, plena e completamente briaco, deita-se no sofá da sala e pede uma cerveja. Vou buscar e, quando volto, o Joca estava dormindo o sono dos justos e felizes.

No dia seguinte, pergunto: e aí, como foi o seu encontro com o Campos de Carvalho? E recebo em resposta uma obra-prima de síntese: foi bom. E nada mais disse, apesar de muito lhe ter sido perguntado. Coisas do estilo Joca, o inimitável.

Quem sabe, agora, numa sessão espírita, ele concorde em contar o encontro com mais detalhes, mas tenho sérias dúvidas a respeito.

15. A importância da continuidade

   Assessores de imprensa e publicitários certamente já se depararam, muitas vezes, com clientes que buscam desesperadamente resultados imediatos. Essa sofreguidão revela, logo de cara, um cliente mal informado quanto ao papel da comunicação de massa no marketing ou na política de relações públicas da empresa ou pessoa física.

   Pessoa física mal informada é, por exemplo, o candidato a um cargo eletivo que decide lançar mão da comunicação nos últimos dias da campanha eleitoral, crente que sua assessoria e sua agência de publicidade poderão operar o milagre de elegê-lo em algumas semanas ou meses, esquecendo-se de que a duração de uma campanha a vereador ou a deputado tem início ao começar sua vida de cidadão adulto e que precisaria de apoio profissional de comunicação, no mínimo, de dois a quatro anos antes do pleito.

   Outro tipo de cliente problemático é o profissional liberal, especialmente médicos e dentistas, padecedores quase todos do mesmo mal que acomete em geral os políticos: o açodamento na busca de resultados rápidos.

   Uma das coisas que procuro esclarecer a nossos prospects e novos clientes é a diferença entre assessoria de imprensa e a publicidade ou propaganda. Outro esclarecimento que faço também de imediato é sobre o volume da divulgação na mídia: como não sou dono nem herdeiro de veículo algum, não tenho como prometer a inserção de notícia em nenhum deles, do mais humilde jornal de bairro ao recordista de ibope na TV.

   Como complemento dessa informação, em tese restritiva ao nosso negócio (em termos, já que a honestidade é sempre a melhor política), acrescento que, mesmo que consigamos divulgar com rapidez e boa quantidade na mídia as peculiaridades do negócio do cliente, ainda assim não temos como garantir êxito comercial a seu empreendimento, uma vez que a assessoria de imprensa não substitui a publicidade. Nem vice-versa. São duas ferramentas distintas, cada uma eficaz em seu papel, desde que sejam bem manuseadas, isto é, trabalhadas com profissionalismo.

   A assessoria de imprensa é adequada para ajudar a divulgar a política empresarial do cliente, suas preocupações e comportamentos sociais, econômicos e ambientais, colaborando dessa forma para melhorar sua imagem de marca junto a seus clientes, possíveis clientes, formadores de opinião (aí incluída a própria imprensa), meios financeiros e governamentais. Não está comprometida em promover vendas, embora, na maioria das vezes, a divulgação correta acabe resultando em melhorias no marketing share.

   Já a publicidade ou propaganda tem por objetivo o estímulo à compra ou a promoção de vendas lato sensu, mas, dependendo dos meios e das mensagens utilizadas, colabora também para a formação e melhoria da imagem da empresa.

   Portanto, se você está inclinado a contratar uma assessoria de imprensa e/ou uma agência de propaganda para conseguir resultados milagrosamente rápidos, não o faça: é jogar dinheiro fora. Mas, se você pretende incorporar ao seu budget uma verba permanente de comunicação, visando obter efeito cumulativo com resultados a médio e a longo prazo, não perca mais tempo: contrate já a sua assessoria e a sua agência.

  Como costumamos dizer, a continuidade na comunicação é que é a verdadeira alma do negócio.

14. A revolução criativa no Brasil

 

No final dos anos 50 começou a gestação da revolução criativa que marcaria o Brasil na década seguinte.

Na política, a moralização dos costumes produziu um Jânio Quadros que, logo depois, em agosto de 1961, decepcionaria seus mais de 6 milhões de eleitores com uma renúncia até hoje nunca bem explicada, levando os militares a tentarem um golpe militar que foi adiado por quase três anos graças à determinação do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, a nossa Dolores Ibarruri. Brizola liderou o movimento legalista e não permitiu que o bloco militar passasse em 1961, dando posse ao vice de Jânio, João Goulart, o Jango, que foi finalmente deposto em 1º de abril de 1964.

Nós, civis, e o país como um todo, ganhamos assim quase mais três anos de efervescência criativa, liberdade e expressividade em todas as artes, na literatura, no teatro e no cinema, nas artes plásticas, na arquitetura, na música popular, no jornalismo e na publicidade.

Foram anos de tanto vigor criativo que atravessaram parte da ditadura militar e chegaram até o início dos anos setenta, sendo O Pasquim e os filmes de Glauber Rocha, por exemplo, alguns filhos da revolução criativa que nasceram já nos “anos de chumbo”.

A explosão criativa na sociedade

A música popular brasileira, no final dos anos cinquenta, começava a trilhar os caminhos que acabaram desembocando na bossa nova. Compositores como Dolores Duran, Billy Blanco, Johnny Alf, Edson Borges (o querido e também jinglista Passarinho), Maysa, Miguel Gustavo e tantos outros foram autores de diversos sucessos de público e de crítica que acabaram conduzindo nossa MPB para Vinicius, Tom, João Gilberto e muitos mais no movimento bossanovista.

No jornalismo, a entrada em cena da Última Hora no início da década de 50 terminou por gestar, anos depois, a revolução, verdadeira revolução que foi o Jornal do Brasil, até então um jornal quase só de classificados, que ocupavam até mesmo parte da sua primeira página, num sucedâneo caboclo e bem sucedido, em todas as acepções, do Le Monde francês. O que, também anos depois, acabou produzindo o também revolucionário Jornal da Tarde de Murilo Felisberto e companhia.

Brasília e a Pampulha, para ficarmos só em dois exemplos do gênio de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, mostraram a que vinham nossos arquitetos. Assim como no teatro, com o Arena e o Oficina e Gianfrancesco Guarnieri e Vianinha e Dias Gomes, etc.etc.  E o cinema novo, com Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos (nenhum parentesco entre eles, só a genialidade), Sérgio Ricardo (que, depois, destacou-se na MPB) e por aí afora.

Na literatura foi a vez de Vinicius de Moraes (sempre ele!) desembolorar a poesia pedante de supostos príncipes e reis do pedaço, com a descontração também presente nos versos de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho e muitos, mas muitos mais. Nas artes plásticas, foi o fim do quadro como expressão pictórica única, o que acabou nos levando a Ligia Pape, Rubens Gerchman, Hélio Oiticica e tantos mais que produziram objetos de arte e não mais apenas e tão somente o espaço de uma tela.

A publicidade reflete a sociedade

Como se sabe, a publicidade ou propaganda (entre nós tornaram-se sinônimos, ao contrário dos países de língua inglesa, por exemplo, que consideram a nossa propaganda como advertising e o termo publicity como algo próximo a notícia, assessoria de imprensa). Bem, voltando à vaca fria, a publicidade ou propaganda não exerce uma função modificadora da sociedade e muito menos do social. Ela é apenas um reflexo do que está por trás, das modificações que a mesma sociedade assume. Sendo assim, como um bom espelho, a propaganda brasileira, no final dos anos 50, passou também a associar-se às transformações que o país impunha.

É preciso, hoje, distantes quase meio século daqueles tempos, dar o devido crédito ao publicitário e jornalista Marcus Pereira, cuja coluna dominical no Estadão começou a mostrar a todos quantos militavam na área os anúncios que estavam fazendo lá, nos Estados Unidos, naquele início da revolução criativa.

Foi lá, na coluna do Marcus Pereira, simplesmente denominada Publicidade, que nós, a imensa maioria dos jovens aspirantes a oficiais da comunicação, tomamos conhecimento de alguns “clássicos” do advertising.

Como o anúncio da DDB para um fabricante de embalagens, ilustrado por um gato saindo de uma caixa e o título: “Quem tirou o gato pra fora da caixa?”, a propósito de anunciar um papelão que não tinha mais a aspereza até então comum às embalagens de papelão.

Ou, do magazine Orbach´s, o igualmente genial “Descobri o que há com a Joana”, que falava, em linguagem dúbia, de uma certa dona de casa que, apesar do marido não ganhar muito, estava sempre vestida na última moda. Claro, porque a Orbach´s vendia o bom e barato. A ilustração, coincidentemente, era também de uma gata de chapéu e piteira, como era costume naqueles anos dourados.

Ou ainda de um fabricante de lençóis coloridos (a galera atual não sabe, mas lençol, para as gerações que me antecederam, era sempre branco, nada de cores), com três garotinhos vestidos de fantasma, com o título “Os fantasminhas mais elegantes da cidade”.

