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A Singela Estória do Prof. Dr. Américo*
por Isabel Fomm de Vasconcellos

 

 
 

Era uma vez um médico, bem antigo, que se sentia plenamente realizado com a sua carreira. Desde muito pequeno ele sabia que queria ser médico. A vocação já nascera com ele, vinda sabe-se lá de onde, já que o nosso Dr. Américo era filho de um humilde alfaiate e de uma costureira. Muito as máquinas do atelier de costura, que funcionava na sala da residência de seus pais, trabalharam para conseguir pagar as despesas de Américo na faculdade.

 

O curso foi feito na Universidade pública, mas mesmo assim, Américo não tinha tempo para trabalhar, enquanto todos os seus irmãos, na sua idade, já trabalhavam e havia ainda enormes despesas com livros e o inevitável ciúme dos irmãos que acreditavam que os pais estavam dando à Américo privilégios que eles próprios não tinham.
 

Mas, no fundo, todos respeitavam, na família, a extrema dedicação de Américo. Ele, é verdade, tivera a sorte de frequentar escolas públicas (grupo municipal e ginásio estadual) numa época –começo dos anos 1960 – em que o ensino nessas instituições era realmente bom em São Paulo e, por isso, e também porque se matara de tanto estudar, conseguira entrar na Faculdade de Medicina da USP.
Américo formou-se em 1975. Durante o seu curso, enquanto muitos dos seus colegas reservavam algum tempo para as atividades políticas que estavam, então, na moda, ele só fazia estudar. Ainda conseguiu cavar uma bolsa de estudos num curso de inglês (em troca de divulgar o tal curso entre os seus colegas de universidade) e, antes de se formar, era tão fluente em inglês quanto em português. Isso, é claro, foi muito útil para, mais tarde, as suas viagens ao Exterior, onde participava de importantes congressos médicos.
 

Sim, porque Américo fez uma brilhante carreira acadêmica. Formou-se com distinção, foi o melhor residente de sua turma e, embora fascinado pelos muitos mistérios que a medicina ainda não decifrara no corpo humano, e, por isso mesmo, tentado a especializar-se em oncologia, acabou virando ginecologista, intrigado pela capacidade reprodutiva das mulheres e pelo preço que as fêmeas pagavam por essa capacidade.
 

Mas, embora um sucesso nos serviços de saúde pública onde trabalhou e outro sucesso na faculdade onde passou a dar aulas, Américo era um desastre tanto financeiro quanto político. Mal sabia se defender das armadilhas, que seus colegas invejosos de sua competência, criavam para ele. E no seu humilde consultório de bairro, acabava levando altos calotes, dada a sua generosidade e a sua compreensão para a dificuldade financeira das pacientes.

 

Waldomiro de Deus, 2006, Meu Médico Querido

 

 

 

 

 

 

 

Quando, no Brasil, começavam a proliferar os convênios, por deficiência do próprio sistema público de saúde, Américo credenciou-se em todos e, em breve, em seu consultório, só existiam clientes de grupos médicos (que pagavam bem pouco por consulta) e mulheres muito pobres, a quem ele atendia de graça. Suas noites eram dedicadas à pesquisa e ao estudo e ele só podia frequentar os congressos internacionais quando convidado. Isto, aliás, era um prato cheio para os seus colegas acadêmicos e invejosos, que começaram a acusá-lo de ser um “vendido” para a Indústria. Só que essa estratégia não convencia muita gente, pois o pobre Dr. Américo continuava levando uma vida muito modesta, andando num carro mais velho que ele, clinicando num consultório modesto de bairro, vestindo ternos puídos e calças jeans da década de sessenta. Os salários recebidos na saúde pública também eram modestos, o que ele recebia do consultório bastante ridículo, o que salvava um pouco era a remuneração de sua docência universitária, mas ele torrava tudo em livros e ajudando a própria família.
Assim, enquanto muitos de seus colegas enriqueciam e montavam chiques consultórios nos jardins e em outros bairros nobres da cidade, o Prof. Dr. Américo vivia mergulhado naquela simplicidade franciscana.
 

Mas as suas pacientes... ah, estas o adoravam. Enfrentavam longas esperas na sala de recepção de seu consultório, lendo revistas velhas e capengas de tanto serem manuseadas, para ter o privilégio de seus cuidados. Ele sempre atrasava as consultas. Porque queria ouvir. E ouvia: as condições de vida, os dramas pessoais, as frustrações e as ambições de suas pacientes. Porque ele, quanto mais estudava e aprendia, mais acreditava que a saúde é um tripé: o físico, o emocional e o social. Assim, não via suas pacientes apenas como um corpo, um útero, um par de ovários. Mas procurava ir muito mais fundo, compreendendo como o psicológico e o social estariam atuando no físico.
 

