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Diálogo entre o Cardial Patriarca e a Irmã Joana

por António A. Albuquerque

A Madre Superiora olhou-o por um momento, em silêncio; depois, confessou:

 

—      Estou convencida de que vai ajudar-me a resolver o assunto... ou melhor, de que vai encontrar a melhor solução para o que for necessário resolver, Eminência. — Calou-se bruscamente e acrescentou a seguir: — Como pode concluir, não me é fácil passar a tratá-lo pelo nome próprio de um momento para o outro, Eminência. Espero que me autorize a alternar a forma de o tratar até poder corresponder, sem hesitações, ao desejo que me manifestou...?

Antônio sorriu e tomou-lhe carinhosamente as mãos entre as suas.

—      Podia ser minha avó, Irmã Porfíria, e se fosse pode crer que eu teria muito orgulho nisso...

—      Claro, se fosse meu neto eu não hesitava em tratá-lo por António! Mas não é, e isso pesa contra mim...

—      Compreendo as suas hesitações, com certeza, mas não tenho de lhe conceder autorizações de espécie alguma, Irmã! Trate-me pelo nome que entender, pelo que lhe ocorrer na altura.

—      Talvez seja o melhor processo para me habituar ao seu nome próprio... Chamo a Irmã Joana...?

—      Se faz favor, Irmã.

—      Onde ficou o Bispo José Custódio?

—      Foi beber um café e admirar as raparigas bonitas de Coimbra...

—      Por amor de Deus, Eminência! ...

—      Admirar o que é belo não é pecado, Irmã Porfíria.

—      Não será, não será... Desnorteia-me com o seu bom-humor, Eminência! — Dirigiu-se para a porta do gabinete e deteve-se antes de sair. — Não permito que partam de Coimbra antes de almoçarem connosco, o senhor e o Bispo José Custódio.

—      E se a convidarmos para uns escalopes de vitela especiais, cozi-nhados num restaurante especial de Coimbra...?

—      Não me tente, Eminência! ... Não temos escalopes de vitela, mas asseguro-lhe que vai apreciar o excelente bacalhau no forno que a Irmã Madalena cozinha.

—      Nesse caso, Irmã, cedo ao excelente bacalhau no forno que a Irmã Madalena cozinha.

—      Fico muito contente por aceitar o meu convite, mas vai ser necessário avisar o Bispo José...

—      Não é necessário — atalhou Antônio. — Depois do café e de um passeio pela cidade, ele vem ter comigo ao convento.

A Irmã Joana era uma mulher muito bonita, mesmo desprovida da maquilhagem que poderia realçar a sua beleza natural. Estacou subitamente à entrada do gabinete, depois de abrir a porta e manter a mão a envolver o fecho.

—      Não está a ver um fantasma, Irmã Joana: sou eu, realmente, quem ocupa o lugar da Madre Superiora... e não tenho a menor semelhança com ela, como está a verificar! — disse António, erguendo-se. — Faça o favor de fechar a porta e sentar-se naquele sofá — indicou-lhe o sofá colocado à esquerda da secretária, que lhe pareceu o lugar mais cômodo para ela ocupar; era necessário que se sentisse à vontade, talvez um dos meios indicados para a conduzir a uma confissão sincera do problema ou problemas que a afectavam, segundo a Madre Superiora.

—      Eminência Reverendíssima — principiou a Irmã Joana, avançando dois passos hesitantes e detendo-se antes de chegar ao sofá —, fui colhida de surpresa! Não esperava encontrá-lo aqui... Provavelmente, entendi mal o que a Madre Superiora me disse...

Antônio interpôs:

—      Não, não entendeu mal o que a Madre Superiora lhe terá dito, Irmã Joana... Posso tornar a sentar-me...?

—      Meu Deus, Eminência Reverendíssima, permita-me que lhe diga que me coloca numa situação muito pouco cômoda! Sou eu que devo pedir-lhe permissão de me sentar no lugar que me indicou...

Antônio moveu a cabeça numa negativa e sorriu.

Heinrich Lossow, O Pecado, sec. XIX

 

O Papa que nunca existiu, foi

editado pela Record no Brasil

e pela ASA em Portugal.

