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Obesidade Mórbida

por Prof.Dr. Alfredo Halpern

 

 E como tratar um indivíduo com essa doença? Inicialmente, deve-se tentar fazer o tratamento convencional, mas é opinião unânime entre os médicos que os resultados são decepcionantes.

Botero, menino obeso

O nome é realmente assustador, mas o termo obesidade mórbida é amplamente aceito pela literatura médica para designar aquela obesidade exagerada, que, com extraordinária frequência, está associada a um nítido prejuízo de qualidade de vida e a uma quase inevitável redução no tempo de vida. Obesos dessa categoria são aqueles que têm pelo menos 45kg a mais do que deveriam, pelas tabelas de correlação entre peso e altura, ou que têm um Índice de Massa Corpórea (lembrando os leitores, índice de Massa Corpórea é o resultado da divisão entre os quilos da pessoa e sua altura em metros) superior a 40kg/m2.
 

Todos já ouviram falar de obesos que não conseguem andar devido ao peso, ou que não podem passar por portas, ou que não entram em aviões; pois é, esses são os representantes mais exagerados dos obesos mórbidos. Na verdade, hoje em dia já são classificados como superobesos. Tirando a vantagem de que, uma vez por ano, um de seus representantes pode ser o Rei Momo e também o fato de eles poderem ser lutadores de sumô, esses indivíduos sofrem demais! Por que alguém se torna obeso mórbido? Pelo mesmo motivo que uma pessoa se torna obesa, ou seja, ingestão maior que gasto calórico por um bom tempo.
Só que, nos obesos mórbidos, essa diferença se torna ainda mais nítida, porque, entre outros motivos, há um forte componente genético nessa doença. Se há pessoas com muita possibilidade de ter genes predisponentes à obesidade, os obesos mórbidos devem ser alguns deles; segundo minha experiência, pelo menos 70% dos obesos mórbidos têm outro caso de obesidade mórbida na família.

E como tratar um indivíduo com essa doença? Inicialmente, deve-se tentar fazer o tratamento convencional, mas é opinião unânime entre os médicos que os resultados são decepcionantes: a maioria desiste logo, principalmente porque a quantidade de quilos a perder é tão elevada que as pessoas desanimam. Além disso, os obesos mórbidos que conseguem perder peso tendem a recuperá-lo; cerca de 95% dos obesos mórbidos voltam a ganhar peso.
 

Há métodos mais radicais, como o uso de dietas preparadas com poucas calorias, suplementadas por vitaminas em preparações comerciais, que são tomadas sob a forma líquida.
 

Se os pacientes suportarem fazer esse tipo de alimentação por muitos meses, o resultado é bem satisfatório, mas persiste a tendência a engordar de novo. Outro método radical é o uso de dietas acentuadamente hipocalóricas, com os pacientes internados; o melhor resultado que eu já testemunhei foi de um paciente que ficou internado no hospital por um ano e perdeu cerca de 140kg (foi de 220kg para 80kg), e, até onde sei por informações familiares (porque não vejo mais o paciente há algum tempo), é que ele deve estar com cerca de 120kg. Ainda assim, o resultado continua bom!
 

Nos últimos anos, as internações hospitalares foram substituídas pelos spas, que proliferam de maneira espantosa.
Eu tive a oportunidade de chefiar uma equipe que acompanhou, por certo tempo, pacientes dispostos a seguir um programa tipo spa e no qual era praticamente obrigatória a realização de um teste ciclo ergométrico. Fiquei perplexo com a frequência das alterações detectadas, o que significa que essas pessoas têm de ser submetidas a um rigoroso programa de acompanhamento físico.
O principal problema dos spas, contudo, é que as pessoas obesas acham que os poucos dias que vão passar lá resolverão definitivamente seu problema, o que não é verdade. O peso perdido é rapidamente recuperado se a pessoa não persistir na disciplina alimentar. Em outras palavras, o período de restrição alimentar violenta pode ser útil para um arranque inicial, mas, se não for seguido por uma rígida disciplina durante um bom tempo — na verdade, por toda a vida —, de uma maneira ou de outra, teremos tempo e dinheiro perdidos.
 

Evidentemente, o uso de medicamentos é praticamente obrigatório no manejo dos obesos mórbidos. Se os resultados forem bons, eles certamente serão utilizados por toda a vida.
 

Finalmente, a solução mais radical para o tratamento da obesidade é a realização da cirurgia bariátrica.
A cirurgia bariátrica (ou cirurgia para perda de peso) é um método que deve ser reservado aos casos graves, sem êxito após várias tentativas de tratamento clínico bem-orientado. Na verdade, são candidatos formais à realização dessa cirurgia os pacientes nessas condições com IMC superior a 40kg/m2 ou superior a 35kg/m2 com doenças associadas (e são tantas!).
Cada vez mais cresce o número de indivíduos operados, e o Brasil, depois dos Estados Unidos, é o país com o maior número de cirurgias bariátricas realizadas.
Existem várias técnicas cirúrgicas, que devem ser escolhidas de acordo com o paciente. No entanto, não vou detalhar essas técnicas porque isso escapa ao intuito de nosso livro, que pretende basicamente tentar ensinar às pessoas, após entenderem por que ocorre excesso de peso, a atingirem um peso adequado através do sistema de pontos.
Em resumo, acho que devemos encarar com maior seriedade o problema do obeso mórbido e acenar com a possibilidade, se outros métodos falharem, de eles serem submetidos a uma cirurgia.
Certamente, sou o clínico que, no Brasil, há mais tempo acompanha pacientes com obesidade mórbida submetidos à cirurgia bariátrica e sou um entusiasta dela, desde que seja decidida de forma criteriosa.