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  UM NATAL COM DEUS

 

 

por António de Andrade Albuquerque (Dick Haskins)

Adaptação a Conto, feita pelo autor, de um capítulo do seu livro «O Papa que nunca existiu».  

Edouard Manet, O Velho Músico
Nunca ninguém o tinha visto na aldeia; era um velho com o cabelo branco e levemente ondulado, tão branco como os espessos flocos de neve que caíam na Noite de Natal. Os seus olhos, muito azuis e brilhantes, irradiavam uma luz suave, uma luz que surpreendentemente se destacava da das lâmpadas multicoloridas que adornavam as árvores do Largo da Igreja, acendendo-se e apagando-se em intermitência.
Era um velho sem idade, de feições correctas, bonito. Vestia um sobretudo preto, coçado, que já teria passado por muitos corpos e invernos como ele próprio; as bainhas roçavam-lhe as pantufas que teria retirado do lixo ou que alguém, indiferente, lhe tinha dado. Mantinha-se em silêncio, com uma expressão profundamente triste, indiferente à neve que lhe cobria a cabeça e os ombros. Estendia a mão esguia e trémula, a mão que – como o seu rosto – teria sido bonita numa juventude já perdida num longínquo passado.
A missa terminara; a gente que rezara, cantara e comungara, saía da igreja e um ou outro olhava para o velho com curiosidade; alguns ignoravam-no e outros limitavam-se a dedicar-lhe um olhar furtivo, de esguelha, e murmuravam palavras de impaciência, com laivos de indiferença e desprezo. Contudo, ninguém deixava cair uma só moeda naquela mão que tremia de idade e de frio, nem mesmo os que tinham estado mais atentos à prática proferida pelo padre, às palavras «esta é a noite da família e do amor; pensai nos outros, no nosso semelhante, não esqueçais aqueles que sofrem no corpo e na alma, naqueles que necessitam da nossa compreensão e do nosso amor; não sejais egoístas, dai um pouco de vós a quem precisa, a quem sofre, a quem morre de fome, de frio, vencido pela doença, a quem nunca soube o que é ser amado…». Mas ninguém deixava cair uma só moeda na mão do velho que mendigava em silêncio, ninguém notava as lágrimas que gelavam nos seus olhos tornando-os mais cintilantes, mais luminosos do que as própria iluminação colorida e intermitente que ornamentava as árvores, o azul celeste de um dia de céu límpido, de sol nos seus olhos contrastando coma noite escura e gelada…
- Está muito frio! – exclamou José, a gola do blusão
erguida a tapar-lhe a boca e o nariz, mas António nem sequer voltou a cabeça para ele porque mantinha a atenção concentrada no portal da igreja. – Para onde estás a olhar? O que estás a ver, Tónio?... A mãe Maria e o pai foram à sacristia com o senhor Evangelista e a senhora Rosa, mas devem demorar-se; eles vão cear connosco…
- Eu sei – disse António, finalmente, sem desviar a atenção da entrada da igreja. – O Senhor Evangelista foi entregar a nota de despesas da ornamentação da igreja e do Largo, que é a Junta que paga… - Calou--se subitamente e franziu os olhos dedicando a sua atenção ao amigo. – Ouve, Zé, viste aquele velho de cabelo branco e sobretudo preto à porta da igreja, quando saímos…?
José olhou para o portal da igreja.
- É aquele que está ali, e que tem a mão estendida….? – perguntou.
- Sim, Zé, é aquele…
- É esquisito, Tónio – comentou José subitamente.- Não te parece que ele tem os olhos iluminados…?! Que luz azul tão bonita há nos olhos dele!... Ou será uma ilusão minha provocada pelas lâmpadas coloridas que colocaram nas árvores…?
- Não é uma ilusão tua – afirmou António.
- Queres dizer que estás a ver o mesmo que eu vejo…?
- Vem comigo – disse António envolvendo-lhe o braço.
Regressaram à entrada da igreja e detiveram-se em frente do velho, do velho que mantinha uma expressão profundamente triste e a mão estendida e trémula. António comparou a sua mão com a dele, retirou a luva da mão direita e calçou-a na mão estendida do velho; não compreendia como seria possível, mas a luva servia-lhe como se fosse dele. Repetiu o gesto relativamente à sua luva esquerda, mas como o velho mantinha a mão no bolso envolveu-lhe o pulso e puxou-lhe o braço com um movimento suave, cuidadoso: ele não tinha a mão esquerda, apenas o pulso suturado e cicatrizado há muito tempo, talvez longos anos.
Então, António ergueu o olhar para o rosto perfeito do velho, para os seus olhos azuis e extraordinariamente luminosos, e pareceu-lhe vê-lo sorrir.
- Desculpe – pediu, sensibilizado, contendo a emoção que sentia. – Posso pôr a luva no seu pulso…?
Em silêncio, José não conseguiu conter as lágrimas, lágrimas que o velho viu e que o fez erguer a mão e pousá-la por um breve momento na sua cabeça; José deixou de sentir o frio da noite gelada, mas as lágrimas deslizavam-lhe no rosto perdendo-se na gola erguida do blusão que vestia.
- Posso pôr a luva no seu… - principiou a repetir António, mas já o velho lhe estendia o braço.
O autodomínio de António cedeu enquanto colocava a luva no pulso do velho; os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e baixou a cabeça olhando para o chão coberto de neve.
O velho retirou a mão que detivera sobre a cabeça de José e, apoiando os dedos enluvados no queixo de António, ergueu-lhe o rosto com uma suavidade impressionante. Em seguida, enquanto António se deslumbrava ainda com o brilho luminosos dos seus olhos muito azuis, o velho moveu a cabeça numa negativa, censurando-o pelas lágrimas que agora lhe deslizavam na rosto.
- Gostava que fosse cear connosco a nossa casa – disse António, e olhou de soslaio para José. – Os nossos pais vão ter muito prazer em recebê-lo, senhor… Como se chama?
O velho ergueu os dedos e manteve-os sobre a boca acenando negativamente com a cabeça.
- Mas… Mas ouve, não ouve? – perguntou António, e ele moveu a cabeça afirmativamente. – Nunca o vimos na aldeia, mas vive perto daqui…?
Nova negativa, antes de erguer o braço e indicar com a mão esguia um horizonte indefinido, como se pretendesse dizer-lhes que vinha de muito longe…
E nesse preciso momento, ouviram as vozes da mãe e do pai provindo da saída da igreja.
A atenção de Maria foi de imediato atraída pela presença do velho de cabelo muito branco, trajando um sobretudo preto, comprido, quase a cobrir-lhe os pés. E nesse preciso momento, deixou de sentir a dor no peito que durante todo o dia a atormentara; estranhou que isso tivesse acontecido porque o médico – a insistências dela – lhe revelara que teria seis, oito meses de vida, um ano no máximo. E aquele seria o seu último Natal…
- Convidei este senhor para cear connosco – revelou António quando os pais se detiveram junto deles.
Maria sorriu e observou:
- Fizeste muito bem, meu filho. Temos muito gosto em que este senhor compartilhe connosco a nossa ceia de Natal.
- Quem é este senhor? – perguntou o pai. – Creio que não o conheço…?
- Não, pai, não o conheces. Este senhor já nos disse que veio de muito longe.
- E é muito provável que esteja cansado – comentou o pai olhando para a mão trémula do velho e acrescentando a seguir: - Vou trazer o carro para aqui. – Olhou de novo para o idoso, que o tinha impressionado de um modo estranho. – Desculpa-me por um momento, com certeza…?
- O senhor não… O senhor não fala, pai – revelou António, e José notou lágrimas nos olhos do filho.


