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O presente conto é editado, em exclusivo, pelo Programa «Saúde & Livros» com a autorização expressa do autor, não podendo ser publicado – no todo ou em parte e por qualquer meio – sem a sua prévia autorização. © Copyright A.Andrade Albuquerque (D.H.) 2014

O PRECIPÍCIO

por António A.Albuquerque

David Friedrich, O caminhante sobre o mar de nuvens

 

O precipício.

 

Lá ao fundo, o vale imenso.

 

A paisagem é monótona e fria, um manto de neve espessa contrastando com o céu  cinzento. O silêncio, o pesado silêncio que os rodeia, é cortado de momento a momento  por um vento que parece uma voz humana deformada, crescendo e decrescendo, principiando num gemido, transformando-se num grito agudo e aflitivo e apagando-se

noutro gemido. Depois, tornando a sibilar ao longo do vale, veloz como se esquiasse aos ziguezagues pelas montanhas nevadas e se afundasse, em seguida, no precipício, inconsciente na sua abstracção, indiferente e aventureiro como uma criança inconsciente e alheia ao perigo.

 

O precipício.

Ruth Haymes sentia-se embriagada com a paisagem, apesar de reconhecer a sua monotonia. O vento soprado contra o seu rosto já enregelado parecia uma lâmina de gume afiado.

A pousada, situada lá em baixo, em pleno vale, assemelhava-se a uma casa de bonecas. Um automóvel preto tinha parado em frente da entrada e do interior do veículo acabava de sair um verdadeiro gigante! Por momentos, Ruth não compreendeu como teria sido possível um carro tão pequeno transportar um gigante! Foi então que

notou que o homem tinha destruído totalmente o tejadilho para conseguir sair do pequeno Fiat! Mas como teria ele conseguido entrar no carro…?!

 

Ruth voltou-se para trás para pôr a questão ao marido, para lhe denunciar a sua estranheza perante o que considerava absolutamente impossível, mas nesse preciso instante notou que Mike se encontrava demasiado junto dela e teve apenas tempo de notar o seu falso sorriso, o brilho excessivo dos seus olhos e a elevação lenta do seu braço direito. Depois, em poucos segundos, a mão de Mike cresceu assustadoramente na sua direcção, os dedos afastados e curvados em forma de garra!

 

Pressentindo o perigo, Ruth envolveu o pulso do marido, mas ele sacudiu-a tão bruscamente que ela perdeu o equilíbrio, escorregou e abeirou-se do precipício. Já Mike tinha erguido a perna e avançava o pé, que ela ainda conseguiu deter com as mãos. Contudo, o que tinha acontecido anteriormente repetiu-se, mas desta vez Mike atingiu-a violentamente no rosto e ela gritou; o seu grito perdeu-se no vale, no silvo crescente do vento.

 

Ruth fincou os dedos na neve e tentou erguer-se a todo o custo, mas os pés do marido sobrepuseram-se-lhe às mãos já enregeladas, enterrando-as mais profundamente.

 

- Porquê?! – foi a única palavra que Ruth conseguiu murmurar antes de ver Mike curvar-se e empurrá-la.

 

Ruth ainda rolou na neve espessa por uma dezena de metros antes de se perder no espaço ao encontro da morte.

 

O precipício…

 

 

Dizem que um moribundo se recorda do passado nos últimos momentos de vida, que revê em imagens fugazes mas nítidas. Mas Ruth Haymes recordou-se apenas do casamento com Mike Matson dois dias antes da viagem de núpcias que tinham feito com destino à Suíça, enquanto rolava na neve espessa e se perdia no precipício, ao encontro da morte…

 

Ruth Haymes ergueu-se subitamente sem ainda ter despertado e ficou sentada na cama. Os seus olhos fixaram o rosto do marido, que se aproximava do seu. Subitamente horrorizada, empurrou-o com violência; ele perdeu o equilíbrio e caiu batendo com a têmpora esquerda no tampo da mesa-de-cabeceira. A sua mão, com os dedos afastados e curvados em forma de garra, deslizou lentamente ao longo do lençol unindo-se ao corpo

ao atingir o piso alcatifado do quarto.

 

Nesse momento, o inesperado acidente despertou Ruth para a dramática realidade.

 

- O que foi que fiz, meu Deus?! – murmurou, já completamente acordada e

horrorizada com a sua brutal reacção.

 

Em choque, e principiando a tremer descontroladamente, voltou a cabeça de Mike para si e, apavorada com a sua brutal reacção ao inesperado pesadelo que a atormentara durante o sono, voltou a cabeça do marido para si, mas largou-a com um gesto brusco.

 

 - Matei-o, meu Deus!... Matei-o!... Matei-o reagindo ao pesadelo que me

aterrorizou durante o sono… Por que motivo fui precipitada… precipitada ao ponto de o matar?!... Talvez ele não esteja…

 

 Mas Mike estava morto.

 

 Mike tinha morrido, morrido surpreendentemente com o mesmo falso sorriso do seu pesadelo… mas agora Ruth Haymes enfrentava a realidade, um pesadelo real, não o do seu assustador sonho!

 

 Cambaleante, apoiando-se aos móveis do quarto do hotel onde se tinham instalado no início da viagem de núpcias, Ruth dirigiu-se ao telefone colocado sobre a mesa-de-cabeceira e levantou o auscultador.

 

 - Recepção – disse-lhe uma voz que lhe pareceu imensamente distante.

 

 Ruth manteve-se em silêncio, os olhos postos no corpo de Mike.

 

 - Recepção – repetiu a voz no auscultador do telefone.

 

 - Quarto 103 – respondeu Ruth, finalmente. – Chame a Polícia, por favor…

 

 - Um momento, minha senhora – disse o recepcionista. – Está numa situação perigosa?!...

 

 Inesperadamente, Ruth pousou o auscultador sobre o tampo da mesa e aproximou-se do corpo de Mike. Com relutância, indecisa, olhou mais atentamente para a folha de papel parcialmente saliente do bolso do roupão que ele vestia.

 

 Por fim, decidiu-se e concluiu que era uma carta manuscrita pelo marido, com data de esse mesmo dia e dirigida a alguém que ela desconhecia:

 

 Querida Anne:

 

 O cenário dos Alpes é deslumbrante e propício a que tudo corra pelo melhor. Será até demasiado fácil! Um simples «empurrão» resolverá o nosso problema. Ela está encantada com a paisagem e com os «precipícios»… e encantada com ambos ficará por aqui (acidentalmente, é claro!). Como sabemos, serei o único herdeiro de todos os seus

«incontáveis e pesados» bens e…

 

 Ruth não leu o resto da carta; olhou apenas para última frase - «Queima esta carta depois de a leres.» e para a assinatura de Mike. Depois, dirigiu-se de novo à mesa-de-cabeceira e pegou de novo no auscultador do telefone que deixara pousado sobre o tampo.

 

 - Está, Mrs.Haymes…?!- perguntou o recepcionista num tom de quem o fazia já profundamente preocupado.

 

 Antes de lhe responder, Ruth olhou para a impressionante paisagem dos Alpes através da janela do quarto: era bela, apesar da monotonia do imenso manto de neve que os cobria!…