—      A minha posição como Cardeal não me fez esquecer a educação que recebi dos meus pais, Irmã Joana. Faça o favor de se sentar antes de eu tornar a ocupar esta cômoda cadeira da Madre Superiora.

A Irmã Joana exibiu-lhe um nervoso e pálido sorriso e sentou-se no sofá.

—      Muito obrigada, Eminência Reverendíssima — agradeceu, num tom de voz pouco seguro.

Antônio tornou a sentar-se enquanto a observava discretamente; além de muito bonita e elegante, o seu timbre de voz era agradável e sublinhado por um não menos agradável leve sotaque portuense. Pelo seu porte natural, em nada forçado, a Irmã Joana devia ter bons antecedentes familiares e recebido uma esmerada educação. E nesse preciso instante, Antônio pressentiu qual seria o fulcro do problema ou problemas que a afectavam, as muitas dúvidas no espírito e a insegurança que a atormentavam e estavam a preocupar a Madre Superiora. Por outro lado, também suspeitou do motivo da “ausência de coragem” por parte da Madre para abordar o assunto — constava que ela vivera na juventude um caso que devia ter alguma semelhança com o da Irmã Joana...

—      Irmã Joana — principiou Antônio num tom de voz paternal que chocava com a muito pouco significativa diferença de idades entre ambos —, proponho-lhe uma amena e franca conversa. Está de acordo...?

Ela moveu-se um pouco, como se procurasse uma posição mais confortável, mas o gesto apenas denotava que não se sentia capaz do à-vontade em que Antônio pretendia colocá-la, e ele apercebeu-se disso; por esse motivo, decidiu mudar de táctica, pelo menos de início.

—      Eminência Reverendíssima, creia que não posso discordar do que me... do que me propuser...

—      Irmã Joana — interferiu Antônio —, que idade tem?

—      Vinte e seis anos, Eminência Reverendíssima.

—      Eu tenho trinta e um. A nossa diferença de idades é de apenas cinco anos!

—      Eu sei, Eminência Reverendíssima... Quero dizer, sei que deve ser o Cardeal Patriarca de Lisboa mais novo de sempre...

—      Vou alterar a proposta inicial que lhe fiz — prosseguiu Antônio, em voz calma e mantendo-se sorridente. — Continuemos a nossa conversa pondo de parte a minha condição de Cardeal Patriarca e a sua de Freira...

—      Mas, Eminência Reverendíssima, não vou conseguir esquecer, mesmo por breves momentos, a sua condição...

—      Se não vai conseguir esquecer, mesmo por breves momentos, como disse — interrompeu-a António —, vai pelo menos não separar a sua condição de pessoa humana, que nunca poderá apartar da de religiosa, da de leiga, que forçosamente antecedeu a sua condição actual de religiosa. No que me diz respeito, e para a chocar o menos possível, não vou separar a minha condição de homem, com todos os defeitos e fraquezas que lhe são inerentes, da de membro da Igreja, que tem de dominar e superar com todas as suas forças esses defeitos e fraquezas. Portanto, na linha que separa as nossas condições de seres humanos, fracos e pecadores, da que professamos como religiosos, lutando diariamente contra todas as nossas tentações, que vamos conduzir a nossa conversa como duas pessoas que se estimam e respeitam.

A Irmã Joana sentiu-se como uma pessoa que acaba de cair numa armadilha, mas iria concluir que estava enganada, que a diferença entre armadilha e concessão de todo o apoio moral possível ao encontro da necessária e melhor solução para os seus problemas era abismal.

—      Permita-me que lhe pergunte, Eminência Reverendíssima, se cometi alguma falta grave da qual a consciência ainda não me acusou?

—      Não cometeu qualquer falta grave, mesmo que inconscientemente — disse António. — A única falta que poderá estar a cometer é contra si e incide no receio de encarar o seu problema de frente, com a necessária coragem, decididamente, e tomar a resolução que se impõe... —Após uns segundos de propositado silêncio, Antônio perguntou-lhe: — Sabe que é muito bonita?

Corou e cruzou as mãos.

—      Se sou, Eminência Reverendíssima, não serei uma excepção. Temos outras Irmãs neste convento que são bonitas...

Com aparente indiferença ao comentário, Antônio continuou:

—      Sabe que, na minha condição de homem, me sinto atraído por si? Considera esta natural atracção como um pecado mortal? — sublinhou,

—      Não sei responder-lhe, Eminência! — exclamou. — Não sei responder-lhe, creia...