Inter, Standard e Alcântara foram as pioneiras 

A divulgação que o Marcus fazia na sua coluna ajudou muito o Paulo Gorodetchi a vender revistas e anuários americanos de propaganda e influenciou em grande escala a propaganda brasileira, a começar da agência onde ele trabalhava no atendimento, a Inter-Americana de Publicidade, do Armando D´Almeida  (mais tarde incorporada pela Salles), dirigida em São Paulo por Carlos Knapp e tendo na criação o próprio Knapp e, em épocas diferentes, José Leão de Carvalho, Enio Mainardi, Harding Gimenez e, imodestamente, este locutor que vos fala, todos profissionais de primeiríssimo time, apoiados por diretores de arte igualmente de primeiro time, como Augusto Oliveira e Lelio di Pillo.

Além da Inter, a Standard (muito antes de virar Ogilvy), dirigida pelo genialíssimo e precocemente falecido em desastre aéreo Ivan Meira, também botava as manguinhas de fora, através do gênio de José Kfuri, um dos melhores professores que já tive na vida (e ainda dizem, burramente, que quem sabe faz, quem não sabe ensina!), redator sensacional, usava uma página dupla de revista, em cores, para o Extrato de Tomate Peixe, com três tomates lindamente fotografados em sequência por Chico Albuquerque, dizendo, com a maior simplicidade, em baixo de cada tomate, “Tomate é cor/ sabor/saúde”. Simples, direto, uma síntese de criatividade para aquele final dos anos cinqüenta, em que os anúncios ainda tratavam o leitor de V. Sa. ou de Sr. ou Sra., tanto assim que os próprios anúncios da inovadora campanha da Volkswagen hesitavam em adotar um tratamento menos cerimonioso, utilizando-se do eufemismo de abreviar você para v. – isso mesmo, até na campanha revolucionária da Volks substituía-se por v. a palavra você.

A “estufa” do Alex

Porém a agência que mais marcou a virada criativa da propaganda no Brasil foi, sem dúvida, a Almap ou Alcantara Machado, do boa praça Zé de Alcantara e do Alex Periscinoto, criadora das faladas campanhas da Volkswagen. Mas, talvez, o anúncio que mais representa a bossa nova na propaganda seja o das canetas Sheaffer para o dia da secretária, uma espécie de Desafinado para a nossa profissão. A ilustração era o rosto de um executivo, esculpido em madeira, com o título: “Com que cara você vai enfrentar a sua secretária no dia 30?”. O dia 30 do título se referia a 30 de setembro, o dia da secretária, instituído no Brasil pela Remington, na época líder do mercado de máquinas de escrever, hoje consideradas dinossauros por todo mundo. E o texto, provavelmente feito pelo Sérgio Toni, sugeria dar um conjunto de canetas para a fiel secreta. Ah, e a expressão cara de pau sobrevive até hoje, porém certamente sem a mesma força que tinha na época.

Mas a Alcantara não parou nesse anúncio de oportunidade, foi muito além. O Alex, munido de imensa cara de pau e sem na época falar picas de inglês, foi para Nova York visitar a DDB, onde, segundo ele contava, pedia desculpas para uma dupla de criação, sentava num canto da sala e ficava observando o trabalho dos caras, sem nem piscar os olhos e sem abrir a boca, of course. No final do período, pedia licença pra catar os roughs jogados no lixo, comparava com o produto final feito pela dupla e guardava tudo numa pasta. E assim ia fazendo com duplas diferentes.

Logo ao chegar à DDB, no primeiro dia, o Alex ia ao rádio/tv e encomendava uma cópia do rolo de comerciais, que já estavam prontinhos no dia da volta para o Brasil. Tudo isso, claro, com a aprovação do próprio William Bernbach, que se encantara com aquele publicitário exótico, vindo de um país mais exótico ainda.

Chegando aqui, o Alex reunia a tropa toda da criação, num sábado (!) que era pra ninguém perder dia de trampo, exibia os comerciais, fazia comentários, contava causos em cima de cada case e fazia o que ele chamava de “estufa”, para fazer florescer os talentos criativos. Graaaaaande Alex, você possibilitou antecipar nossos Neils, Fontouras e Washingtons em algumas décadas, ou no mínimo por diversos anos.

 

13. Experiência, tempo e algum talento

Tenho uma grande afinidade com os médicos. Sinto-me como um deles, especialmente quando sou abordado por amigos em uma reunião social com um pedido que já considero um clássico: “Você pode me dar uma ajuda para divulgar tal ou qual acontecimento?”.

   Nessas horas, gostaria de ter uma resposta tão boa como a de um médico, amigo e cliente, quando é abordado em uma festa, coquetel, jantar ou algo do gênero com o pedido de uma “consulta” sobre uma dor na coluna, um problema digestivo ou outro mal-estar qualquer: “Ok, mas primeiro dispa-se para que eu possa examiná-lo/a”, de efeito fulminante nas pretensões do consulente ou da consulente.

   Aracy de Almeida, nossa maior intérprete de Noel Rosa, também bolou uma resposta magnífica para os chatos que lhe pediam para cantar alguma coisa onde quer que ela estivesse: “Meu amigo, você quer que eu lhe dê de graça a única coisa que eu sei fazer?”.

   A atividade de assessor de imprensa ou consultor de comunicação sofre de algumas limitações, entre as quais o tempo físico disponível para exercê-la, já que o dia continua sendo de 24 horas para todos, por mais que algumas vezes gostaríamos de estender bastante essa duração.

   E o que dispõe um profissional ou uma assessoria de comunicação para vender a seus clientes?

   Pouca coisa, na verdade muito pouca coisa. Além do tempo físico, tem a experiência no trato de problemas de comunicação, adquirida em anos e anos de “solucionáticas” para as “problemáticas” de seus parceiros, como diz o talentoso e folclórico atacante Dario.

   E por falar no talentoso Dadá Maravilha, o profissional de comunicação e sua assessoria dispõem também de algum talento para aprender e apreender os problemas do cliente e depois ajudá-lo a resolver cada um deles, com maior ou menor maestria, dependendo de uma série de fatores que não cabe enumerar neste artigo.

   E é só.

   Portanto, tempo físico, experiência e algum talento é só do que dispõem um profissional e sua assessoria ou consultoria de comunicação. E pode crer: é o suficiente para iluminar o caminho de profissionais liberais, artistas e empresas de pequeno, médio ou grande porte. Como diz um velho slogan publicitário, “quem usa uma vez, fica freguês”.  Experimente.

 

12. Carlos Valverde: meu sócio no Clio Awards

Quando entrei na Standard Propaganda, levado pelas mãos de Nilo Leuenroth, diretor financeiro da agência e sogro do meu primo Roberto Azevedo, para ocupar a importantíssima função de office-boy, Carlos Valverde Corrêa já era assistente do departamento de Rádio/TV.

   A Standard ficava no 25º andar do edifício do Banco do Estado, o Banespa, e era um lugar de sonhos para um garoto de 14 anos, com plaquinhas nas portas que identificavam cada departamento: Media (assim mesmo, com a grafia inglesa), Rádio/TV, Arte, Produção, Contato, Secretaria, Contabilidade e a plaquinha que identificava o Olimpo - Diretoria.

   Nos poucos meses em que levei os pesadíssimos anúncios das lojas Exposição-Clipper para os jornais, carregando páginas duplas (cópias em chumbo dos clichês, que eram muito mais leves, porém mais caros, chamadas de estéreos) ou ia retirar as cartas enviadas para os programas de tevê para os sorteios dos biscoitos Duchen, eu ficava sonhando com o dia em que poderia trabalhar num daqueles locais privilegiados, como o Rádio/TV ou, sonho quase inacessível, a mágica Redação.

   Aos poucos, fui galgando posições, começando como arquivista na Contabilidade, passando depois para faturista auxiliar e depois faturista chefe, mas sempre sonhando com o dia em que eu poderia trabalhar num dos departamentos produtivos da agência. Vivia enchendo o saco do grande praça Nilo para que me transferisse de seção, até que arranquei uma promessa do “parceiro”, como ele costumava chamar todo mundo: quando eu conseguisse entrar para a ESPM, que tinha um vestibular muito procurado, ele autorizaria minha transferência.

   Se o peixe morre pela boca, o velho Nilo não perdeu por esperar, pois após levar pau na primeira tentativa, na segunda eu consegui entrar para a escola, o que me valeu a transferência para a mídia, meio a contragosto do chefe do departamento, o Ary Leuenroth, que teria preferido contratar um profissional experiente no mercado.

   Nesse meio tempo, meu amigo Carlos Valverde, primo do engraçadíssimo José Dias Valverde, da Contabilidade da Standard, havia saído da agência para trabalhar como chefe de mídia de outra agência, a Reclam, que ocupava um dos andares de um prédio na Rua João Adolfo, onde uma pequena editora dirigida por um argentino extrovertido dava início a uma das maiores empresas de comunicação do Brasil - a Editora Abril.

   Daí em diante perdemos um pouco o contato e, enquanto eu passei por várias agências de excelente nível criativo, como a Inter-Americana e a Alcântara Machado, o Valverde foi  para a Denison, fazendo atendimento de clientes (na época chamado de contato), entre eles a Huber-Warco do Brasil, fabricante de motoniveladoras, que logo o chamou para ocupar a gerência de propaganda da empresa.

