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Á BEIRA DO TÚMULO

António de Andrade Albuquerque

 

 

Premonição da Guerra Civil, Salvador Dali

 

Que insensatez pensar em dar o que já não posso dar, que já dei sem ganhar o que agora e, desesperadamente, gostaria de ganhar!

Esta é a minha história; mais precisamente, este é um apontamento sobre a minha existência. Um apontamento com princípio, meio e fim. Sei que o fim está próximo e o prevejo como virá.

 

Cometi erros, como tu, tu e tu. Como tu, também arrependi-me de ter cometido muitos desses erros e estou, nesse momento, a arrepender-me de ter cometido outros e a cometer outros ainda. Aprender até morrer, mas convence-te de que nenhum de nós partirá sábio do mundo que habitamos...

 

Esta é um pouco da tua história, que vives perto de mim, é um apontamento sobre o indivíduo que vive no extremo oposto ao nosso, um apontamento do mundo de ontem, do de hoje, do de sempre, porque as imperfeições nos sentimentos humanos nunca diferiam entre ontem e hoje e não serão diferentes entre hoje e amanhã. As condições de vida e o progresso é que variam. Ontem, lançaram-te às feras numa arena com aplausos e urros de seres ditos humanos; hoje envenenam o ar que respiras, o que comes e o que bebes, e mais depressa voltarás ao pó que te originou.

 

Vais ler este apontamento e meditar, chorar ou rir, vais esquecê-lo e acabar como eu vou acabar, um pouco melhor ou pior. Não duvides do que te digo. Apenas posso desejar-te, como me desejo, que repouses no que para nós – quer creias ou não e seja qual for a tua fé e religião – é eternidade no desconhecido. E talvez aí, longe da podridão que te rodeia, das fraquezas que te consomem, possas admirar o que nunca viste num espelho: o teu espírito.

 

Já não há remédio terreno para mim; estou no fim, conheço a verdade amarga e sei que os dois médicos que consultei acabaram por apostar sobre a duração da minha vida... depois da habitual conferência sobre o mal que me consome.

 

Nessa altura, nós somos, de nós próprios, os melhores clínicos. Diagnosticamos-nos como leigos, mas fazemo-lo com maior precisão, com maior ou menor coragem, sentindo dores de corpo e alma que ninguém por muito profundo que sinta, sente como nós. Não acredites na sina que te

leram, mas acredite que vieste ao Mundo para cumprir um percurso, uma estrada plana ladeada de árvores frondosas de sombra acolhedora ou uma encruzilhada de atalhos para o inferno. Ou ambas, como eu.

 

Diagnostiquei-me e concluí, com profunda amargura, que estou perdido. Os dois médicos continuam a subir a aposta e, acredita, tenho a coragem de lhes achar graça! Mas sou imparcial e tentarei não favorecer nenhum deles. 

 

Sabes o que decidi fazer? Decidi escrever o que estás a ler, este apontamento à beira do túmulo, enquanto os médicos se mantém na expectativa do resultado da aposta. Talvez beneficie, por muito pouco que seja com a leitura...

 

Debrucei-me sobre a campa e vejo um espaço vazio, o espaço que me espera. Não gosto de olhar para ele, podes crer; prefiro olhar para trás, para a minha encruzilhada de estradas planas e atalhos sinuosos. Poderás imaginar o que vejo...? Duvido, por isso te revelo o que não vou deixar atrás de mim, o que perdi, tudo aquilo porque agora daria a própria vida para ganhar... Que insensatez pensar em dar o que já não posso dar, que já dei sem ganhar o que agora e, desesperadamente, gostaria de ganhar!

 

Mas acredito que queiras saber o que vejo. É muito... não apenas as cruzes de pedra que assinalam local onde não é proibido estacionar e o gradeamento e o portão que vedam a entrada de esta desoladora última morada; o que vejo está anos para além das cruzes e das grades, do ambiente silencioso e triste que me rodeia – vejo os meus filhos carentes de atenção, de amor, de carinho, vejo-os desprezados por mim, sentidos com os meus gestos impacientes e bruscos, com a dureza das minhas palavras, com a ausência da minha dedicação...

 

É assim que os vou deixar, sem a atenção, o amor e o carinho que já não lhes posso dar... Porque estou no fim, à beira deste túmulo? Não, porque já me fugiram, porque já os perdi, mesmo para o último adeus...

 

Será que tu – eu já não – continuas convencido de que é por culpa própria que eles sofrem dos complexos problemas da juventude de hoje? Não te iludas porque tu e eu, os outros como nós, os frequentadores de reuniões balofas, vazias, os políticos que desgovernam o Mundo, os odiosos que semeiam miséria, fome, ódio e morte, nós é que estamos doentes e em agonia, nós é que somos responsáveis pelos problemas da juventude, pela liberdade selvagem e descontrolada, pela onda de violência, pelo crime em alta escala...

 

Abandona a vida vazia que vives, frequenta com maior assiduidade a tua casa, dá dedicação e recebe dedicação, amor e recebe amor, compreensão e serás compreendido... e não te aproximes – vazio e arrependido como eu – do abismo, de uma campa como esta, que me espera. Abre os olhos quanto antes e não cometas mais o crime de abandonar os teus; ama-os perdidamente, porque eles são os únicos que vale a pena amar perdidamente neste mundo confuso e a transbordar de ódio... Eu já abri os meus no vácuo, onde já não vale a pena tê-los aberto, de nada me servem as lágrimas que os enchem neste momento, mas elas podem ser-te úteis – extrai-lhes o sal e tempera com conta, peso e medida o que vais digerir deste apontamento. Cura o teu espírito, porque quando o mal do corpo te dominar será impotente para o vencer, serás como eu, que já não posso deixar assinalada como positiva a minha passagem pelo Mundo.

 

Nasceste do pó e em pó te hás de tomar, mas entre o pó original e o final há uma VIDA em maiúscula a cumprir.

 

Estou no vácuo e, numa voz fraca, já quase um murmúrio, deixo-te o meu último apelo. Perdi definitivamente o que nunca consegui ganhar e resta-me a solidão, apenas a solidão. Já nem as lágrimas me pertencem, porque me fogem uma após outra.