—      Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto — recitou Antônio. — Disse-o Jesus Cristo, no Seu Sermão da Montanha, Irmã Joana, como não deve ignorar. Já meditou sobre o seu presente e o futuro neste convento? Já pôs a si própria a questão de ser uma má árvore cá dentro e poder ser uma boa árvore lá fora...?

Já meditou sobre o seu presente e o futuro neste convento? Já pôs a si própria a questão de ser uma má árvore cá dentro e poder ser uma boa árvore lá fora...?

—      Afinal, Eminência, parece-me que terei cometido qualquer erro de que ainda não tomei consciência... e deve ter sido extremamente grave para ter sido submetida ao seu julgamento!

—      Eu não julgo seja quem for, Irmã Joana; posso, aliás como qualquer outro simples mortal, formar juízos de carácter particular sobre esta ou aquela pessoa, o que é totalmente diferente do que estará a pensar sobre esta nossa conversa. Repito que não cometeu qualquer falta grave, mas erro, isso sim, cometeu!

—      Não compreendo, Eminência Reverendíssima. Por que me disse, e continua a afirmar, que não cometi qualquer falta grave?!

—      Porque existe uma grande diferença entre falta grave e erro. Em princípio, falta grave pressupõe o envolvimento de outras pessoas, afectadas pela falta cometida, e muito embora um erro também possa, naturalmente, prejudicar outras pessoas, regra geral associa-se erro ao prejuízo de quem o comete. E este é o seu caso, Irmã Joana.

—      O meu caso, Eminência...? Pretende dizer que estou... que estou a sofrer as consequências de um erro que cometi...?!

—      Precisamente, do erro que está a cometer — frisou Antônio.

Ela cruzou os dedos, mas tornou a descruzá-los um momento depois.

—      Mas que erro poderei estar a cometer, Eminência? — inquiriu, e a sua dúvida parecia genuína.

—      A árvore, Irmã Joana. Que árvore será neste convento, a boa ou a má? ... — Antônio ergueu-se, contornou a secretária e colocou-se defronte dela. — A boa ou a má? — repetiu.

—      Estou muito longe de ser perfeita, Eminência... e admito que não tenha ultrapassado ainda uma posição intermédia... de acordo com a parábola do Senhor no Seu Sermão da Montanha, que mencionou, Eminência...

—      E isso quer dizer...?

—      Que, por enquanto, serei uma árvore em crescimento, sem raízes fortes, ainda não definida como boa ou má, Eminência...

Antônio virou-lhe as costas e regressou à secretária.

—      É uma mulher inteligente, Irmã Joana — disse-lhe, antes de tornar a sentar-se e encará-la de novo. — E persistente — acrescentou. — Os romances em que as heroínas se recolhiam a um convento por um desgosto de amor são de tempos remotos, estão ultrapassados. Mas a literatura actual ainda foca um caso ou outro... e na vida real ainda acontece, muito raramente, mas acontece. Por que motivo está a travar uma luta consigo própria, com o espírito cheio de dúvidas, de incertezas que a atormentam, e não se decide pela solução mais acertada? Por que razão não se aconselhou ainda com a Madre Superiora, que é uma pessoa de excelente formação e a mais indicada para a ajudar?

A expressão assumida pela Irmã Joana denunciava profunda perplexidade perante o que não esperava ouvir; mudou de posição no sofá e principiou a mover os dedos, que mantinha cruzados.

—      Perdoe-me, Eminência, mas está a confundir-me. Não compreendo o que pretende dizer-me... Por que motivo devo aconselhar-me com a Madre Superiora...?

Antônio sorriu.

—      Devo rectificar o que lhe disse há pouco, Irmã Joana. Não tenho razão alguma para considerar que não é persistente, mas no caso particular de esta nossa conversa o termo teimosa — frisou — parece-me o mais adequado. Há algum motivo especial para persistir em manter-se fechada como um túmulo?

—      Eu...

—      Estou convencido de que já chegou à conclusão de que não dará bons frutos aqui dentro, Irmã Joana, mas fora deste convento poderá fazê-lo, porque lá fora poderá ser a boa árvore que não será aqui dentro. Fui suficientemente claro?