   Alguns anos depois, vendo que, para uma agência de grande porte como era a Denison, a conta da Huber-Warco não recebia a atenção que deveria ter, o Valverde procurou meu sócio Harding Gimenez e entregou a conta para a HGP, onde eu fiz o atendimento e a criação por vários anos, com um trabalho realmente profissional, inclusive com duas viagens para conhecer as revendas, os clientes e algumas obras junto com o Valverde, uma delas para o Sul, desde São Paulo até Porto Alegre, passando por Curitiba, Londrina e Florianópolis e outra para o Centro-Oeste, desde Belo Horizonte até Goiânia, passando por Brasília.

   Essas viagens me tornaram um expert em propaganda técnica, praticamente mudando a feição da minha agência, a essa altura já denominada Usina de Propaganda, acarretando a conquista de diversas contas técnicas, como a Dynapac, onde conheci meu até hoje amigão Renato Carneiro, a Comac São Paulo e a Fiat-Allis, com o inesquecível Mário Fodor que, ao me ouvir dizer que ele trabalhava em excesso, me respondia, rindo: “trabalhar não mata ninguém”. Mas matou, a ele mesmo, com menos de quarenta anos, de enfarte fulminante.

   Bem, mas voltando a meus trabalhos para a Huber-Warco, graças à liberdade criativa que o Carlos Valverde proporcionava à agência e ao conhecimento acumulado em nossas viagens, acabamos por conquistar um Clio Awards para o melhor anúncio industrial do mundo, em 1974.

   A história por trás desse anúncio era bastante elucidativa. Quando a minha agência passou a atender a conta da Huber-Warco, ela detinha 40% do mercado de motoniveladoras, ficando quase 60% para a Caterpillar e algo em torno de 1 a 2% para a Malves. Alguns anos depois, a Huber-Warco passou a deter espantosos 70% do mercado, contra quase 30% para a Caterpillar.

   Então, o que fizemos? Bolei um título, que dizia o seguinte: “A liderança é um peso que não é fácil de carregar” e sugeri ao Ângelo Scavuzzo, um notável diretor de arte, que ilustrasse com um “cartoon” onde aparecia um homenzinho segurando um imenso balão, muito maior do que ele. Quer dizer, a pior coisa que pode acontecer a um líder de mercado é deixar de ser. Então é uma situação complicada, pois se a liderança é um peso agradável de carregar por um lado, por outro lado é desconfortável como um balão imenso que você não pode permitir que seja estourado pelo concorrente. Enfim, foi um anúncio perfeito e factual, que levou à conquista do mais importante prêmio internacional de publicidade.

   E quase repetimos a dose em 1978, com um anúncio que falava sobre a mais completa linha de motoniveladoras, que era a da Huber-Warco, com cinco modelos, contra os apenas dois modelos da Caterpillar.

   Fizemos uma foto com as cinco máquinas, lado a lado, e colocamos o título: “Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe”. E fizemos outra versão para a Argentina e outros países sul-americanos, com a linha famosa do River Plate: “Reyes, Moreno, Di Stefano, Labruna e Lostau”. A versão brasileira com a linha do Santos dos anos sessenta foi inscrita no Clio Awards e chegou à finalíssima. Precisava pagar a taxa de inscrição, mas nesse meio tempo eu saí da agência para dirigir a criação da Núcleo e ninguém se preocupou em pagar a taxa. Talvez tivéssemos ganho o prêmio máximo, mas no mínimo fomos finalistas.

   Esses prêmios e o excelente trabalho que fizemos para a Huber-Warco só foram possíveis de acontecer porque, do outro lado do balcão, estava um profissional de marketing com uma notável experiência publicitária em seu currículo. Um profissional que facilitou o aprendizado de uma agência de contas de consumo nas características peculiares do mercado de contas técnicas e também dando asas à criação despojada, inovadora, diria até revolucionária. Daí que considero muito justo dividir os prêmios que a Usina de Propaganda conquistou com o então gerente de propaganda da Huber-Warco, o meu amigo Carlos Valverde Corrêa, que há pouco tempo descobri ser também Sirvello. Ave, Carlos!

 

11. Meus longevos favoritos


Meu longevo favorito, na verdade, são dois.

Um deles é a notoriedade do momento, o renomadíssimo arquiteto Oscar Niemeyer, que recém acaba de ultrapassar a marca dos 102 anos em grande estilo: tomando champagne, fumando cigarrilha e trabalhando, com o entusiasmo de um adolescente, em obras simultâneas no Brasil, na Espanha, em Cuba (onde está projetando uma praça de 20 mil metros quadrados com um imenso monumento antiimperialista) e sei lá onde mais.

Niemeyer é casado com uma mulher ainda hoje belíssima, com menos quarenta anos de idade do que ele, o que talvez ajude a explicar seu entusiasmo e suas boas formas física e intelectual de semi-adolescente.

Meu outro longevo favorito é o José Martins, que conheci nos jantares promovidos pela Pensão Jundiaí e por seus anfitriões, a inesquecível Mariazinha Congílio e seu marido, o gentleman Geraldo Vidigal.
(foto: Família de José da Silva Martins, 1949)

A Pensão Jundiaí, que imagino desativada atualmente, reunia todos os meses, para um rega-bofe maravilhoso, escritores, jornalistas, alguns poucos publicitários, editores, livreiros, artistas plásticos, músicos, professores universitários, enfim, aquilo que os jornais de antigamente classificariam como “a nata da intelectualidade”.

Inadvertidamente, sem reunir méritos para me juntar a uma plêiade tão ilustre, e graças à cumplicidade do editor Leonídio Balbino, passei a ser convidado para esses jantares, onde bebia-se, comia-se, jogava-se conversa fora e, principalmente, nos divertíamos a valer.

Um dos frequentadores, e na verdade um de seus mentores intelectuais, era José Martins, pai do maestro João Carlos Martins, do jurista Ives Gandra da Silva Martins e de outros filhos igualmente talentosos, que, na época, já tinha completado 99 anos, com um vigor e uma disposição impressionantes. Para que a meia dúzia de leitores que acompanham os escritos deste escriba tenha idéia, num dos jantares fiquei à espreita, de tocaia, de olho no que o José Martins ia consumir. E como consumiu bonito!

Pra iniciar, mandou ver duas caipirinhas de pinga, claro, que caipirinha decente tem de ser feita com o precioso líquido da pura cana, sem frescuras, acompanhadas do bufê de aperitivos, que constava de coxinhas, empadinhas, croquetes de carne e de queijo, fatias de salame e de queijo. E, posso garantir, nenhum desses apetitosos itens deixou de ser degustado pelo homem em questão.

Depois, no jantar, atacou com alegria um alentado filé com fritas e tomou pelo menos duas taças de um honesto cabernet sauvignon – e não sei se mais tomou ou não, pois me distraí conversando com meu amigo de longa data, o escritor Hernâni Donato, que eu conheci ainda adolescente e ele já trintão, na verdade quase quarentão, quando trabalhávamos na Standard Propaganda, hoje Ogilvy.

Pra completar, José Martins cantava no coro da Pensão Jundiaí, cujo hino foi criado por seu filho João Carlos Martins, com diversos pitacos na letra dados pelo próprio José Martins. E como cantava bonito, afinado, sabendo de cor e salteado a letra toda do hino!

Se a memória não me engana, José Martins morreu tempos depois, já com 104 anos e com uma lucidez impressionante, ainda frequentando os jantares da Pensão Jundiaí com sua gana habitual. É o meu herói!

Outro longevo notável foi também Charles Chaplin, que se casou com a filha do escritor e dramaturgo Eugene O´Neil, a Oona, igualmente uma mulher belíssima, com quase 40 anos menos do que ele e com quem teve um monte de filhos, um deles já com Chaplin superando a marca de mais de oitenta anos, morrendo tempos depois, na Suíça, com 88 anos.

E, já que eu falei do Hernâni Donato logo acima, nada mais justo do que incluí-lo neste panteão de longevos admiráveis, pois Hernâni, do alto dos seus 87 anos, anda a pé de sua casa para o Instituto Histórico e Geográfico diariamente e mantém também uma disposição física e intelectual simplesmente digna de aplausos.

Viva nossos longevos notáveis! Esperamos chegar lá com o mesmo élan, a mesma garra, o mesmo amor pela vida. Ufa!

 

(*) Juvenal Azevedo é jornalista e diretor da Jac Assessoria de Imprensa e Comunicação. E-mail: adriejuva@uol.com.br

 

 

10. Histórias do Passarinho

ilustração de Lula Campos

Eu estava voltando a São Paulo para a Alcântara Machado, depois de ficar quase dois anos dirigindo a criação da filial do Rio de Janeiro. De mudança para um apartamento na Rua Bela Cintra, não me lembro mais como foi, só sei que o zelador do prédio acabou sabendo que eu trabalhava em propaganda e comentou comigo que havia outro publicitário no prédio, o “Sr. Edson”, que, honestamente, eu não sabia de quem se tratava.

