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(Simone Martini, sec. XIII, Santa Clara)

 

Clara,

A Padroeira da Televisão
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

 


Clara é a imagem feminina dos franciscanos.
É o ideal de São Francisco na versão das mulheres.
 

Em 14 de fevereiro de 1958, o papa Pio XII a transformou na santa padroeira da televisão, já que, um ano antes de morrer, ela, impossibilitada de sair do leito, teve a visão de tudo o que estava acontecendo numa missa celebrada em seu convento e narrou as imagens, com precisão, para as Clarissas, suas discípulas.
 

Nascida em berço de ouro, a menina Clara deixou para trás todas as riquezas para ir viver literalmente numa pobreza franciscana, unindo-se ao grupo de São Francisco de Assis.
 

Em sua busca de um maior sentido para a vida, renunciou até aos seus longos cabelos louros, que foram cortados pelo próprio Francisco.
 

Caetano Veloso fez uma música para ela. Diz “Santa Clara, clareai”.

 

Clara Santa, clareai as mentes e os corações dos que fazem a televisão brasileira.

Ela nasceu Chiara d’Offreducci.
 

Sua mãe, Hortolona teve uma gravidez muito complicada. Passou mal, quase perdeu o bebê, mas pediu aos céus que lhe fosse dada a graça de conceber aquele filho, que, ela sabia, com aquela intuição que só foi concedida ao sexo feminino, seria alguém muito especial e que faria diferença no mundo.


Em meio a muitas dores, finalmente, em 11 de julho de 1193, Hortolona deu à luz. Era uma menina, de límpidos olhos, e a mãe, agradeceu ao Universo, por ser ela, de gestação tão difícil, perfeita e sadia. Aquilo era uma benção! Era realmente a luz. E, por tudo isso, por sentir-se, naquele momento, agraciada e iluminada, Hortolona resolveu dar à filha o nome de Clara, para que esta viesse também a iluminar o mundo.


Clara foi criada como todas as meninas muito ricas de seu tempo. Mas, à medida que crescia, perguntava-se por que todas as meninas do mundo não tinham a mesma sorte que ela. E, por sorte, ela compreendia o grande amor que sentia em sua família, a fartura de sua mesa, a saúde, a vitalidade de seu corpo e sua beleza extrema, abençoada pelos vastos cabelos louríssimos e aqueles olhos azuis.


A medida que ia crescendo, a menina se perguntava qual seria a razão de todas as pessoas, no mundo, não desfrutarem de tudo aquilo que ela própria desfrutava.

 

Perguntava-se também, frequentemente, sobre os muitos mistérios da vida. O que, afinal, estariam os seres humanos, as flores, os bichos e as plantas a fazer sobre a face da terra? Que mistério era aquele de, de repente, nascer e ter consciência (teriam as árvores e os bichos, consciência também?) e, também de repente, morrer? Morrer e acabar? Ou haveria alguma espécie de vida depois da morte?


Adolescente, viu sua família animada, pensando num bom casamento para ela. Um rapaz de sua classe social, com quem ela pudesse ter lindos filhos e seguir assim o curso de prosperidade e nobreza de sua própria estirpe.


 Clara, porém, estava mais interessada nos mistérios da vida. Ouvira falar de um grupo de pessoas que, renunciando às riquezas mundanas, dedicava suas vidas à meditação, à discussão dos mistérios, ao trabalho social e ao cuidado dos animais e das plantas. Uma turma de "hippies" da Idade Média.


O líder deles se chamava Francisco e era um homem que, cada vez mais, tinha reconhecida publicamente a sua extrema bondade e compreensão. Também se dizia que aquelas pessoas, vivendo na maior simplicidade, traziam no rosto a alegria e nos olhos a benevolência.


Um dia, aos dezoito anos de idade, para desgosto de sua família, Clara fugiu de casa e foi se unir ao grupo de Francisco, na Porciúncula. Cortou seus lindos cabelos louros, abdicou de toda a fartura e de todos os privilégios, aos quais estava acostumada, para dedicar sua vida aos pobres, aos bichos, à reflexão e à meditação que talvez pudessem levá-la a atingir um sentido maior para a vida.


É que ela já compreendera que os seres humanos não são apenas esses indivíduos isolados que o ego nos faz crer.

 

Ela compreendera que aquilo que acontece a um ser humano afeta a todos, que somos um grande corpo, que estamos indissoluvelmente unidos e interdependentes.


Assim, Clara fundou o ramo feminino da Ordem Franciscana, que é também conhecido como Damas Pobres ou Clarissas.
 

Houve aquele dia em que as irmãs se sua congregação saíram, como sempre, às ruas para pedir donativos para os pobres que iam ao mosteiro. Voltaram desanimadas, porque quase nada haviam conseguido arrecadar. Vendo o desânimo delas, Clara apenas disse: “Confiem em Deus”. Quando as moças voltaram para pegar a sacola onde estavam os poucos donativos que receberam, viram que já não a podiam carregar. Tudo o que estava lá dentro tinha se multiplicado.


Clara foi feliz no grupo de Francisco e lá viveu pelo resto de seus dias. Sua natural sabedoria fez com que ela se tornasse a líder feminina do grupo e suas lideradas eram então chamadas de clarissas.


Houve uma ocasião em que um bando de malfeitores sarracenos tentou atacar a sede do grupo. Clara, numa súbita inspiração, saiu à rua, onde os bandidos atacavam, carregando uma linda taça dourada que era usada em celebrações. O sol, como seu aliado, mandou seus raios diretamente para a taça e o reflexo foi tão forte, criando uma luz tão incrível, que os homens recuaram apavorados e fugiram.


Muitos anos depois, quando estava para morrer, impossibilitada de sair de seu leito, Clara lamentava não poder estar presente a um importante ritual que seu grupo celebrava. Mas, de repente, começou a ver, com absoluta clareza, tudo o que acontecia naquele momento na celebração. Narrou tudo às clarissas que a acompanhavam e elas, mais tarde, confirmaram que as visões de Clara estavam corretas.
 

Por isso, Clara tornou-se, em 1958, a padroeira da televisão.
 

Clara nasceu em 11 de julho de 1193 e morreu em 11 de agosto de 1253.