—      É muito difícil responder quando não compreendemos...

—      Compreende, sim, Irmã Joana — cortou Antônio. — Deus criou o homem e a mulher. Depois, abençoou-os e disse-lhes: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra... Não é no convento, teimando em lutar contra si própria inutilmente, que o poderá fazer, Irmã Joana!

 

—      Mas eu não estou a lutar, Eminência... Eu não...

—      Está, e inutilmente, repito. Está a desempenhar o papel real da heroína que se refugiou no convento por um desgosto de amor, Irmã Joana! É um dos raros casos verídicos dos dias confusos que vivemos!

—      Foi a Madre Superiora que lhe revelou! ... —Traiu-se sem tomar consciência de que o fazia, mas calou-se, acto contínuo, e concluiu: —A Madre Superiora não podia saber! ...

Antônio não alterou a condução do diálogo, nem mesmo depois de ter chegado à conclusão de que o tiro que disparara no escuro acertara no alvo; dera o passo necessário para salvar uma alma de um erro, para restituir à liberdade uma mulher que não tinha a menor vocação para a vida religiosa e para se isolar do mundo exterior na clausura de um convento.

—      A Madre Superiora não podia saber aquilo que nunca lhe disse, Irmã Joana — observou Antônio.

Ela tinha os olhos rasos de lágrimas, mas era evidente que lutava para não perder o autodomínio — e não ter evitado o choro já era uma prova de estar próximo de ceder à emoção...

Antônio tornou a abandonar a secretária, aproximou-se dela e tomou-lhe as mãos entre as suas; ela baixou a cabeça numa tentativa inútil de esconder as lágrimas.

—      Chore e liberte o espírito do que o atormenta: é o primeiro passo que tem de dar antes de fazer as malas e abandonar o convento, Irmã Joana — disse Antônio. — Conte com o meu apoio no cumprimento dos procedimentos convencionais para pedir a dispensa dos votos. Estou aqui para a ajudar, porque passei por Coimbra com essa intenção, depois de a Madre Superiora me ter comunicado que estava preocupada consigo.

—      E preocupou-se com o meu problema, Eminência?!

—      Naturalmente.

—      Desculpe, Eminência, mas surpreende-me que na sua posição de Cardeal Patriarca se tenha preocupado com a situação de uma pessoa sem a menor importância como eu!

—      Com esse juízo, Irmã, está a cometer outro erro. Se lhe expusesse os princípios pelos quais decidi reger-me, não só me tornaria maçador como iríamos prolongar a nossa conversa por tempo excessivo.

Ela introduziu a mão trêmula no interior do hábito e quando a retirou exibia um sobrescrito com o nome e endereço manuscritos. Elevando-o à altura do peito e continuando com a mão a tremer, confessou:

—      Confunde-me, Eminência, que tenha conseguido saber o que diz esta carta... se não a revelei a qualquer pessoa, incluindo a Madre Superiora! ... Conhece-o? Falou com ele antes de decidir falar comigo? Foi ele que o procurou e lhe pediu...

—      Um momento, não se precipite — atalhou Antônio. — Não conheço a pessoa a quem se refere, nem faço a menor ideia de quem seja. Só posso estar seguro de que, e agora mais do que até este momento preciso, essa pessoa está directamente relacionada consigo e com o problema que a preocupa.

—      Quer dizer, Eminência...?

—      Quero, limitei-me a seguir um pressentimento para a conduzir a uma confissão que respeitarei como se ma tivesse feito num confessionário. E isto com um único objectivo: ajudá-la a resolver o seu problema e conduzi-la ao limiar do caminho que deve seguir o que, no seu caso, é a saída do convento e o reencontro com a vida do mundo que fica para lá das paredes e do portão que dele o separam. Quanto a acreditar ou não em mim, no que lhe estou a confessar com toda a franqueza, é um problema inteiramente seu.

Enxugou as lágrimas no lenço que também retirou do interior do hábito e o sorriso franco que pela primeira vez exibiu foi o princípio da abertura do seu espírito e da libertação de todos os seus problemas de consciência.

 

(TRECHO DO LIVRO "O PAPA QUE NUNCA EXISTIU", DE ANTÓNIO A. ALBUQUERQUE)