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 António de Andrade Albuquerque

(Dick Haskins)

Email: antonio@andradealbuquerque.pt

http://andradealbuquerque.pt

 

Incidentes que Ocorrem Quando o Autor escreve

e que o Leitor Ignora quando Lê

Gustave Coubert, 1868, Uma jovem mulher lê

 

Aconteceu quando escrevi O PAPA QUE NUNCA EXISTIU. Quem tenha lido o romance, facilmente se recordará da cena adiante resumidamente descrita, mas quem desconheça a obra não deixará, contudo, de tomar conhecimento do que ocorreu com o autor à margem da produção literária.

           

Devido ao facto de existir uma ligação indirecta entre a obra aqui referida e o meu outro livro O EXPRESSO DE BERLIM (apenas uma personagem intervém nas duas obras, uma delas apenas nas primeiras páginas), a produção de ambas foi escrita em simultâneo precisamente porque – apesar de os dois enredos serem  totalmente distintos um do outro - existiem ligações de passado e presente entre algumas personagens.

           

As duas obras extensas (uma com 495pp e a outra com 734pp) foram escritas em três anos e meio e implicaram, particularmente o segundo título aqui referido, uma minuciosa consulta de factos reais que se desenrolaram nas épocas correspondentes à acção descrita.

           

Talvez o Leitor se ponha a questão: «Por que motivo, esta introdução relativamente extensa?»… Há, em boa verdade, um motivo: para sentir, tanto quanto possível, a «atmosfera» em que o autor viveu durante o longo período em que produziu o seu trabalho, as pausas necessárias  indispensáveis, um café ou outro que se bebe, a descontracção que se obtém saindo e dando um pequeno passeio ao ar livre ou apenas saindo de casa e ficando no átrio exterior observando o firmamento com luar ou sem ele, as estrelas visíveis ou não, respirando o ar fresco e agradável ou sentindo o frio que faz, ou,. ainda, vendo e ouvindo a chuva cair. De uma forme ou de outra, isto representa sempre um necessário período de pausa… mesmo quando nesses momentos se pensa no que vamos continuar a escrever!

 

E o curioso «incidente» ocorreu precisamente, e de início, numa pausa do meu trabalho de uma noite estrelada e calma de outono. No princíppio de O PAPA QUE NUNCA EXISTIU, a principal personagem, de nome próprio António, tem apenas a idade de 13 anos, sendo uma criança já dotada de surpreendente cultura geral, conhecimentos invulgares – mesmo em adultos – e uma capacidade de raciocínio verdadeiramente impressionante. O enredo do livro inicia-se no cair da tarde de um enevoado dia de outono, quando António está a terminar os exercícios de gramática passados pela professora da escola que frequenta e é surpreendido pelo piar aflitivo de uma ave, que provém do quintal da sua casa. Depois de se dirigir à janela, António vê um pardal a ser atacado por um gato e corre para o quintal, onde afugenta o gato e recolhe a ave já ferida, trazendo-a para o seu quarto. Surpreendentemente, o pardal – com uma perna fracturada - «compreende» que está a ser socorrido e demonstra um surpreendente reconhecimento a António, que acaba por lhe colocar uma tala feita com dois paus de fósforos, em redor da qual enrola cuidadosa e eficazmente uma linha de costura.

           

A pequena ave surpreende António retribuindo-lhe o bem que dele recebeu passando diversas vezes a cabeça pelas suas mãos. E ficou com ele durante longos dias, até António considerar a fractura consolidada.

Nunca mais o esqueceu, mesmo depois de António o forçar a regressar à sua liberdade. Contudo, o pardal pareceu entender a intenção e partiu… mas passou a visitá-lo periodicamente, chilreando no parapeito da janela do quarto para António a abrir e recebê-lo!

           

 O primeiro incidente que ocorreu relacionado comigo, como autor, deu-se precisamente na noite em que escrevi a cena que foi seguida da pausa a que atrás me refiro: ao chegar ao átrio exterior da moradia onde resido, sob a larga varanda do andar superior,  existe uma viga de cimento que se apoia no pilar de pedra rústica colocado numa das extremidades, sendo a extremidade oposta embutida na parede onde existe a porta de entrada da casa. Precisamente na zona da base da varanda, na parte inferior que tem o pilar como apoio, há um recanto protegido da chuva e do vento. No intervalo do trabalho da escrita de essa noite, vi um pardal recolhido nesse canto abrigado e convidativo.

           

Todas as noites que se seguiram, durante o longo período de produção do original do livro, o mesmo pardal recolhia-se no mesmo local. A coincidência não terá passado de… de  uma coincidência, admito! Contudo, na noite em que o original do livro ficou concluído, o pardal encontrava-se recolhido no local habitual,… O que me intrigou foi o facto de na noite seguinte, já lá não estar!...

E nunca mais voltou!...