   Preocupado com a instalação dos chuveiros, pedi ao zelador para que me arranjasse um eletricista e voltei para o apê, trombando com os carregadores da Lusitana, em meio ao caos que se instalara.

   O tempo foi passando e nada do raio do eletricista dar as caras, o que me fez descer de novo até a portaria para saber do zelador se ele havia me conseguido um, já que era quase noite. Encontrei o zelador no alto da escadaria que dava acesso ao prédio, onde ele conversava com um sujeito meio coroa, quase careca, vestido com um pulôver azul médio-quase claro, quando ele me disse:

-  “Este aqui é o rapaz de quem eu lhe falei”, o que prontamente me levou a responder: “Ah, o eletricista! Já estava ficando preocupado com a demora...”

   “Não, não, me disse o zelador. Este é seu colega, ele também trabalha em propaganda”.

   Desnecessário dizer que eu não sabia onde enfiar a cara e o tal “Sr. Edson”, gaguejando um pouco, explicou: “Meu nome é Edson Borges, mas todo mundo me conhece como Passarinho”. E realmente, embora eu não conhecesse o Passarinho pessoalmente, claro que já tinha ouvido falar dele.

   Me desculpei, mordendo a língua pra não fazer nenhuma piada, o que só contribuiria pra aumentar o desconforto da situação e conversei rapidamente com o Passarinho, que, pra completar, morava no mesmo andar que nós, no 6º andar.

   Apesar desse início de relacionamento francamente desastroso, o Passarinho tirou de letra a situação e acabamos ficando grandes amigos, mas grandes amigos mesmo, colaborando para isso o fato de minha mulher, a mulher dele e uma terceira vizinha do andar ficarem grávidas quase que ao mesmo tempo, sendo que as três, no embalo da cultura natureba dos anos setenta, pretendiam todas ter partos naturais.

   Como a Lúcia, mulher do Passarinho, foi a primeira a entrar em trabalho de parto, sofreu horrores durante mais de vinte horas e teve de acabar fazendo cesariana, e três dias depois era a data prevista para o nascimento do meu filho mais velho, na véspera procuramos a médica obstetra e decidimos optar direto pela cesariana, procedimento que repetimos depois com o nascimento dos nossos outros dois filhos.

   O Passarinho era daqueles caras que não parecem ser grande coisa, mas são. Com seu jeito absolutamente descompromissado de se vestir, com sua aparência de cantor de tango ou de bolero, com sua barriguinha saliente e sua baixa altura, era um cara que você olhava e não dava quase nada por ele.

   Aí você engatava um papo e ficava sabendo que boa parte dos jingles de sucesso no rádio e na tevê naquele momento eram criações dele. E mais: que ele tinha sido parceiro da saudosa e genial Dolores Duran em uma porrada de composições do mais alto nível. E que era um cara sempre bem informado, com boa leitura e bons conhecimentos gerais. Enfim, era um cara sensível, generoso, um cara “sensa”, como se costumava dizer naqueles anos de chumbo no Brasil.

   Uma das marcas mais notáveis do Passarinho era sua obstinação, a incapacidade de aceitar um não com facilidade, o que o levou a se tornar talvez o único publicitário pessoa física que fazia permutas com anunciantes já naquela época, aí incluindo-se os móveis da sala, dos quartos, da cozinha e também o berço do Marcus Vinicius e as roupinhas de bebê, estas através de uma troca de jingle com a Petistil. Esperto aquele Passarinho!

   Essa mesma obstinação fez com que ele conseguisse me arrancar da cama numa noite de sábado, logo depois de eu haver chegado de uma viagem de carro com um cliente, durante uma semana, visitando revendedores em Londrina, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, onde nos bateu um banzo e decidimos voltar direto dos pagos gaúchos a São Paulo, num total de umas 15 ou 16 horas de estrada, pra me fazer acompanhá-los a um restaurante espanhol na Rua Joly, no Brás, de início cambaleando de sono mas depois me recuperando com os vinhos, as sangrias, os tapas e os frutos do mar.

   No nosso apê e no apê do Passarinho costumavam rolar grandes noitadas de carteado, sendo buraco e pôquer os jogos mais comuns, e um dos freqüentadores habituais, além de grande número de publicitários, era o narrador de futebol Peirão de Castro, da TV Gazeta, que me ajudou a transformar a expressão “garfar” em sinônimo de roubar, falando-a em suas transmissões de jogos de futebol (fui eu que inventei isso, sim, assim como criei/adaptei o “falluto” do  lunfardo argentino para o nosso fajuto).

   Tempos depois do nascimento dos três meninos da Rua Bela Cintra, a mulher do Peirão também deu à luz outro menino, acontecimento que foi noticiado mais ou menos desta maneira pela dupla de narrador e comentarista que estavam transmitindo uma partida de futebol:

-        Ô Fulano, acabou de nascer o filho do Peirão! Ao que o narrador, meio distraído, comentou: “Pô, mas naquela idade o Perón ainda tá tendo filho!?”

-        Não, Fulano, não é o Perón, é o Peirão, o nosso amigo!

  O Passarinho já foi pro andar de cima faz alguns anos, onde certamente deve ter se encontrado com a Dolores Duran e reatado a dupla que tanta coisa boa criou aqui embaixo, mas a gente não liga não porque, mais dia ou menos dia vai se encontrar com eles pra ouvir, se deliciar e aplaudir. Evoé, Passarinho!

BOM NATAL, de Edson Borges

Quero ver
você não chorar
não olhar pra trás
nem se arrepender do que faz...

Quero ver
o amor vencer
mas se a dor nascer
você resistir e sorrir...

Se você
pode ser assim
tão enorme assim
eu vou crer...

Que o Natal existe
que ninguém é triste
e no mundo há sempre amor...

Bom Natal um Feliz Natal
muito Amor e Paz pra Você...
PRA VOCÊ.

 

 

9. A insatisfação sexual do brasileiro e o genérico do Viagra

 

   Pesquisa feita pelo Projeto Sexualidade, ligado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, com cidadãos de 18 a 50 anos, mostra que os homens brasileiros não estão satisfeitos sexualmente.

     A pesquisa teve como objetivo calcular o número de relações sexuais semanais e a quantidade dos que têm disfunção erétil. O ponto em comum de todos os entrevistados é o desejo de dobrar o número de relações.

     Segundo a pesquisa, há três tipos de disfunção erétil. A maioria dos pesquisados tem a do tipo leve, que é aquela que não impede a penetração mas atrapalha a intensidade da ereção. Em seguida, vem a disfunção erétil moderada, que ainda não impede a penetração mas aparece com mais regularidade. E por último surge a total incapacidade de ter ereção.

     Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do estudo, “a ereção completa é muito mais importante para o próprio homem do que para a  parceira, já que, para a maioria das mulheres, as famosas preliminares têm a mesma prioridade que a rigidez de um pênis”.

     Outra constatação da pesquisa é sobre o número de relações sexuais por encontro, sendo que a maior parte (63,3%) tem um único ato sexual em 24 horas. Do restante (36,7%), a maioria tem a segunda relação em até uma hora depois da primeira. Quase todos os entrevistados gostariam de poder aumentar o número de relações sexuais.

     Com a terapia de reposição hormonal, administrada sob prescrição e acompanhamento de um especialista em medicina sexual, homens próximos ou já na andropausa, podem aumentar seu índice de testosterona e, consequentemente, sua libido, podendo realizar seu desejo de melhores performances sexuais com suas parceiras.

     Os facilitadores de ereção como o Viagra também desempenham um papel importante quanto a aumentar não só o número de relações sexuais como ainda darem maior rigidez ao pênis durante a penetração e igualmente devem ser prescritos e contarem com acompanhamento médico.

     E deve ser saudado com entusiasmo o fim da patente das pílulas azuis, agora em 12 de junho, com a liberação de produção do seu genérico, que deve baratear muito o custo de cada comprimido, hoje em torno de 27 reais, ajudando a democratizar as relações sexuais para todas as idades, já que a disfunção erétil não é privilégio dos cidadãos da terceira idade.

     Bem fazem os milhões de brasileiros que querem aumentar o número de suas relações sexuais. Por que não? Afinal, sexo é vida. E sexo para todos deveria ser a bandeira de um partido político efetivamente voltado para uma melhor qualidade de vida dos brasileiros - e brasileiras, claro.

8. Camillo, o general francês e eu

 

   Vejo no Estadão a morte de Manoel Camillo de Oliveira Penna Filho, de quem fui colega na ESPM e companheiro de trabalho na Norton Publicidade, do Geraldão Alonso, que chamava todos os homens da agência de "pistoletas", mas essa é outra história.

 

   Camillo já era, naquele início dos anos sessenta, um respeitado profissional de atendimento e eu, um recém-saído da condição de redator foca em busca de voos mais altos em uma agência mais criativa e menos careta do que a Norton daqueles tempos. Havia, na agência do Geraldão, três grandes clientes e estes, por sua vez, tinham sua criação dividida entre os três redatores: a divisão de chocolates da Nestlé, com o Eduardo Riedel e o contato feito pelo Carlito Maia; a General Electric, com o Hugo Maia na criação e o Pierre Milos e o Luiz Celso de Piratininga no contato com o cliente; e a grande loja de varejo Serva Ribeiro, comigo na criação e o Camillo no atendimento, e com o Zé do Couto na chefia geral dos redatores que, ainda, trabalhavam num andar e os diretores de arte noutro andar como era habitual na época, mas essa também é outra história.

