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Parto Natural. Até onde podemos ir?

por Dra. Flavia Fairbanks

 

 

                                   Coihue Anton, 1989, Parto

 

 

 

                          Frida Khalo, Nascimento

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Artemisia Gentileschi, 1635, Nascimento de João Batista

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Domingo Criado, 2004, Parto


 

O momento do parto pode ser decisivo para todas as demais etapas da vida do ser humano. O tipo de assistência recebida pela gestante e pelo recém-nascido vão permitir que aquele momento mágico e tão esperado seja agradável, prazeroso e, fundamentalmente, que o resultado final seja 200% positivo, ou seja, mãe e bebê saudáveis.

Nas últimas décadas, com os avanços da Medicina e dos exames complementares, assistimos a uma “medicalização” muito intensa da gestação, sendo que alguns abusos chegaram a ser cometidos e algumas mulheres passaram a se sentir quase adoecidas durante a gestação, ao invés de simplesmente grávidas. Desta forma, muitos partos com potencial de virem de forma natural e espontânea acabavam em cesáreas desnecessárias.

 

Nosso país tornou-se o vergonhoso campeão de cesarianas.

Em resposta a essas altas taxas de partos operatórios nasceu um forte movimento em prol do parto normal. Como sabemos, a humanidade nascia pela via vaginal há séculos, então por que não usar essa via mais vezes? O governo instituiu campanhas a favor do parto normal, a mídia apoiou a iniciativa, enfim, tudo caminhava para parto normal.

Houve certa apreensão por parte dos obstetras quando a campanha começou a incentivar o uso das casas de parto, muitas vezes localizadas longe dos hospitais, principalmente pelo fato de nessas casas não haver possibilidade de se converter um parto normal em cesárea no caso de uma emergência.

A Organização Mundial de Saúde aceita como taxa normal de cesáreas cifras em torno de 20% dos partos, índices presentes na maioria dos países desenvolvidos. Isso significa que a cada 10 pacientes que estejam em trabalho de parto duas precisam da cesárea para assegurar um recém-nascido saudável. Nosso problema é que nem sempre sabemos quais serão essas pacientes.

A iniciativa do parto domiciliar vem ganhando força há alguns anos, mas nessa situação a possibilidade de socorro numa emergência é ainda menor. Tanto a mãe pode necessitar de cuidados maiores, como a analgesia de parto para suportar a dor das contrações, medicamentos para controlar a pressão arterial durante o trabalho de parto, entre outras questões; quanto o bebê pode precisar de manobras de reanimação neonatal para garantir a boa oxigenação do sistema nervoso ao nascer. Todas essas etapas requerem aparelhagem e pessoal treinado, tanto equipe médica quanto enfermagem, dificilmente encontrados numa situação de parto domiciliar.

Sou favorável ao parto normal, humanizado, com absoluto conforto para mãe, pai e bebê, mas desde que possamos garantir que as crianças  tenham os benefícios da humanização de assistência médica e de enfermagem, ambiente hospitalar adequado e, acima de tudo, todo o equipamento de suporte para os casos de emergência, como aparelho de anestesia, oxigênio, neonatologistas experientes em reanimação neonatal e o berçário a poucos metros da sala de parto. Afinal, nascer neste milênio merece, ao menos, todos os avanços de milhares de anos de pesquisas e a sabedoria de se reconhecer o parto que tem tudo para ser natural e dar certo daquele em que há algum risco e que precisará ser monitorado durante o trabalho de parto.