voltar para a página da Dra. Flávia

 

Alterações Hormonais na Mulher

por Dra. Flávia Fairbanks

 

 

(Peter Wtwael, 1680, Madalena Penitente)

 

O adequado funcionamento do organismo feminino depende de uma complexa rede hormonal que interliga o sistema nervoso central, a hipófise, os ovários, a tireóide, as supra-renais e o pâncreas. Dessa maneira, os ciclos menstrual e metabólico se completam e a mulher é considerada saudável.

Os ovários e as supra-renais secretam os esteróides sexuais – androgênios, estrogênios e progesterona – com diferentes funções no ciclo menstrual feminino. Disfunções na secreção dessas substâncias podem ter impactos diretos no aspecto físico ou, por outro lado, interferência na função ovulatória com prejuízo na obtenção da gestação. Os principais sinais e sintomas apresentados em casos de disfunção hormonal podem ser divididos em disfunções menstruais – ciclos irregulares com atrasos entre as menstruações ou diversos episódios de sangramento por mês – e alterações do fenótipo com aumento de acne, oleosidade de pele e cabelos, unhas fracas, manchas escuras no rosto e nas regiões de dobras entre outras. A queda capilar com tendência à alopecia também é muito comum, principalmente frontal.

O maior dilema é como saber se a parte hormonal está em ordem; nas mulheres com ciclos menstruais regulares, que sangram entre dois a oito dias por mês e com intervalos de 25 a 35 dias entre as menstruações, não temos motivos para suspeitar de alteração hormonal. No entanto, quando os períodos descritos anteriormente não são respeitados, freqüentemente temos desequilíbrio hormonal. Ressaltamos, portanto, que o principal é observar a regularidade do ciclo menstrual, sendo desnecessárias coletas de amostras hormonais em pacientes com ciclos adequados.

Outra glândula traiçoeira na mulher é a tireóide; ela é responsável pela adequação do metabolismo com o ritmo de vida, gasto energético e manutenção do bem-estar. Muitas vezes observamos pacientes com queixas de cansaço crônico, obstipação intestinal, falta de ânimo, unhas quebradiças, queda de cabelos, entre outros problemas que desconfiam estar com alguma deficiência de vitaminas, sendo que em grande parte dos casos o problema é a tireóide com mau funcionamento. Recomendamos a dosagem do TSH e dos hormônios tireoidianos para correto diagnóstico nesses casos.

Trabalhos mais recentes alertam-nos para outros hormônios não diretamente relacionados ao ciclo ovariano, mas que podem interferir na função menstrual e, sobretudo, na fertilidade feminina, destacando-se a prolactina (cujo excesso deixa a paciente sem ovular, às vezes sem menstruar e com saída de leite pelas mamas) e a insulina; nos casos de hiperinsulinemia, comuns em pacientes com sobrepeso e pré-diabetes. Os ciclos menstruais também são anovulatórios, logo com incapacidade de gestação e a paciente pode apresentar alterações ponderais e de glicemia, motivando o tratamento com drogas específicas.

Por fim, devemos destacar uma doença pouco conhecida: a Hiperplasia Adrenal Congênita da forma tardia (HACT), que, diferentemente daquela doença que acomete recém-nascidas determinando ambigüidade genital, a HACT aparece alguns anos após o início das menstruações devido à falta de uma proteína e também se caracteriza por profundas alterações do ciclo menstrual (espaçamento superior a 90 dias entre os sangramentos), infertilidade, acne e aumento dos pêlos. Nesse caso, o tratamento é feito com corticóides que restabelecem a função enzimática e controlam as manifestações clínicas.