 

   Detalhe curioso é que o gerente de propaganda da Serva Ribeiro, o Reinaldo Zangrandi, também tinha sido nosso colega na ESPM, o que facilitava e muito o nosso trabalho de aprovação das peças publicitárias do cliente, que chegou a publicar alguns anúncios fora da normalidade varejeira daquele início dos anos sessenta.

 

   Um dia, voltando da Serva Ribeiro para a Norton, o Camillo me perguntou se eu toparia sair da Norton com ele para abrir uma agência. Se ainda hoje eu estou sempre disposto a encarar novidades, imagine então com apenas vinte anos no lombo e louco para criar coisas novas. Claro, respondi. E aí o Camillo contou a história do general francês.

 

   Não me lembro mais como o Camillo ficou conhecendo o general francês, cujo nome sumiu de minha memória para todo o sempre, mas esse era apenas um detalhe irrelevante para a compreensão da história.

 

   O Camillo conheceu esse general francês e por ele foi convidado a montar uma agência de propaganda, apresentando ao general uma planilha de custos e a recomendação de que seria preciso ter clientes que faturassem um X por ano para empatar os custos e, a partir daí, tudo mais que entrasse seria lucro.

 

   Só pra se ter uma ideia, o Camillo havia caprichado nos custos, tanto assim que eu, que naquela altura ganhava 16 mil qualquer coisa (como sempre, não dá pra saber qual era a moeda brasileira da época), estava na relação com um salário de 50 mil e assim por diante. E o general havia aprovado o plano do Camillo, sem nenhuma restrição, acrescentando a informação de que ele tinha um relacionamento capaz de arranjar clientes e garantir com folgas as necessidades mínimas para a sobrevivência da agência.

 

   E aí o Camillo marcou uma reunião com o general para me apresentar como o diretor de criação da agência, no escritório que ele ocupava no prédio da avenida Ipiranga esquina da Cásper Líbero.

 

   O escritório do general ocupava um andar inteiro daquele prédio imenso, com cerca de 15 ou 20 salas, mas além dele só estava no escritório uma secretária. Havia uma agência de turismo ocupando uma ou mais salas, mas os folhetos estavam cobertos de poeira, o que era no mínimo estranho. E, o mais estranho de tudo, num tempo em que uma linha de telefone era mais rara em São Paulo do que petróleo, o general dispunha de umas 15 ou mais linhas ali, entregues às moscas, com um PABX militar da segunda guerra para ele poder atender todas elas em sua própria mesa. Enfim, naquele andar imenso, a aparência das salas não utilizadas transmitia um ar sombrio, de abandono, de mistério meio de submundo, de uma certa ilegalidade de atividades.

 

   Por falar em segunda guerra, havia na parede atrás da sua escrivaninha, em destaque, uma foto dele com o general De Gaulle, tirada durante a guerra da Argélia, que ainda estava em pleno curso. Era um contraste interessante, ele e o De Gaulle, que era um homenzarrão imenso, já que o nosso general era mais baixo do que o Camillo e mais ou menos da minha altura, aí pelo seu metro e setenta.

 

   Durante a conversa conosco, o general falou de seus outros empreendimentos, entre os quais uma gráfica que poderia competir em qualidade, aqui no Brasil, com a Thomas de La Rue, da França, que era quem imprimia o dinheiro brasileiro e de outros países na época, deixando no ar perguntas que nem eu nem o Camillo ousamos fazer.

 

   Ao sairmos do prédio, o general se despediu de nós e entrou numa limusine preta, dirigida por um chofer oriental e ficamos de ter um novo encontro para dar início ao nosso empreendimento.

 

   Enfim, era uma empreitada pra dizer o mínimo estranha, de eventuais riscos, e nem eu nem o Camillo tivemos coragem de encarar o desafio. Combinamos fazer um silêncio digno de uma omertà siciliana a respeito do general francês e seus projetos - e cumprimos. Só hoje, lendo sobre a morte do querido Camillo, quase cinquenta anos depois, é que eu vim a me lembrar desse episódio. Ave, Camillo! Mais cedo ou mais tarde a gente vai poder relembrar essa história aí nas alturas.

 

7. Fundo de Garantia:

o fim da estabilidade emocional

 

   Até 1966 não havia o nefando instrumento patronal chamado Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, vigorando o regime da estabilidade empregatícia.

   Em outras palavras: em vez de depositar, mês a mês, 8% do salário de seu funcionário, a empresa teria de indenizá-lo se decidisse mandá-lo embora.

   Teria de pagar um salário mensal por ano trabalhado, até dez anos de casa. A partir de dez anos o funcionário adquiria o direito à estabilidade no emprego, não podendo mais ser mandado embora. Quer dizer, poder mandar embora podia, mas só por um motivo grave e pagando no mínimo dois salários por ano de casa.

   Ou seja: antes de mandar algum funcionário embora, as empresas tinham de pensar muito, pois a despesa era alta, muito alta. Então, antes de demitir um funcionário como quem troca de cueca, a empresa tentava outras soluções, principalmente as transferências de seção (no caso de uma incompatibilidade entre o funcionário e seu chefe) e até de cidade, quando havia filiais.

   Resultado: raramente alguém era mandado embora, e quando isso acontecia era realmente por um motivo sério e não por mero capricho ou simplesmente para diminuir a despesa nos meses seguintes, tornando a preencher a vaga quando voltasse a época das vacas gordas.

   Outro resultado, e esse ainda mais importante, era que havia estabilidade emocional tanto para os empregados quanto para o empregador.

   Este sabia que poderia contar com sua equipe durante anos e anos, sem necessidade de efetuar trocas e ter de treinar outros funcionários para exercer as mesmas funções. E os trabalhadores sabiam que seu emprego estava garantido, sendo essa garantia tanto maior quanto mais numerosos fossem seus anos de casa.

   Essa convivência, durante anos e anos, aprofundava os laços de amizade tanto entre funcionários quanto destes em relação às chefias e patrões. Era muito raro alguém puxar o tapete de outro. E, se isso ocorresse, o puxador ficava mal visto perante os colegas, obrigando-o até a ter de procurar um novo emprego.

   Havia ética entre colegas. Havia ética entre trabalhadores e patrões. E, mais do que estabilidade empregatícia, havia estabilidade emocional, a certeza de que dali a um mês, dali a um ano e provavelmente dali a vários anos estariam todos juntos, fazendo o trabalho render mais e a empresa crescer, pois no final de cada ano havia ainda o bônus de Natal.

   Sim, caros leitores e leitoras, o 13º salário não era obrigatório e cada empresa, dependendo do resultado alcançado durante aquele ano, dava um abono de Natal que variava de meio salário a dois salários para cada funcionário.

   Claro que aqueles que “davam o sangue” pela empresa ganhavam mais do que outros, e claro que se a empresa tivesse tido um “ano bom”, a generosidade patronal era maior.

   Uma eventual demissão antes do advento do Fundo de Garantia era fato tão raro que, quando ocorria, criava um clima de constrangimento na empresa, um ar de velório, contrastando com os dias de hoje, quando uma demissão individual e mesmo de um grupo já não escandaliza nem choca mais ninguém.

   Enfim, o fato é que o FGTS, ou Fundo de Garantia, acabou com um dos bens mais preciosos que a sociedade já teve, que era a estabilidade emocional, a referência de cada um em relação ao universo e a seu futuro como cidadão, ficando todos nós à mercê do capitalismo selvagem. E cada vez mais selvagem.

 

6. PROCURA O INGMAR!

 


 
Em 1979 (caraca! já se passaram 31 anos!), eu dirigia a criação da Núcleo juntamente com minha dupla, o Luís Di Nallo e íamos para a Suécia acompanhar a filmagem de um comercial da margarina Mila. (ilustração: anúncio Mila 1979)
  

    Vale um longo parêntese para explicar o porquê de produzirmos um comercial brasileiro na Suécia.
 

   Inicialmente, o briefing que recebemos da Sanbra era no sentido de fazermos uma campanha nas mesmas águas da campanha da concorrente margarina Becel, que dizia aquelas coisas sobre o coração etcétera e tal, quase chegando ao ponto do consumidor ter de pedir receita médica para consumi-la.
  

   Foi então que, trocando idéias com o Carlos Edo, diretor de planejamento e atendimento da agência, chegamos à conclusão de que, naquele estágio de mercado (31 anos atrás, não se esqueçam!) posicionar Mila quase como remédio seria dar a extrema-unção para o produto.


   Por sinal, Mila, que antes era atendida por outra agência, já estava na marca do pênalti, pois suas vendas estavam abaixo de 80 mil toneladas, ou mega-toneladas ou sei lá o quê e, se não passasse com a nova campanha para um patamar próximo a 150 toneladas etc. etc., seria descontinuada pela Sanbra.


