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EM DACHAU

 Do romance O EXPRESSO DE BERLIM – 737 pp - Extracto resumido de cenas interligadas  

por António A. Albuquerque

 Goya, Fuzilamento

            Campo de Concentração de Dachau. Encontrava-me a menos de cinco metros de uma das extremidades das longas filas de prisioneiros e consegui ouvir distintamente a observação, em francês, que a última mulher fez à que lhe à que se lhe seguia: «Ouviste o que a Fera disse?» «Muito bem», respondeu-lhe a outra, entre dentes. «Sabemos muito bem muito bem para onde o canalha se ausenta, sempre que vem cá!» «Pois sabemos; como querias que a tipa coma o que não comemos e pese o que não pesamos?! Também querias tratamento especial?! Concorre!...» «Nem tu nem eu somos bonitas e não temos o corpo que ela tem! E ela não é judia como nós!» «É outra vantagem de que tira proveito.» «Dá o corpo para sobreviver, e isso também é sacrifício!... E ajuda-nos sempre que pode…»

           

           Voltei-me, olhei para a primeira da fila e notei a súbita expressão de medo que lhe aflorou ao rosto magro, macilento e com olheiras profundas;   ela apercebeu-se de que a tinha ouvido e ficou à espera do pior embora, talvez, na expectativa de que eu não entendesse francês e pudesse mentir-me, se a interrogasse…

 

Uma sensação de frio percorreu-me o corpo, apesar da atmosfera abafada e carregada de ameaças que nos envolvia; a minha mãe e a filha de Goldmann deviam encontrar-se ali, entre aquela imensidade de vítimas inocentes do nazismo…

Foi então que o desprezo pela própria vida se sobrepôs à sensação de frio e que a indiferença por uma morte provável me levou a concluir que apenas o improviso podia resultar.

            Aproximei-me da mulher apavorada, discretamente, e pronunciei em francês mal movendo os lábios:

            - Não sou quem pensas e preciso de apoio. Localiza-me Lüdecke e, depois, Elka e Ana Kessler…

            E exactamente nesse momento, Deus sublinhou a Sua presença no campo, no meio da mais baixa e chocante miséria moral e física; raios rasgaram subitamente o céu plúmbeo, o trovão rolou assustadoramente fazendo estremecer o solo e uma chuva torrencial, violenta, principiou a desabar; o vento enfurecido que se levantou pôs fim à atmosfera pesada, abafada e húmida que se sentia e engoliu as ordens confusas gritadas pelos militares responsáveis pela chamada extraordinária, que acabaram por correr em direcção ao bloco de edifícios do topo do campo.

O Campo de concentração de Dachau foi construído em 1933 pelos nazistas em uma antiga fábrica de pólvora próxima a cidade de Dachau, ao norte de Munique, no sul da Alemanha. Chegou a abrigar mais de duzentos mil prisioneiros de mais de trinta países e, a partir de 1941, foi usado para o extermínio de cerca de trinta mil pessoas. Muitas outras pessoas pereceram em virtude das condições do campo. Em 29 de abril de 1945, a 42ª Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos foi encarregada de libertar o campo de concentração. A primeira visão que os soldados tiverem, ao chegar ao campo, foi de centenas de mortos, empilhados. Segundo consta, os mortos estavam lá havia dias (alguns já em avançado estado de decomposição). Os soldados, totalmente em estado de choque com a visão, tomaram para eles o lema "Take no Prisoners" (Não fazer prisioneiros) e começaram a executar os primeiros SS que encontraram.

 

(fonte: Wikipedia)

             Os presos precipitaram-se como puderam para os barracões e a francesa que confiou em mim, já completamente encharcada como eu, olhou-me expectante.

            - Foge e eu sigo-te – gritei-lhe.

            Ela voltou-se, começou a correr e segui-a.

O improviso, no inesperado, na providencial presença do Ser Superior que não podia desconhecer o que humanos estavam a fazer a humanos e que me confundia na minha ignorância, na minha total incapacidade de compreendê-Lo na Sua enigmática condescendência, na Sua aparente indiferençla para com assassinos impiedosos…

            Não era apenas uma chuva torrencial, uma tempestade violenta, era um ciclone; as coberturas de alguns barracões soltaram-se e voaram por dezenas de metros ao longo do campo. As torres de vigia principiaram a estremecer violentamente e os guardas largaram as armas e abandonaram-nas. Curtos-cicuitos em cadeia anularam a electrificação no arame farpado que rodeava o campo e a chaminé do forno crematório desmoronou- -se.

            Afinal, os senhores da «raça superior» sofriam das mesmas fraquezas dos da «raça inferior», das mesmas apreensões, dos mesmos receios, possuíam o mesmo instinto de sobrevivência, não eram deuses omnipotentes com poder absoluto sobre o mundo que habitavam; eram tão insignificantes perante as forças incontroláveis da Natureza como aqueles que espezinhavam e destruíam…

 …Voltei as costas a imagens que jamais se me apagariam da memória e entrei na Barraca 01, que Deus mantinha de pé, vacilante mas de pé.

E, então, ela viu-me – viu-me antes de eu a ver – dentro do uniforme que detestava, mais um de entre os muitos que odiava. Depois, a sua expressão tornou-se quase indescritível porque, por um momento fugidio,  perdeu o ódio pelo fantasma na sua frente e um brilho intenso surgiu nos seus olhos cansados, a marejarem-se de lágrimas.

 Incrédula, intensamente chocada, apertou contra o seu o esqueleto de Ana Goldmann e a imagem do seu súbito e inesperado pesadelo, ou da perda fugaz de lucidez, desfocou-se na água dos seus olhos. Tentou recuperar do choque, serenar o ritmo cardíaco acelerado e desordenado e limpou as lágrimas no punho da manga.

E a nitidez voltou, a nitidez, o choque e a confusão. No seu rosto marcado pelas rugas do sofrimento, um brilho extraordinário tornou a iluminar-lhe os olhos mortiços e esboçou um sorriso; o elo que nos unia, o elo indestrutível de me ter gerado no seu ventre não podia enganá-la…

Mas foi nesse instante que eles, completamente encharcados e ainda curvados pela resistência oposta à insuportável força do vento e à chuva torrencial, entraram no barracão – o capitão Luther e o Comandante do campo. E, então, impôs-se que «representasse» mais uma cena odiosa e convincente.

A minha mãe, vinte quilos perdidos, debilitada, o cabelo branco muito curto, quase rapado, ainda se maninha apoiada a Ana Goldmenn. Conservava aquele sorriso que traduzia um momento de felicidade incontida, como se esse fosse o seu derradeiro sorriso, o adeus à vida; podia agora morrer, torturada, brutalmente espancada como muitos que vira cair para sempre, mas já ninguém conseguia roubar-lhe a alegria de ter revisto o filho… mesmo dentro daquela detestável farda negra, mesmo sendo ele mais um dos que aprendera a odiar de morte… porque era ele, e ninguém a convenceria do contrário! Sentia-o no mais profundo da sua alma…

Avancei na sua direcção, ergui o braço e agredi-a; um veio de sangue surgiu-lhe ao canto da boca de lábios finos e descoloridos. Ela pouco vacilou, mas as lágrimas começaram a deslizar-lhe ao longo do rosto magro e pálido.

- Estás a sorrir, idiota?! Não sabes o que pode acontecer-te por faltares ao respeito a um oficial SS?!

Tornei a erguer o braço e Ana Goldmann envolveu-me o pulso com a mão esquelética e trémula.

- Tenha piedade – pediu. – Ela está muito fraca!...

           

© A, Andrade Albuquerque, 2006