As Muitas Obesidades

por Prof.Dr. Alfredo Halpern

Botero, Carta

 

Cansado de ouvir dizer, ler artigos ou livros sobre comportamentos sociais, personalidade, carência afetiva para explicar a obesidade, resolvi dizer o que aprendi em estudos médicos sérios e na minha própria prática clínica.
 

Quando comecei a me dedicar ao estudo e ao tratamento da obesidade, o senso comum dizia que o obeso era um sujeito com pouca “força de vontade”, muita gulodice e alguma preguiça. Muita bobagem! Claro que até pode ser que você encontre um gordo assim pela vida afora, mas existem muitas formas de obesidade e é sobre isso o que escrevo agora.
 

A primeira coisa a se admitir é que existe a predisposição genética para a obesidade. Muitos e diferentes estudos científicos já mostraram que, em média, filhos de pais obesos tem 70% de chance de também serem obesos contra 15% dos filhos de pais magros. Além disso, a capacidade de engordar, com a mesma alimentação, varia de pessoa a pessoa
 

Mas antes que você chegue à conclusão que, diante disso, “é assim mesmo e não há nada a fazer”, saiba que ter genética de obeso não é uma condenação à obesidade. Existem os fatores ambientais, embora o genes tenham preponderância sobre o ambiente. Depois de examinar milhares de obesos e de analisar centenas de estudos científicos cheguei à conclusão de que existem obesos típicos.
 

Assim existem as...

 

OBESIDADE DE NASCENÇA, que são aqueles que fora, crianças gorduchas, fizeram muitas dietas (ou não), emagreceram, voltaram a engordar. Esse tipo de obesidade, do ponto de vista clínico, corresponde a 30% dos casos e está provavelmente associado à tendência genética.
 

OBESIDADE DA PUBERDADE, sendo que a prevalência aqui é das meninas, e que são explicados de várias maneiras:
- psíquicas (as alterações emocionais dos adolescentes) e
- hormonais (aparecimento dos hormônios sexuais, que podem ser causadores de ganho de peso)
Essas são causas prováveis mas há também a história familiar da obesidade que se revela claramente na puberdade. Por exemplo, a menina que engorda nesse período da vida está frequentemente repetindo a história da suas avó e mãe.
 

OBESIDADE PÓS CASAMENTO (exclua-se aqui a gravidez, é claro) que é mais preponderante no sexo masculino. Isso porque haveria uma maior oferta, por parte da esposa, de refeições maravilhosas e um maior sedentarismo do marido. Mas isso está mais pra uma conversa antiga, dos tempos em que a mulher era apenas dona de casa e se esforçava, entre outras coisas, para “prender seu homem pelo estômago”.
Com causas psíquicas, hormonais e genéticas, aparece a

 

OBESIDADE PÓS GRAVIDEZ. Muitas mulheres ganham mais peso que devido, durante a gestação, e depois...
 

OBESIDADE PÓS ABANDONO DE ATIVIDADE FÍSICA REGULAR – típica dos ex atletas e ex bailarinos. Quando isso acontece, a vida do “ex” muda muito, deixando de gastar as milhares de calorias que exigia a sua profissão.
 

OBESIDADE APÓS DEIXAR DE FUMAR – existem duas explicações: 1. Sem o cigarro existe uma economia de cerca de 4% no gasto energético. 2. Come-se mais, segundo os psicólogos para satisfazer a oralidade; segundo os fisiologistas porque se volta a sentir o sabor dos alimentos e também o aroma. Comendo mais e gastando 4% a menos...
 

OBESIDADE CAUSADA POR MEDICAMENTOS – alguns medicamentos fazem engordar: Cortisona e seus derivados; algumas pílulas anticoncepcionais para algumas mulheres; medicamentos usados para a fertilização; alguns antidepressivos, pois aumentam a compulsão por alimentos, principalmente doces e, por fim, alguns medicamentos modernos como olanzapina, clozapina, mirtazapuna e quetiapina.
 

OBESIDADE NA MENOPAUSA – muda o corpo da mulher, a circunferência da cintura aumenta, existe um maior acúmulo de tecido adiposo no abdômen.
 

OBESIDADE POR OUTRAS CAUSAS - retirada do útero, laqueadura das trompas (causas psíquicas e/ou hormonais).
 

MITOS:

 

1. OBESIDADE POR CAUSAS ENDÓCRINAS – como endocrinologista que sou me sinto na obrigação de chamar atenção para o fato de que menos de 5% dos obesos tem causa glandular: tiroide, suprarrenais, ovários, hipófise, pâncreas quando apresentam mal funcionamento não são responsáveis pela obesidade, embora muita gente pense que sim, talvez na esperança de tratar a causa e resolver os dois problemas...
 

2.OBESIDADE POR CAUSAS PSIQUICAS- Nas causas psiquivas que podem estar associadas à obesidade (todos os tipos de traumas e dificuldades, por exemplo) ou a ansiedade, depressão e carência afetiva, existem os que engordam e existem os que, passando pelas mesmas dificuldades, NÃO engorda. Ou seja, nessas situações, existem pessoas que comem e as que deixam de comer... Mas por que? Genética? Diferente transmissão química? Vivências diferentes para a mesma situação?
 

Fato é que as teorias que querem explicar a obesidade como resultado de causas psíquicas estão baseadas em abstrações, passando muito longe das novas descobertas sobre os fenômenos orgânicos que ocorrem nesses casos.

 

E quando existem sentimentos e emoções que perturbam o equilíbrio emocional dos gorduchos as causas são  sociais:

- a vergonha de ser gordo numa sociedade que impõem cruelmente a magreza;

- sensação de culpa;

- bullying;

- dificuldade maior em encontrar colocação profissional...

 

Então podemos concluir que muitas das alterações psíquicas vividas pelos obesos são CONSEQUÊNCIA -- E NÃO CAUSA -- da obesidade.
 

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