   Bem. Um dia, quando eu saio com o Di Nallo para almoçar e lembro bem da comida pois era uma quarta-feira e fomos comer feijoada num restaurante ao lado do francês Freddy, enquanto mandávamos ver uma caipirinha como manda o figurino, tive um insight e disse: “Cara! Matei a campanha da Mila!”.


   Com aquele jeitão de gozador portenho, o Di Nallo olhou pra mim e perguntou como era a matada. E então eu expliquei: “Saca os vegetarianos e os naturistas, esse povo exótico que ninguém leva muito a sério, mas respeita os pontos de vista deles, essa coisa de vida saudável, natureba?”. “Pois é”, continuei, “nós vamos fazer a campanha numa colônia nudista, onde os caras só comem frutas, verduras, pão integral e, naturalmente, margarina Mila, pois Mila faz parte de uma vida saudável”.


    Os olhinhos do gringo brilharam e, terminado o rango, voltamos para a agência e contamos a idéia pro Carlos Edo, que imediatamente sacou o potencial da campanha e chamou um dos seus sócios, o Federico, que não era do ramo mas tinha bom senso, o Otto da Mídia, o Leonardo da Produção e o Vasco, o indefectível Luiz Gonzaga Vasconcellos, do Atendimento e contou a idéia. Só que, na transcrição, o Carlos incluiu um detalhe que só eu, quando criei a campanha, tinha imaginado diferente, e passou a informação de que os modelos seriam crianças (confesso que, na minha cabeça, os modelos seriam quase todos adultos), o que me levou a me “fechar em copas”, como se costuma dizer, sem que, no entanto, eu tenha encontrado alguém que saiba explicar a origem dessa misteriosa expressão.


   Essa mudança, de resto, nos ajudou a agradar gregos e troianos, como o próprio Federico Bom Senso e passaram todos a aplaudir a solução criativa.


   E assim foi feito. Escrevi os dois roteiros, um com crianças rolando na neve, para ser filmado fora do Brasil, obviamente, e outro com ambientação tropical, em meio à vegetação e clima bem brasileiros, que acabou sendo filmado no Guarujá.


   Em seguida o Carlos pediu para o Sérgio Mendes, da Sanbra, vir à agência e apresentamos os roteiros datilografados, em papel rascunho, do jeito que eu havia feito e o Sérgio, grande sacador, logo de cara aprovou a campanha. E nos deu uma dica para facilitar a aprovação: “Olha, é claro que o comercial pra ser filmado aqui vai custar menos, bem menos que o outro. Mas peçam pra produtora “carregar” no comercial do Brasil, de modo a que a diferença não seja espantosa e me facilite as coisas lá dentro na hora de obter a aprovação”. E se assim disse, assim fizemos.


   Orçamos os comerciais com três produtoras, como é costume, embora sabendo que deveríamos filmar com a Interteam, do Klaus e do Michel Saloutti. E aí foi a primeira surpresa: veio da Interteam de Hamburgo o outro Klaus, o Klaus Kroll, que trouxe fotografias do “cast”, todas de crianças suecas e nos explicou: “Este comercial só poderá ser feito na Suécia ou na Finlândia, onde as crianças estão acostumadas a fazer sauna e depois rolar na neve”. E
continuou: “Se filmarmos em outro país, as crianças correm o risco de pegar pneumonia”. E nós, ingênuos, que havíamos imaginado poder filmar na Argentina ou no Chile...


   Dias antes de embarcarmos para a Suécia, esteve na agência o grande fotógrafo, diretor de fotografia de cinema e grande restaurater Ezio Vitale (ah, que saudade do seu restaurante Il Rugantino, na Rua Oscar Freire!), que, entre outras proezas, conseguira ser excomungado pelo Papa, creio que o Paulo VI, por ter publicado matéria num jornal romano, com fotos de uma donna  teúda e manteúda pelo Vaticano, a quem lhe compraram uma clínica, com a manchete: “La moglie del Papa se chiama Paschoalina” (eu vi o jornal, meninos, eu vi!).


   Aí, papo vai, papo vem, eu conto pro Ezio que estávamos indo pra Suécia e perguntei: Você, que trabalhou tantos anos na Cinecittà (a Hollywood da Itália), não tem nenhum amigo morando na Suécia pra gente procurar e pedir umas dicas de lá?


   O Ezio me olha e diz: “Mas, claro, procura o Ingmar e fala que você é meu amigo, tenho certeza que ele vai te tratar muito bem”. E eu digo, Ingmar? Ingmar do quê? Me dá o endereço dele”. E o Ezio, definitivo: Ingmar Bergman, claro! E lá todo mundo sabe onde ele mora!

   Corta.

   Claro que eu não tive coragem de procurar “o Ingmar”, mesmo acreditando que o Ezio já tivesse trabalhado com ele em filmagens na Cinecittà. Porque, aí, eu fiquei pensando: Mas que catzo eu vou falar com ele? Vou chegar e dizer: “Gosto muito dos seus filmes”? Qual o quê, não vai rolar papo.


   Corta novamente.

   Quatro ou cinco anos depois eu estava na Lintas, lendo a Folha ou o Jornal da Tarde, não me lembro mais qual deles, quando vejo, na capa da Ilustrada ou do Divirta-se, matéria de página inteira com o Ingmar Bergman, onde ele fala dos seus filmes e dos caras que trabalharam com ele: roteirista e diretor de fotografia, principalmente. E estava lá “o Ingmar” falando de um diretor de fotografia sueco, que trabalhou em vários dos seus filmes e também do Ezio Vitale, com quem ele havia trabalhado em alguns outros filmes. Pois é, se eu sempre tivera um pouco de dúvidas com relação à amizade dele com o Ezio, essas dúvidas acabaram ali. Ou seja: eu podia perfeitamente ter procurado “o Ingmar”...


   Encerrando o assunto Mila, a campanha foi pro ar e, menos de uma semana depois, o Sérgio Mendes pede pra Núcleo suspender a veiculação.

   Mila, que pra não ser tirada de linha precisava atingir o patamar de 150 mil toneladas ou mega-toneladas, sei lá, em menos de duas semanas na mídia atingira a marca de 450 mil-sei-lá-das-quantas, dando um nó na linha de produção da Sanbra.

   Em 1989, portanto dez anos depois, eu estava na Enio e vou almoçar com a Maria Inês, gerente de produto da Cica que havia recém-saído da Sanbra e, durante o papo no almoço, quando soube que eu havia trabalhado na Núcleo, me conta que na Sanbra tinham cogitado de veicular novamente os filmes da Mila, mas que eles  haviam desistido diante da dificuldade de localizar os modelos (àquela altura já não mais crianças) para obter autorização. E contou ainda que, na pesquisa encomendada pela empresa, a campanha da Mila, apesar de ter sido veiculada durante pouquíssimo tempo e de estar fora do ar há dez anos, ainda era a mais lembrada no segmento de margarinas. Um espanto!

   Portanto, cada coroa sueca que a Sanbra me patrocinou em caviar russo, aquavit dinamarquesa, vinhos franceses e filés de rena, lá na terra dos vikings, foi muito bem empregada, mesmo porque Mila ainda está por aí, com uma brand image  firme e forte.

5. Sobre Ternos Cor-de-Rosa

A força da Revolução Criativa no Brasil no começo dos anos sessenta foi tanta e seus efeitos tão duradouros que, no final da década e no começo dos anos setenta, seus efeitos ainda continuavam firmes e fortes.

     E isso acabou se manifestando também  nas roupas que os publicitários (especialmente o pessoal da criação) vestiam.

Washington Olivetto, que em recente entrevista ao editor do portal Jornalirismo, Guilherme Azevedo, falou que usava cabelos longos e camiseta regata em pleno governo Médici, já tinha pego a “revolução da roupa dos criativos” em pleno andamento, uma vez que, de uma hora para outra, como se fosse uma combinação orquestrada (e garanto que não foi), subitamente quase todos os redatores e diretores de arte (a exceção ficava por conta de caras como o Hans Dammann, criativo no trabalho mas um conservador em quase tudo mais) passaram a abolir o tradicional terno e gravata, substituindo-os por jeans ou calças de modelo mais esportivo e camisas igualmente esportivas, sendo o jacarezinho da Polo um campeão de audiência.

     Foi provavelmente uma influência trazida pelo Pasquim, que influenciou também a linguagem em nosso advertising, que já era também muito influenciada pelo Sérgio Porto, o admirável Stanislaw Ponte Preta.

     Nesse contexto de anticonformismo que se vivia naquele período negro dos anos de chumbo, usava-se também a vestimenta como forma, digamos, de protesto, e eu, como tantos outros criativos, cheguei até a mandar fazer um terno cor-de-rosa, que devo ter usado três ou quatro vezes no máximo: numa entrega de prêmios do Clio, idem do Prêmio Colunistas e na inauguração da nova fábrica da Dynapac, um cliente sueco cujo diretor comercial, apesar de ser também da terra dos vikings, era bastante conservador e minha intenção foi chocá-lo, porque ele havia cometido a ousadia de me pedir para ir à cerimônia de inauguração de terno. E eu, com minha cara mais inocente e o cabelo com o comprimento na altura dos ombros, lhe disse que iria mandar fazer um terno especialmente para aquela ocasião. O que fez o sueco erguer as sobrancelhas, certamente temendo pelo que viria.