Maria e José estavam impressionados com o porte do velho, do «miserável pedinte», como a detestável «rata de sacristia» Etelvina o classificara, negando-se a cumprimentá-lo quando saíra da igreja e se detivera junto deles por um curto momento, apenas para – com detestável hipocrisia – lhes desejar um Santo Natal e ainda a dedilhar as contas do terço, do terço que estranhamente lhe desapareceu das mãos quando se afastou deles…
A ceia daquela noite decorreu num ambiente de paz como nunca tinham vivido. Depois sentaram-se na sala agradavelmente aquecida pelas chamas suaves dos toros de azinho que ardiam na lareira. Maria preocupou-se em proporcionar ao convidado a poltrona mais próxima do calor. Depois de ele se sentar, o reflexo das chamas realçou-lhe a perfeição da fisionomia, a brancura imaculada dos seu cabelos e o brilho intenso dos seus olhos.
Já era demasiado tarde quando decidiram deitar-se e opuseram-se à decisão tomada pelo Convidado especial daquela noite, que lhes confessara ter um longo caminho a percorrer. António prontificou-se a ceder-lhe o seu quarto, sublinhando que seria aconselhável prosseguir a sua viagem para onde quer que fosse na manhã seguinte. Com um sorriso condescendente, ele aceitou o convite. Contudo, na manhã seguinte, quando Maria preparava o pequeno-almoço para o inesperado convidado, ela e António concluíram que o quarto cedido por este se mantinha tal como o tinham preparado. Todas as janelas da casa mantinham-se fechadas e, igualmente, as duas portas existentes na moradia, com as chaves colocadas nas respectivas fechaduras. Mas o Convidado daquela noite tinha saído…
Na manhã seguinte ao dia de Ano Novo, Maria tinha consulta marcada com o seu médico assistente.
- É absolutamente incrível! – exclamou o médico. – Em quase quarenta anos de clínica, nunca tinha concluído o que acabo de constatar: não há aqui o menor vestígio do tumor que lhe foi diagnosticado! Não tornou a sentir dores desde há uma semana?
- Desde o dia de Natal que não sinto – respondeu Maria.

 

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Diva I. Jacinto Realmente muito lindo Isabel ! Emociona ! Bj


Linda Naufel de Freitas Realmente muito bonito,me emocionei!

Rosana Manfredini de Borba Que lindo!