Teve poucas namoradas. Tinha pouco tempo para elas, muito pouco tempo, e elas logo se cansavam e iam procurar alguém mais dedicado a elas.
Quando, no fim dos anos 1980, surgiram os primeiros computadores domésticos, ainda muito caros, Américo gastou todo o seu salário de dois meses na faculdade para conseguir um e, um par de anos depois, era um dos primeiros brasileiros, fora das instituições universitárias, a ter acesso à Internet domesticamente.
 

Um dia, no meio dos anos 1990, recebeu um convite para participar de um programa de TV. Américo ia recusar. Achava uma bobagem ir à televisão. Mas a produtora do programa conseguiu convencê-lo, dizendo que professores sérios como ele poderiam prestar um grande serviço aos telespectadores através de uma informação decente sobre saúde.
Foi.
 

No dia seguinte o telefone de seu consultório estava congestionado. Milhares de mulheres queriam se consultar com ele. A secretaria quase enlouqueceu. Contou a ele que ouvira de muitas delas coisas como o seguinte: “Eu dobro o valor da consulta pra você me arrumar um horário com ele e ainda te levo um presente”.
Dr. Américo, em vez de ficar contente com aquele súbito sucesso, ficou profundamente deprimido. Então bastava aparecer na TV para tornar-se um médico reconhecido e disputado pelas pacientes? Ora, isso não tinha sentido. O que importava ao nosso herói era o acúmulo de conhecimento científico, pelo qual ele tanto lutara nas últimas décadas.
Para o público, porém, quem aparecia na TV era o melhor. O público, um pouco ingenuamente, tinha a tendência de acreditar que a televisão só levasse ao ar aqueles profissionais de alto gabarito e conhecimento. No caso do Dr. Américo e de alguns poucos, isso era verdade. Mas muitas vezes não era. Muitas vezes os produtores de TV levavam quem estivesse mais próximo deles por qualquer razão ou quem tivesse contratado a melhor assessoria de imprensa.
Mas agora Américo estava num dilema. Nunca se recusara a atender ninguém. Como atender, no entanto, todas aquelas centenas de mulheres que ligavam sem parar para o consultório?
 

A secretária deu-lhe a solução:
- Doutor, o senhor mesmo disse que os ginecologistas recém-formados não têm, muitas vezes, a oportunidade de montar um consultório. Por que o senhor não convida alguns deles para vir trabalhar aqui e assim o senhor divide as consultas com eles?
- Mas estas pacientes novas querem se consultar com o médico que elas viram na TV e esse sou eu. – Argumentou o nosso herói.
- Bobagem – respondeu a secretária – Em todas as clínicas dirigidas por médicos famosos, desses que vivem aparecendo na mídia, as pacientes são atendidas pelos médicos assistentes e ficam muita satisfeitas. Quando o médico famoso aparece durante a consulta, então, elas quase desmaiam de emoção. O senhor precisava fazer a mesma coisa. Ficaria rico e – aqui ela deu um risinho maroto – poderia aumentar o salário da sua secretária.
- Como é que você sabe de tudo isso?
- Ué.... Sabendo!
 

O que animou o Dr. Américo foi a possibilidade, afinal, de ajudar os colegas recém-formados e, inclusive, continuar de uma certa maneira a ensiná-los, através de sua própria experiência. Montou uma pequena clínica e contratou mais três médicos. Mas esta também ficou insuficiente quando, pela segunda vez, ele aceitou ir ao programa de TV.
Três anos depois o nosso modesto Dr. Américo era fonte disputada pelos jornalistas de rádio e televisão. Montou uma clínica enorme, com quinze médicos além dele próprio, e adquiriu também modernos equipamentos para poder realizar os exames necessários lá mesmo, tendo contratado, inclusive, os médicos e técnicos para a realização dos exames.
 

Ficou rico, quase milionário, e pôde comprar o carro esporte de seus sonhos. Havia uma fila de mulheres se oferecendo, loucas para casar com o médico famoso e rico. No entanto, jamais se casou e jamais deixou de atender suas pacientes pobres. Quando as ricas eram atendidas pelos assistentes e acreditavam que o famoso doutor só atendesse as ainda mais ricas que elas, ele estava atendendo de graça...
Porém, nos anos seguintes, quando alguém citava o Dr. Américo, sempre havia outro alguém para dizer:
- Ah, esse, além de vendido para a indústria, é apenas um grande marqueteiro.
 

* esse é um conto de ficção, qualquer semelhança com personagens reais não passará de mera coincidência.
Isabel Fomm de Vasconcellos é escritora, apresentadora de TV e jornalista especializada em saúde. isabel@isabelvasconcellos.com.br

 

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Tina Hengles Adorei!

Linda Naufel de Freitas Muito bom Isabel!

Sheila Santos Os pobres de espírito sempre acharão uma forma de criticar aqueles não são como eles. Bom conto Bel

Lilian Roel Murat adorei Isabel!!!

Lourdes Novello é que vc é demais mesmo