     E não deu outra: na presença do ministro dos Transportes e de outras autoridades, entre as quais o comandante do II Exército, que era sediado em São Paulo, naquele mar de ternos azuis e cinza-chumbo, o meu terno cor-de-rosa se destacava, brilhava, berrava, levando o ministro dos Transportes, cujo nome creio que nunca fiquei sabendo, a não conseguir deixar de me fitar durante praticamente todo o seu discurso. O homem dizia duas ou três palavras, circunavegava o olhar pelo salão mas logo voltava a me fitar. Era um ponto de atração irresistível...

     Bem, mas o uso da vestimenta como um ajudante demolidor de costumes caretas tinha evidentemente uma contrapartida no campo político, onde nos comportávamos de maneira politicamente correta, abraçando as causas da anistia e a participação em episódios negros da nossa história, como foi o caso da tortura e assassinato do Vladimir Herzog pelas forças repressivas da ditadura, que teve o anúncio da missa ecumênica na Catedral da Sé feito em nome do Clube de Criação de São Paulo com o nome de outras entidades apoiadoras, como a Congregação Israelita, a OAB, o Sindicato dos Jornalistas etc. etc.

     Foi ainda o Clube de Criação a primeira entidade a apoiar a anistia aos exilados políticos e depois a condenar os atentados a bancas de jornais que vendiam publicações de oposição ao governo e ao episódio das bombas do Riocentro, em anúncios que, se não tinham excepcional brilho criativo, tinham uma mensagem clara de defesa dos ideais democráticos.

     Bem, nossos cabelos longos, nossas roupas extravagantes, tinham não apenas a intenção de chocar, como se dizia, “pour épater les bourgeois”, mas eram o complemento de uma rebeldia que usava os recursos que nos eram permitidos para podermos participar politicamente numa época de forte e armada repressão policial.                                           

     Aos anos de chumbo contrapúnhamos o amor, o sorriso e a flor. Principalmente o sorriso.

(fotos editora abril: quatro décadas depois, Brad Pitt Chega a Cannes, imitando o Juvenal...kkkk...)

 

4. Este Rio que Eu Amo

   Minhas ligações com o Rio de Janeiro são profundas e passam pelo túnel do tempo.

   Na primeira vez eu tinha onze anos, quando, com meu irmão Arnaldo e seu amigo Walter Junghans, fomos de carro – um Ford Vedette.

   Lá, eu acompanhava meu irmão em suas andanças de trabalho no centro velho da cidade, pelas ruas 7 de Setembro, Ouvidor, Gonçalves Dias, Uruguaiana, Rio Branco, Presidente Vargas e outras onde se encontravam  joalheiros e garimpeiros.

   Depois, nos dias subsequentes, meu irmão, veteraníssimo na cidade e com quinze anos mais do que eu, me levou ao “circuito turístico” do Rio, o que incluiu uma ida inesquecível ao Pão de Açúcar, com aquela viagem no “bondinho” de dar um nó no estômago de um garoto paulistano, com a tradicional e até hoje necessária baldeação no morro da Urca.

   Era um daqueles dias deslumbrantes como só o Rio tem em novembro, com o céu límpido, sem uma única nuvem e um calor razoavelmente moderado. E, lá do alto, olhando para baixo, tive uma das maiores emoções da minha vida ao contemplar o contraste entre a cor vermelha da Praia Vermelha, ao lado do azul do mar e do verde da mata, que formavam um conjunto pictórico que Matisse, Monet ou Renoir nenhum poderiam ter retratado com tanta beleza.

   A ida ao Cristo Redentor, no velho trenzinho do Corcovado, foi também um espetáculo inesquecível, com a subida pelas escadarias intermináveis, a visão da cidade como um todo e uma paisagem igualmente maravilhosa.

   Ficamos hospedados num hotel da Avenida Gomes Freire, no centro, a poucos metros de um incrível boteco-restaurante que, muitos anos depois, foi badalado pela turma do Pasquim e espero que não tenha se perdido por isso. Era (ou é, não sei se ainda existe) “A Paulistinha”, de um dos amigos de meu irmão, o português-paulistano Marques, que fazia o melhor camarão à paulista que já comi e certamente poderei vir a comer na vida.

   O lanche na Colombo, na Rua Gonçalves Dias, era um assombro, como dizia uma marchinha de carnaval daqueles anos dourados, graças ao deslumbramento provocado pelos enormes espelhos de cristal tcheco, as madeiras de lei, o minúsculo elevador de porta pantográfica, onde mal cabiam duas pessoas além do ascensorista e, principalmente, pelos magníficos camarões empanados e as incríveis coxas-creme, devidamente acompanhados de guaraná Brahma, já que o similar da Antarctica quase não existia no Rio.

   Anos mais tarde, já com 17 anos, tirei minhas primeiras férias no trabalho, na Standard Propaganda, e fui para o Rio, onde o Arnaldo havia voltado a morar, desta vez na Rua N. S. das Graças, 376, em Ramos, quando frequentávamos bastante a Spaghetilândia, na Cinelândia, que, não obstante não saber fazer pizzas decentes (como, de resto, todos os outros restaurantes cariocas da época), fazia massas bastante próximas das massas paulistanas, como o canelone e a lasanha. Além, é claro, de idas ao “A Paulistinha”, do Marques. E passávamos o dia juntos enquanto ele negociava diamantes ou brilhantes, em envelopinhos improvisados, às vezes em plena rua, na calçada, sem que em momento algum nos passasse pela cabeça a possibilidade de um furto – e muito menos de um assalto à mão armada.

   Eram outros tempos, sem dúvida, tempos do carioca bem humorado, contador (e lançador) de piadas que rapidamente adquiriam dimensão nacional, em uma época em que era difícil conseguir fazer uma ligação telefônica entre as cidades, em que a televisão era um veículo local (não havia redes) que estava começando a ter alguma importância mas estava longe de ser um veículo de massa e em que os mais malucos sonhos do futuro não incluíam nem remotamente algo parecido com a internet. A propagação nacional das piadas, basicamente pelo boca a boca, já que nem todas, por motivos óbvios, podiam ser divulgadas pelo grande veículo da época - o rádio - é um mistério para mim, até hoje.

   Era o Rio, em que, ao contrário da São Paulo da época,  sentava-se à mesa para tomar um cafezinho e um copo d’água e jogar conversa fora sem nenhuma pressa. Progredimos? Regredimos?

   Voltei muitas e muitas vezes a este Rio que eu amo, quase sempre ficando no Hotel Apa, na República do Peru com a N. S. de Copacabana, até que, no final dos anos sessenta, topei dirigir a criação da Alcântara Machado no Rio, período glorioso de minha vida profissional, coroado pela conquista do primeiro lugar no Prêmio Jornal do Brasil para a melhor campanha de âmbito nacional, criada para o lançamento da Xerox no Brasil por mim, pelo Hans Haudenschild e com uma boa mão do Renato Carrascosa, quando morei na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, o que até hoje me rende piadas por parte de amigos como o Federico Spitale, o Zé Fontoura e outros mais que já embarcaram para o andar de cima, como o Joca, o Sergino e o Fritz Lessin.

   Anos depois eu estava na Lintas, em São Paulo, que desativou a sua criação no Rio e, novamente, na base da ponte aérea, passei a criar para os clientes da filial carioca, entre os quais a Bacardi, do meu inesquecível amigo Oscar Rodrigues, um cubano que amava os Beatles, os Rolling Stones e o seu próprio rum, a bebida por ele considerada como bastante superior a qualquer whisky, no que aliás ele tinha boas razões para isso.

   Foi no Rio, também, que reencontrei uma das mulheres que mais amei na vida, já em 2003, cerca de trinta anos depois do nosso primeiro e tumultuado rompimento, e que me ensinou muitas coisas pelas quais lhe sou e serei eternamente grato. Ave, Coiote! Só não ponho seu nome neste texto porque não sei como está sua vida romântica, sentimental e matrimonial hoje.

   E agora, desde o início deste 2009 tão cheio de alternativas, minha filha Adriana está morando no Rio, no circuito Lapa-Santa Teresa, que é tão a cara dela. E pretendo passar os feriados de Natal e Ano Novo com ela e meu filho Alexandre, além da minha querida cachorrinha Merengue, que é, disparado, o cão mais esperto que já tive até hoje – e olha que eu já tive muitos cães!

   O Rio é o cenário perfeito para uma declaração de amor não só pela cidade maravilhosa que ela continua sendo, como também pelos meus filhos Guilherme, Adriana e Alexandre e pela mulher que vem trocando figurinhas comigo nos últimos dois anos e meio, a sonhadora-realista Suely Bandeira, que tem me dado amor incondicional, o que certamente é mais do que eu mereço.

3. A diferença entre óptica e ótica vai muito além do p

 

    Este é um artigo escrito por um leigo em medicina e que pretende apenas transmitir as perplexidades sobre um campo e outro.

