Por que como tanto? Por que não consigo me controlar?

trecho do livro do Dr. Alfredo Halpern e Dr. Adriano Segal

Lucien Freud, obesa

Eu achei que estava curada.

Havia uns dois ou três meses que eu não sentia nenhum tipo de urgência diante das tentações. Quando eu as via, conseguia recusá-las sem problemas! A sensação de sucesso era maior porque não havia nenhuma muleta química para isso.

Mesmo durante os períodos de TPM (meu último médico de regime — provavelmente o vigésimo de uma longa lista de profissionais mais ou menos sérios, mais ou menos competentes — a chamou, todo empertigado na última consulta, de transtorno disfórico pré-menstrual), eu estava no controle!

Tranquila e confiante, conversei com meu namorado e com minhas amigas e decidi parar o remédio que estava usando. Eu tinha que parar de me apoiar em muletas químicas que só enriquecem a indústria farmacêutica.

Se não tomasse essa atitude, eu não conseguiria saber se o sucesso era meu ou do meu alter ego medicado.

Para tudo na minha vida, minha força de vontade é, e sempre foi, suficiente.

Antes deste episódio (como disse, dois ou três meses, não sei ao certo), tive minha resposta: o sucesso era meu. Muletas são muletas e devem ser usadas apenas por quem precisa delas, o que não é o meu caso. Não eu!

Revendo este período de calmaria, à luz dos últimos acontecimentos, eu tenho que confessar que sempre mantive a incômoda sensação de que ele (o demônio que vez por outra possui meu estômago) estava aqui, dormindo quietinho. Mas vivo!

Porém, a “explicação” (que não explicava nada!) para tanta inquietação era simples para uma mente racional como a minha: o medo que eu sentia era um tipo de trauma, uma fantasia, um pesadelo. Eu estava no controle.

O que aconteceu nos últimos 15 minutos, eu não sei. Só sei que alguma coisa quebrou. Ou ressurgiu. Ou simplesmente acordou. A sensação de ser totalmente possuída não me é estranha. Convivi com ela nos últimos 15 anos, umas quatro vezes por semana em média (sei disso porque várias vezes precisei falar sobre a frequência dessas possessões).

Ok... Vou melhorar isso. Não é bem assim e eu vou tentar mentir o mínimo possível pra mim mesma.

Eu adoraria poder dizer que estou falando de uma possessão propriamente dita, em que minha personalidade sucumbiria a alguma entidade mais poderosa e nefanda, como aquela menina (Linda Blair, eu acho) num antigo filme de terror a que assisti na casa de meus pais, O exorcista (bem que eu gostaria de um para mim).

Mas não é assim. É só um pouco assim. E isso só piora as coisas.

Existe, sim, minha participação consciente e voluntária. Existe prazer, ao menos numa boa parte das vezes. E isso me deixa muito envergonhada e culpada.

Uma psicoterapeuta (tão boazinha... Qual era o nome dela mesmo?) me disse que isso era um pouco parecido com a sensação de culpa que algumas mulheres violentadas sentem. Eu sei que é completamente absurdo sentir essa culpa no caso de estupro. Mas, e no meu?

Talvez eu devesse começar a história do princípio, para tentar encontrar algum indício de erro no caminho. Talvez não...

Talvez eu nem devesse começar... Estou com uma preguiça terrível! Uma fraqueza, mesmo. Sempre fico assim, prostrada, depois de...

Não, vou tentar. Vou tentar, sim. Devo isso para mim mesma!

 

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Este é um livro de ficção, mas que conta uma história que poderia ser real, pois é baseada na experiência clínica dos autores, Drs. Adriano Segal e Alfredo Halpern.

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