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EM LISBOA, NUMA NOITE DE JULHO DE 1944

 

 

 

António de Andrade Albuquerque

(Dick Haskins)

 

Luiza Caetano, Lisboa.

               

Talvez muitas pessoas ainda não saibam que Lisboa foi o maior centro de espionagem dos países neutrais durante a Segunda Guerra Mundial; espionagem da então Alemanha Nazi e da dos Países Aliados. E também talvez ignorem que muitos episódios como aqueles que ilustraram dezenas – senão mesmo centenas – de filmes produzidos ainda durante a guerra e no pós-guerra, foram naturalmente inspirados no muito que se desenrolou nesses seis anos do conflito, produções de pura ficção ou mesmo revelando episódios verídicos.

           

Pela sua situação geográfica, Portugal foi também o centro onde se concentrou a «cuidadosa atenção» dos Aliados e a da Alemanha de Hitler; o Governo Português – muitas vezes equilibrando-se perigosamente numa corda bamba! – conseguiu não entrar no conflito porque o Governo de então soube «agradar a Gregos e Troianos» e salvar o país de uma intervenção directa na maior guerra de sempre. Naturalmente que, nesta melindrosa situação, terá sido de «bom tom» ignorar e abafar, senão todos, a grande maioria dos episódios, mesmos os mais violentos, ocorridos entre os agentes secretos de um lado e do outro.

 

Durante o período da guerra – particularmente, por uma questão económica – os relógios eram adiantados duas horas, o que dava origem a que no Verão os dias só escurecessem a partir das 23:00. E numa noite «ainda clara» dos últimos dias de Julho de 1944, eu – com apenas catorze anos nessa época – estava muito longe de pensar que ia viver uma curta e assustadora situação de suspense…

           

A invasão da Europa, através do desembarque surpresa das Forças Aliadas na Normandia, tinha sido concretizada com êxito na madrugada do dia 6 do anterior mês de Junho - que foi o primeiro grande passo dado pelos Aliados a favor do fim da Segunda Guerra Mundial – deu origem a que, entre outras decisões -, Adolfo

Hitler decidisse impor o regresso à Alemanha de cidadãos alemães, em particular daqueles que trabalhavam nas Embaixadas do seu país, incluindo Lisboa, naturalmente. Um funcionário da principal representação alemã em Lisboa, que se encontrava ao serviço havia perto de quatro anos (como, naturalmente, diversos outros) viveu um extenso período de verdadeiro terror, porque não podia recusar-se a cumprir a ordem recebida! Não considerando, naturalmente, os perigos a que uma fuga daria origem, apenas a naturalização representava a salvação legal… mas em Portugal a lei impunha que só seria possível requerer a cidadania portuguesa depois de residir cinco anos no país!

 

Depois de muita luta e persistência do Funcionário da Embaixada, apoiado por um Inspector da Polícia Portuguesa, de quem era amigo, este último baseou-se num facto que podia pesar a favor da desejada naturalização, apesar de faltar ainda um ano para aquela poder concretizar-se: os filhos do Funcionário da Embaixada tinham nascido em Portugal e optavam pela cidadania portuguesa. Esta feliz coincidência foi suficiente para a naturalização ser autorizada.

           

...Então, nessa noite dos últimos dias de Julho de 1944, dei os primeiros passos ao encontro da curta e assustadora situação de suspense por que ia passar. O Inspector da Polícia, meu familiar, pediu-me para deixar na residência do Funcionário Alemão, também meu conhecido, um sobrescrito contendo documentos para serem por ele preenchidos e assinados, elementos necessária para levar a bom termo a naturalização já autorizada. O prédio situava-se numa das ruas de um dos principais bairros residenciais de Lisboa, com um largo passeio no centro onde os cafés e pastelarias tinham montado esplanadas normalmente frequentadas por quem residia nos edifícios.

            

Nesse calmo anoitecer, ainda sob a luz de um sol morno na fase inicial do poente, as esplanadas estavam lotadas e os ocupantes das mesas conversavam, a grande maioria trocando impressões sobre a evolução da guerra, particularmente centradas na ainda recente invasão da Europa pelas Forças Aliadas, e faziam as suas previsões no que dizia respeito à já previsível queda de Hitler e do nazismo.

O portão do edifício estava apenas encostado. Entrei e dirigi-me à escada de acesso aos diversos pisos, uma escada de três lanços, uma particularidade que estaria a meu favor apenas dois ou três minutos mais tarde!...

 

Ao atingir o início do lanço médio, vi um homem no patamar do andar a que me dirigia: pelas suas características físicas, pelo cabelo loiro, curto e rapado na nuca, era – sem dúvida - um cidadão alemão e, pelo que tentava fazer – abrir, com uma gazua, a porta da residência do Funcionário da Embaixada ao qual se destinavam os documentos que eu levava comigo – só podia ser um agente secreto nazi, com um determinado objectivo que ainda hoje ignoro qual terá sido!

Por tê-lo surpreendido, ele suspendeu o que pretendia fazer e notou que me encontrava ainda no início do patamar intermédio da escada, onde me detive por segundos, pelo tempo suficiente para tomar consciência de que corria perigo a partir daquele momento. Voltei-me e desci a escada, na expectativa de alcançar rapidamente o átrio, o portão e fugir para a rua; mas ainda antes de o fazer vi o homem dar os primeiros passos para me perseguir e deter.  Se ele fosse bem sucedido, não duvido de que teria sido agredido, inclusivamente morto, porque… agentes secretos em tempo de guerra não olham a meios para atingir o fim que pretendem alcançar!

Ter-me-á valido – no juízo que fiz naquele instante e que mantenho já passado um número perdido de anos – a agilidade da minha idade de então e o facto de o ter visto no início da subida do lance intermédio da escada, o que me terá concedido o avanço necessário que me permitiu chegar ao portão antes dele e alcançar a segurança que me proporcionava a rua, as pessoas que se encontravam nas esplanadas… e a própria luz diurna que ainda se mantinha!

           

Nesse preciso momento – talvez porque Deus escreve direito por linhas tortas! –, vi um Polícia de serviço na área chegar ao passeio central da rua e dirigi-me a ele revelando-lhe em frases curtas o que acabava de suceder e indicando o homem que, já fora do portão, se detivera por escassos segundos, pelo lapso de tempo que lhe permitiu concluir que eu o denunciava! Então, o agente da autoridade retirou a pistola do coldre e iniciou a perseguição ao suposto agente secreto, que principiou a fugir no sentido ascendente da rua perante a surpresa que a cena provocou na maior parte de quem ocupava as mesas da esplanada…

            Hoje, já decorridos perto de setenta anos sobre esse momento inesquecível, mantenho bem presente a imagem do começo de esse perseguição e… nunca soube o que terá acontecido!