  

   De 30 ou 40 anos para cá, a óptica ou oftalmologia, teve inúmeros e perceptíveis avanços, entre eles o transplante de córneas, a cirurgia a laser para corrigir miopia, a cirurgia a laser para a erradicação da catarata e até mesmo a cirurgia a laser para correção da hipermetropia.

 

   Já a ótica ou otorrinolaringologia, aos nossos olhos de leigos permanece no mesmo patamar de trinta, quarenta, cinquenta anos atrás ou mais.

 

   Amigos meus, já fazendo parte do chamado grupo da melhor idade, eufemismo adotado e disseminado certamente por alguém dotado de humor negro, se queixam de que vão a um otorrino e o máximo que obtêm é a recomendação do uso de um aparelho para suprir as suas perdas de audição. O mesmo acontecendo também com diversos jovens na faixa dos 20 ou 30 anos de idade, portadores de alguma disfunção auricular.

 

   Ora, se uma especialidade da medicina, como é a oftalmologia, reuniu tantos e tão notáveis avanços, por que a ótica ou otorrinolaringologia parou no tempo? Por que não se realizam cirurgias destinadas a dar aos pacientes uma melhor acuidade auditiva? Que fatores fizeram essa especialidade parar no tempo?

 

   E notem que circunscrevi essa perplexidade a dois campos de atuação próximos, sem entrar na seara mais complexa dos transplantes de fígado, coração, rim e outros.

 

   Estou levantando este assunto, na expectativa de que algum otorrino não só nos esclareça como também, principalmente, nos mostre que há uma luz no fim do túnel e que todos os portadores de deficiências auditivas possam ter esperança de obter melhoras significativas imediatamente ou a curto prazo.

 

   - Hã? Como disse, doutor?

 

2. O desmatamento da Amazônia e a democratização do sexo

Em um só ano o Brasil perdeu 26.130 km2 de floresta amazônica, uma área superior ao Estado de Sergipe (21.863 km2) e quase do tamanho do Estado de Alagoas (29.107 km2), conforme divulgou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE.

Na prática, 1,3 bilhão de árvores foram derrubadas e 46,5 milhões de aves e 1,5 milhão de primatas foram afetados, segundo uma estimativa feita por pesquisadores brasileiros e publicada na revista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Com essa avaliação, os cientistas autores do estudo mostram que, por trás dos anúncios oficiais de índices e planos contra a ação dos desmatadores, existe um impacto na biodiversidade e na disponibilidade de recursos naturais difícil de ser recuperado.

Calcula-se que perdemos, no curto tempo de um ano, de 1,17 bilhão a 1,43 bilhão de árvores, que foram cortadas e queimadas e, se colocadas lado a lado, dariam mais de três voltas ao redor da Terra. O mesmo cálculo internacionalmente aceito dá como certo que o desmatamento afetou a vida de 43 a 50 milhões de aves e de 914 mil a 2,1 milhões de primatas.

A solução é aparentemente simples, mas difícil de ser posta em prática: desmatamento zero e aproveitamento sustentável do território, conforme proposta apresentada pelo Museu Goeldi há alguns anos, mas para que essa proposta seja viabilizada seria necessário um grande pacto entre governos da região amazônica, o governo federal e o setor produtivo. Não é preciso derrubar mais árvores. O aproveitamento de solos degradados pelo desmatamento já integra projetos na região amazônica, entre eles o da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com o Incra – Instituto Brasileiro de Colonização e Reforma Agrária.

O que falta é "vontade política", como se costuma dizer no jargão partidário. A mesma "vontade política" que faça o governo autorizar a produção de um genérico a preço baixo para os Viagras, Levitras e Cialis, democratizando as relações sexuais e colocando-as ao alcance dos portadores de disfunção erétil de baixa renda.

A preservação da Amazônia, assim como do Pantanal e da Mata Atlântica, é vital para a saúde do planeta que iremos deixar para as futuras gerações, assim como dar condições de todos podermos exercer uma vida sexual plena e gratificante é igualmente importante para a sociedade como um todo. "Sexo para todos" é uma bandeira, a nosso ver, tão importante quanto uma postura ecológica correta.

 

1. A propaganda interativa já andou até de bonde

     Cerca de dez anos depois de sua introdução e no momento em que a internet se tornou um veículo ou mídia de peso, ainda há uma divisão entre agências, anunciantes e os próprios profissionais de criação sobre como criar comerciais para a internet e se é necessário haver uma “especialização” em mídia on-line.

     Essa discussão a respeito, que mereceu destaque no último Seminário Jornalirismo ou mesmo a simples enunciação do “problema”, faz lembrar os anos sessenta e a criação de comerciais para televisão, antes ainda do advento do VT.

     Até o início daquela década, a criação de comerciais para TV, em geral, não era feita nas agências.

     A “mecânica” da coisa era mais ou menos assim: o departamento de Rádio e TV chamava uma ou mais produtoras de filmes (áureos tempos da Lynxfilm, Jota Filmes e Magisom, entre outras), mostrava os layouts e textos dos anúncios e pedia uma sugestão de comercial já acompanhada do respectivo orçamento de produção.

     Depois de receber as sugestões e os orçamentos, fazia-se a escolha do melhor roteiro, levando-se em conta também o custo de produzir uma ou outra das idéias apresentadas.

     Tratava-se da busca do “especialista” e esse procedimento era usual em praticamente todas as agências, com as inevitáveis exceções de praxe naquelas que tinham, em sua equipe, “especialistas” em tv/cinema, nomes como Boni, Laerte Agnelli, Sérgio Toni, Bruno Pardini e poucos outros.

     A criação para TV começou somente a ser feita “em série”, por redatores e diretores de arte, através da revolução criativa que Alex Periscinoto fez na Alcântara Machado já em meados dos anos sessenta, por meio de reuniões e mais reuniões de trabalho com a exibição dos rolos de filmes da DDB e dos “100 melhores da Advertising Age”, selecionados pelo McMahan. No começo, criávamos “anúncios falados” para TV, mas em pouco tempo fomos “pegando a mão” e aprendemos a criar comerciais respeitados e premiados nos principais festivais do mundo todo, como Cannes (antes da farra do boi em que se converteu com trocentos prêmios e categorias), Clio, New York, Fiap, etc.

 A história se repete

      Hoje, com a criação de comerciais on-line, quando a internet se transformou talvez na mídia mais importante, ainda acontece a procura pelo “especialista”, como se a criação de peças para a internet seja diferente da criação para off-line. Em outras palavras: o consumidor que a propaganda on-line pretende atingir é o mesmo das peças off-line e os apelos emocionais, os approachs, os pontos-de-venda e os diferenciais do produto, para ficarmos só nisso, são rigorosamente os mesmos.

      Criar para internet exige o uso inteligente e criativo da característica que é mais marcante na propaganda on-line – a interatividade, mas que dela não é exclusiva.

      É só lembrarmos que, em todas as épocas, os criadores de propaganda off-line buscaram interatividade com seus leitores ou telespectadores, como no caso do clássico anúncio da DDB para as tinturas de cabelo Clairol, nos anos sessenta, que mostrava a foto de um homem com metade do cabelo tingido e a outra metade com cabelos brancos, convidando o leitor a colocar sua mão em cada metade da foto, alternadamente, e depois dizer qual das metades rejuvenescia e tornava mais charmoso o modelo.

     Nos anos setenta, a nossa brasileiríssima DPZ também veiculou um anúncio sobre o Dia da Árvore, comentando já naquele tempo a devastação das nossas matas, que igualmente estabelecia uma interatividade com o leitor, convidando-o a imaginar o que faltava de árvores no espaço em branco dominante no visual da peça publicitária.

    Indo mais pra trás ainda, basta que a gente se lembre de um igualmente clássico da propaganda brasileira, criado pelo poeta Bastos Tigre, que utilizava total interatividade com os passageiros dos remotos bondes paulistanos, antes ainda dos anos 20 do século passado, que dizia: “Veja ilustre passageiro/o belo tipo faceiro/que o senhor tem a seu lado/Mas no entanto, acredite/quase morreu de bronquite/Salvou-o o Rhum Creosotado”. É ou não é interatividade pura?

      Por isso, tudo que se exige de bons anúncios para a mídia impressa, ou para comerciais de rádio e de televisão, ou seja, a busca do inusitado, do marcante e do exclusivo, permeados com inteligência e bom gosto -, permanece tanto na propaganda off-line quanto na on-line, já que o “homo consumeris” é o mesmo.

     Acontece apenas que, na propaganda on-line, a busca da interatividade em primeiro lugar é mais fácil, já que faz parte das características do meio. Claro que as dificuldades para se criar peças interativas ainda é grande, de vez que os profissionais envolvidos nessa atividade tiveram formação gutemberguiana e televisiva, mas é somente uma questão de tempo para regularem seus relógios biológicos para a criação de peças que façam o internauta responder às chamadas e convites que levem à sua participação nas mensagens publicitárias, como já ocorre em alguns filmes e vídeos que são essencialmente interativos. É só uma questão de tempo.

 

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